Um grupo de arqueólogos está desde o início da semana a desenvolver trabalhos de escavação, em Vilarelho da Raia, Chaves, com o objetivo de encontrar pedaços de história que relatem a dura batalha em que o povo de Cambedo se viu envolvido em 1946.

A casa da D. Albertina, junto à capela, é o ponto de partida para o estudo sobre a resistência às ditaduras ibéricas entre os anos de 1926 e 1975 e a solidariedade na fronteira entre Trás-os-Montes e a Galiza, liderado pelos arqueólogos Rui Gomes Coelho, da Universidade de Rutgers, nos Estado Unidos, e por Xurxo Ayán Vila, que dirige o projeto de arqueologia comunitária do Castro de San Lorenzo em Monforte de Lemos, Lugo.
“Cambedo 1946” é um trabalho inédito no campo da arqueologia contemporânea portuguesa e que irá permitir conhecer em detalhe os principais acontecimentos da batalha travada em dezembro de 1946 na aldeia fronteiriça de Cambedo, entre guerrilheiros antifranquistas e as forças da autoridade nacionais e espanholas.
Cercada durante a noite, a população da aldeia raiana acordou com o barulho ensurdecedor das várias explosões provocadas pelos morteiros do exército espanhol que tinham como objetivo capturar os guerrilheiros.
A casa da D. Albertina foi uma das habitações que mais sofreu com os acontecimentos uma vez que foi o abrigo destes homens que lutaram contra o regime espanhol.
Desde então, a casa nunca foi reconstruída e passadas mais de sete décadas os trabalhos arqueológicos têm permitido recuperar “algumas evidências” da batalha em Cambedo da Raia.
“Neste momento estamos a encontrar objetos que faziam parte da vida doméstica da D. Albertina e, talvez, das suas irmãs”, contou Rui Gomes Coelho.
O projeto pretende igualmente dar visibilidade à comunidade de Cambedo que acolheu e sustentou a guerrilha porque, na realidade, a população tinha “interesses em comum”, nomeadamente redes de comércio, laços familiares, e não gostavam quando lhes “impunham fronteiras”.
Manuel Guerra Gomes, de 82 anos, é um dos habitantes de Cambedo que ainda se lembra bem daquele episódio.

“As ordens da GNR era para que ninguém saísse de casa. Toda a gente estava com muito medo”.

O octogenário lembra que os guerrilheiros mantinham uma relação de amizade com a população e que muitos até conviviam com elementos da guarda fiscal local.
Para o arqueólogo, foi graças a uma espécie de “ética de solidariedade e de hospitalidade” entre estes dois povos raianos que permitiu ao grupo de guerrilheiros permanecer na aldeia sem que as autoridades espanholas soubessem, correndo vários riscos de segurança.
Depois deste acontecimento, grande parte da população foi enviada para prisões no Porto, onde alguns acabaram por morrer. Com tanta gente fora da aldeia, não havia meio de cultivar os campos.
“Quando as pessoas voltaram as colheitas estavam perdidas, as sementeiras estavam por fazer, ou seja, aquilo que encontraram é um grande ciclo de pobreza”, explicou o responsável.
Durante vários anos devido ao estigma social e também à ditadura salazarista, este tema foi sendo esquecido. Até que um dia, Paula Godinho, antropóloga da Universidade Nova de Lisboa, teve a iniciativa de trazer o assunto ao espaço público em 1980.
Nos trabalhos, para além do material de escavação, está a ser utilizado equipamento topográfico, objetos de deteção de metais, usado sobretudo na arqueologia contemporânea, e um gradiómetro. O objetivo passa por tentar encontrar os fragmentos das balas e dos mais de 70 projeteis de morteiro lançados em Cambedo pelas forças armadas.
“Houve um esforço concertado dos governos português e espanhol para por cobro às atividades de guerrilha na fronteira e também para domesticar a própria fronteira, para servir de exemplo para que não houvesse tantas familiaridades entre os dois lados da fronteira”, salientou Rui Gomes Coelho.
Os trabalhos da equipa de arqueologia tiveram início na segunda-feira, dia 20, e terminam no sábado. Entretanto, os resultados do projeto “Cambedo 1946” serão apresentados aos habitantes.
A par desta iniciativa, estão também a ser realizados trabalhos de prospeção em outros locais que terão servido de abrigos a guerrilheiros naquela época.
O vice-presidente da Câmara de Chaves, Francisco Melo, esteve na terça-feira no local das escavações e salientou a importância do projeto “para o conhecimento da cultura local e rural”.
Este trabalho vem “dar conteúdo àquilo que pode ser depois a base do turismo e do desenvolvimento de atividades em espaço rural que tendem a desaparecer da memória coletiva. (…) Este conteúdo é muito importante para o concelho e temos muito gosto em que desenvolvam este trabalho”, sublinhou.
A equipa de arqueólogos conta ainda com a arqueóloga brasileira Márcia Hattoori, que tem trabalhado sobre a ditadura militar no Brasil, o arqueólogo galego Carlos Otero, e o luso-espanhol Rodrigo Paulos.

Cátia Portela

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