A Voz de Chaves: Manutenção alcançada, parecia impossível, qual foi o segredo?
Rute Carvalho: Não há segredos aqui. Está à vista de todos o que aconteceu: venceu o trabalho e a superação, a capacidade ultrapassar limites e de não desistir após cada adversidade. Parecia impossível ainda antes de iniciar o campeonato. Tornamos, efetivamente, o impossível real: O pior plantel de sempre (refiro-me ao número de atletas disponíveis e não à qualidade – 12 no total, das quais 3 guarda-redes) no melhor e mais competitivo campeonato nacional desde a sua criação.

Houve momentos de dúvidas, vontade de sair?
Logo antes de iniciar a época tive dúvidas se seria capaz de levar a equipa a bom porto, mas decidi arriscar e “entrar de cabeça” no trabalho e na dedicação a uma causa. Todavia, houve um momento que me marcou: a viragem da primeira para a segunda volta. Coloquei a mim mesma o limite do final da primeira volta, para que a equipa rendesse e jogasse de acordo com aquilo que eu idealizei e que, para mim, seria o necessário e mínimo indispensável para podermos atingir os objetivos. Algo que não aconteceu. Ponderei muito a decisão de continuar como treinadora, e expus esse pensamento aos diretores da secção e, no final da sétima jornada, com o Ourentã, onde perdemos categoricamente por 4×0 em nossa casa, senti que a hora de abandonar era ali… decidi ficar, primeiro porque tive a confiança da direção para que isso acontecesse e, principalmente, porque pensei no grupo de trabalho e achei que seria melhor continuar a batalhar com elas do que “abandoná-las” e obrigá-las a começar do zero novamente (na metodologia, nos conteúdos, na filosofia, na identidade…).

A partir daí comecei a olhar para a fase regular como uma pré-época, onde os processos teriam de ser afinados para estarem “no ponto” na fase decisiva. Os pontos teimavam em não aparecer, mas neste caso as “vitórias morais” deram-nos imenso fôlego para continuar a lutar e, inconscientemente, sabíamos todas que mais tarde ou mais cedo iriam aparecer. No final da fase regular estava plenamente convicta que nos iríamos manter no campeonato nacional, e com a notícia da debandada do plantel do Ourentã fiquei com a firme certeza que iria ser esse o caminho. Não escondo que a derrota no primeiro jogo em casa da fase de manutenção acabou por fragilizar um pouco a nossa confiança, mas a partir do momento em que a margem de erro era nula, não voltamos a falhar. Em momento algum senti que a equipa estava a desistir, e o ambiente no treino foi sempre muito positivo, com uma capacidade de trabalho e superação fora do normal, para quem tinha que trabalhar e lutar contra todas as probabilidades. Ao longo de todo este processo tivemos apenas uma “desistência” no plantel, a faltarem 3 jornadas para o final da primeira fase. Algo que, em primeira instância, nos prejudicaria por reduzir ainda mais o plantel, contudo teve o efeito oposto, de união e coesão interna.

Esta equipa está mais preparada para o futuro?
Acho que esta época preparou toda a gente para enfrentar qualquer dificuldade. A mim, imenso! Cometi muitos erros, de gestão, de metodologia, de tudo aquilo que me dizia respeito… mas aprendi com eles, fui corrigindo aos poucos, e neste momento sinto-me mais capaz. A equipa cresceu… cresceu muito e ganhou maturidade competitiva, algo que não apareceu nos primeiros jogos desta época. Não tenho dúvidas que estas jogadoras, essencialmente como coletivo, estão capazes de se apresentar num nível muito superior na próxima época.

Este ano serviu para fortalecer as suas qualidades e para eliminar grande parte dos seus defeitos. A partir de agora, com alguns acrescentos ao plantel, parece-me que esta equipa pode continuar a surpreender e a desafiar probabilidades.

Diogo Caldas

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