Na passada sexta-feira, o produtor agrícola aguiarense Norberto Pires recebeu o 1º Prémio Nacional de Inovação Agrícola, do Clube de Produtores Sonae. O recurso às novas tecnologias para combater o clima adverso no Inverno foi uma das razões da atribuição do prémio à Hortijales. A Voz de Chaves foi perceber as razões do sucesso deste empresário aguiarense.

No Pavilhão Atlântico de Lisboa, que no passado fim-de-semana acolheu o Mercado de Sabores portugueses, um produtor de legumes de Vila Pouca de Aguiar recebeu na passada sexta-feira, 23 de Setembro, o 1º Prémio Nacional de Inovação Agrícola, do Clube de Produtores Sonae. “Sinto-me realizado porque, com um clima muito adverso, consigo competir com empresas que têm melhores condições e até superá-las!”, confessou, com orgulho, à Voz de Chaves Norberto Pires, cuja empresa – a Hortijales – competiu contra cerca de 20 concorrentes para este prémio.

É que a partir de 2006, Norberto Pires, cuja empresa integra o Clube de Produtores Sonae desde 1996, apostou na inovação: começou a introduzir sistemas de aquecimento de estufas com biomassa e, em Fevereiro do ano passado, implementou um sistema de esterilização de solos com vapor de água, sem recurso a qualquer tipo de químico. A opção pela energia renovável e “amiga do ambiente” surgiu para reduzir os custos de combustíveis, mais caros e mais poluentes, numa região com temperaturas climáticas “muito rudes” para a produção de culturas, explicou o produtor. “No interior transmontano, temos mais dificuldades em produzir do que no litoral por causa das amplitudes térmicas negativas [no Inverno], mas não é só inconvenientes. Consumo dez vezes menos pesticidas porque as pragas desenvolvem-se menos”, nota.

Já para o sistema de injecção de água nos solos, apenas pesou a consciência ambiental e a qualidade. “ [Este sistema] fica quatro a cinco vezes mais caro que a desinfecção química”, refere o produtor. Então porquê investir avultadas verbas, sem qualquer apoio financeiro ou comparticipação de fundos europeus? “Estratégia” e “visão empresarial”, responde Norberto Pires, apontando ainda a vantagem de este sistema não exigir intervalo de segurança para implantar culturas.

Cerca de 95% dos legumes de Noberto Pires são vendidos no Continente

Criada em 1993 por Norberto Pires e pelo irmão, a Hortijales, com sede em Quintã de Jales e explorações em Soutelo de Aguiar, é hoje uma das maiores empresas do distrito de Vila Real no sector da produção de legumes. Depois de 13 anos a trabalhar no sector hortícola na Suiça, o produtor começou a escoar para os mercados da região, entrando mais tarde para o Mercado Abastecedor do Porto. Em 1996, deu-se o “boom” no crescimento do negócio da empresa de legumes: entrou no Clube de Produtores Sonae e actualmente, das 700 a 800 toneladas de legumes que Noberto Pires colhe anualmente numa área de 10 hectares (22 mil em superfície coberta), 95% vão para a Sonae, que abastece os hipermercados Continente e Modelo. “Antes de entrar para o Clube de Produtores Sonae, estávamos sujeitos às regras do mercado da oferta e da procura. Agora, temos a garantia que as produções vão ser escoadas”, afirma Noberto Pires.

Mas manter o parceiro exige suor. O Clube de Produtores tem técnicos agrícolas no terreno a apoiar os produtores, mas também exigem elevados níveis de qualidade nos produtos. “As regras da Sonae são muito rigorosas e extremamente exigentes”, confirma o produtor aguiarense. Respeito ambiental, segurança alimentar e aspecto visual são critérios que não podem falhar, sendo os empresários sancionados se não responderem à chamada.

Menos 30 a 40% de margem de lucro nos últimos dois anos

Norberto Pires já teve produção em Curalha, no concelho de Chaves, mas deixou de o fazer por questões de logística. Este ano, também deixou de cultivar tomate para venda, já que não estava bem equipado para o seu processamento e optou por outra cultura. Contudo, “nos últimos dois anos, as margens de lucro baixaram 30 a 40%”, com a redução mais significativa registada este ano, aponta o aguiarense. Para Norberto Pires, a principal razão é haver mais oferta do que procura, embora até à data não tenha reduzido a produção. “Tem-se criado muitas estufas e cultivado mais superfície”, considera.

Este crescimento deverá agora ser travado pela crise e “o sector vai perder produtores”, prevê o empresário agrícola. “A solução é diversificar culturas. Temos de estar atentos a oportunidades para começar com novas”, aponta Norberto Pires, que está a desenvolver estudos de mercado para começar a produzir cebolas. Assim, nos próximos tempos, “conto ficar no rol dos que resistem” à crise, espera. Como? “Tenho um bom parceiro e confio nas minhas capacidades de gestão e de trabalho. Não conto as horas!”, ri-se.

Sobre o segredo do sucesso, Noberto Pires fala de “seriedade, rigor e cumprimento”. Muitas vezes, a maioria dos produtores da região “não tem estratégia para estar no mercado”, lamenta. “O potencial da região é só um: a qualidade do produto. Não temos quem nos bata na qualidade, mas o produto tem de ser comercializado com a marca Trás-os-Montes”, remata. O que falta então à produção local? “Primeiro, mudar mentalidades. Depois, estar ligada a uma estrutura fiável”.

Sandra Pereira

 

 

Ficha Técnica da Hortijales

Zona de produção: Quintã de Jales e Soutelo de Aguiar, no concelho de Vila Pouca de Aguiar

Área de Cultivo: 10 hectares (22 mil em superfície coberta)

Culturas produzidas: alface, alho francês, couve coração, nabo, pimento, pepino e feijão verde

Produção: 700 a 800 toneladas de produtos hortícolas por ano

Nº de trabalhadores fixos:15

Prémios recebidos: 3º prémio de melhor exploração agrícola (1999), 1º prémio da semana verde (2002) e 1º prémio de melhor empresa agrícola (2005) na feira de Silleda, Galiza (Espanha)

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