Tem 27 anos e com uma vida organizada deixou tudo o que tinha conquistado para dar de si aos outros. Sílvia Vale é natural de Vilarandelo e está na Guiné ao serviço da AMI e dos guineenses.

Sílvia Vale, natural de Vilarandelo, está na Guiné ao serviço da AMI

Assim que acabou o curso não mais parou. Licenciada pela Escola Superior de Enfermagem, em Bragança, logo se inscreveu na AMI – Ajuda Médica Internacional. Passaram cinco anos e, actualmente, tinha emprego em dois sítios, em Lisboa, era aluna de mestrado, mas a vontade de rumar para outras paragens não morreu.

Em Outubro foi contactada por aquela organização internacional, num objectivo que já parecia esquecido, e agarrou a oportunidade “com unhas e dentes”. Fez as malas, semanas depois. Passou Natal e passagem de ano longe da família e amigos, o que de certa forma “já era habitual” desde que é enfermeira, mas também longe do frio. Volta em Abril, depois de seis meses num mundo completamente diferente do que estava habituada. No blogue que preparou para a temporada na Guiné vai contando a sua aventura.

Nem tudo “são rosas”. As despedidas são quase sempre difíceis e a da mãe marcou-a com as primeiras lágrimas ao partir para a grande viagem. Contudo, aos poucos, vai tirando partido da experiência. As primeiras impressões, do calor abrasador, do crioulo, das estradas sem iluminação, das falhas de luz, deram-lhe as boas-vindas a África, mas nada com que a transmontana se intimidasse.

Meio de transporte? Canoa…

De Bissau, capital, até Bolama, ilha onde está a desenvolver a missão, teve de andar mais de duas horas de canoa. “Tenho apreciado paisagens lindíssimas. É engraçado ver as crianças paradas a olhar para nós enquanto passamos e dizem “branco”… Falam a todos e é falta de educação se não os cumprimentamos. As pessoas são extremamente simpáticas, ninguém dá beijos de cumprimento. Estica-se a mão, logo de manhã pergunta-se “kuma ki bu mansi?” (como é que despertaste?). Em Portugal, querem lá saber… Ainda me lembro quando cheguei a Lisboa e ia para a Clínica de autocarro, entrava e dizia “bom dia” e era quase um ET”, conta naquelas que foram as suas primeiras notícias por terras africanas.

Não tem água potável na torneira, nem chuveiro, e o acesso a luz é por gerador, quando não falta gasolina, mas neste momento também já reconsiderou aquilo que é verdadeiramente necessário ou importante. “Depois de passar a primeira semana fiquei com a sensação que os tempos seguintes iriam ser complicados, mas isto é realmente aquilo que sempre quis fazer, aquilo a que sempre chamei de sonho”, confessa.

A rede mosquiteira é praticamente “um bem pessoal e essencial”. “Não durmo sem ela. Supostamente a época dos mosquitos diminuiu com o final da época das chuvas, mas mesmo dormindo de peúgas, eles picam por cima”, desabafa.

Diz que do que sente mais falta é o leite, pois só tem a cesso a leite em pó. No campo da alimentação diz que “só se come, praticamente, peixe. Há porcos por todo lado, mas a maioria dos guineenses são muçulmanos”.

Histórias para contar

O que incomoda muito são os “bicharocos”, que andam sempre à espreita, mas o que incomoda mesmo são as limitações no exercício das suas funções. A área de intervenção da missão corresponde a 3 sectores: Bolama, Ilha das Galinhas e São João. A ilha das Galinhas é uma ilha que fica completamente isolada, com um único enfermeiro, e de onde Sílvia Vale já tem algumas histórias para contar.

“Aconteceu-me de tudo nos primeiros dias. Tive de suturar um rapaz, que se tinha cortado com uma catana. No dia seguinte tive 75 consultas. Depois, deparei-me com uma criança, que tinha caído de uma laranjeira, a tentar roubar laranjas, e tinha perdido os sentidos. Fiz o que podia e foi evacuado para Bissau. Passado um dia foi pedida a nossa colaboração porque estava um miúdo com convulsões e com febres altíssimas. Fizemos de tudo e explicámos à família as nossas limitações. Tinha 20 anos e acabou por morrer. As lágrimas correram-me pela face, não consegui evitar… 24 horas em sofrimento porque simplesmente não há recursos. Nem sempre a família tem condições monetárias para assegurar o transporte, embora depois de morrer haja dinheiro para comprar vacas para festejar a morte. O choque cultural custa…”, conta.

As notícias lusas vai sabendo através da RTP África, mas até tem receio em voltar por causa da tão propalada crise. Longe das eleições presidenciais e dos cortes salariais, continua empenhada na missão da AMI, que é melhorar a qualidade de vida e as condições sanitárias da população de Bolama e da Ilha das Galinhas, beneficiando assim um total de mais de 10 mil pessoas.

Assistência médica e medicamentosa, reabilitação e equipamento de unidades de saúde de base, educação cívica às mulheres e educação para o desenvolvimento e formação dos técnicos de saúde locais são as grandes metas do projecto, que teve início em Junho de 2004 e no qual a vilarandelense tem a sua marca.

Cátia Mata

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