Os alunos do 2º e 3º anos do ensino profissional, à semelhança dos estudantes do 11º e 12º anos do ensino regular, regressaram na semana passada às aulas presenciais. Antes disso, a Escola Profissional de Chaves (EPC) foi totalmente higienizada, em coordenação com as equipas da Câmara de Chaves e da Proteção Civil Municipal, e adaptada com as novas regras de segurança divulgadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

Jorge Paulo Santos

Este ano, e pela primeira vez, os alunos do ensino profissional têm acesso direto ao ensino superior, não necessitando por isso de prestar provas a nível dos exames nacionais, salvo em algumas exceções. Por causa disso, e para garantir o acompanhamento dos alunos nas disciplinas com componente prática, a EPC decidiu adaptar o espaço, assim como os horários, e abrir portas aos seus alunos.

“Houve um ajuste dos horários e ocupámos toda a faixa da manhã para que os alunos do 2º e 3º anos tivessem oportunidade de vir à escola e de retomarem a prática, que é o fator que nos distingue das outras modalidades de ensino”, explicou Jorge Paulo Santos, diretor executivo da Escola Profissional de Chaves.

Em aulas presencias estão 89 estudantes dos cursos de Cozinha/Pastelaria, Restaurante/Bar, Eletrónica, Automação e Computadores e também os do curso de Termalismo, ficando em sistema de aprendizagem à distância os alunos de Informática e de Vendas e Marketing. A Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega e a Câmara de Chaves asseguram o transporte diário a 74 destes estudantes, entre as 9h e as 14h30.

A EPC recebe em média 30 alunos por dia, sendo que as turmas com mais alunos foram divididas para conseguir cumprir as distâncias recomendadas pela DGS dentro da sala de aula. Apesar de o bar da escola estar fechado, a autarquia flaviense disponibiliza a meio da manhã um reforço alimentar a todos os alunos e a cantina garante o almoço aos que regressam a casa de transporte público, entre as 13h e as 13h30.

A máscara de proteção é de uso obrigatório dentro da EPC assim como a limpeza das mãos com gel desinfetante. Quando os alunos chegam à escola são encaminhados pelos funcionários para a respetiva sala de aula e no período de pausa são distribuídos por diferentes espaços, em horários desfasados para que possam descontrair, mas sem aglomerações.

De acordo com Jorge Paulo Santos, no primeiro dia de aulas era notório o entusiasmo dos alunos por poderem regressar à escola depois de dois meses em confinamento domiciliário. “O balanço da primeira semana é ótimo, os meninos estão felizes com a oportunidade de reverem os colegas, os professores e de regressarem a este lugar que também é a casa deles”, sublinhou o mesmo responsável.

Alunos desenvolvem novas capacidades

Dos alunos previstos para regressarem às aulas presenciais, 10% não o fez, tendo os pais justificado com “motivos de saúde”, “proteção dos próprios alunos” ou “proteção dos agregados familiares inseridos nos grupos de risco”. Neste caso, a Escola Profissional de Chaves tem facultado meios para que os alunos continuem a aprender a partir de casa.

Para Jorge Paulo Santos o ensino “dificilmente vai voltar a ser o que era” e, apesar dos malefícios para a saúde e a nível financeiro, o diretor da escola flaviense diz que existem alguns pontos positivos que importa reter nesta nova realidade.

“Acredito que a componente digital se irá manter. Aprendemos todos muito e muito rapidamente. Preparámo-nos para uma nova realidade que agora vamos continuar a querer aproveitar. Mesmo com a oportunidade das aulas presenciais, vamos continuar a usar muitas ferramentas digitais e muitos dos conhecimentos que desenvolvemos. Ganhamos muito tempo na aprendizagem rápida que fomos obrigados a fazer e tenho a certeza que vamos tirar benefício disso”.

Esta nova realidade tem sido também, na ótica do dirigente da EPC, um elemento importante ao nível da aprendizagem comportamental.

“O hábito de usar a máscara, o hábito de lavar as mãos, a desinfeção com soluções alcoólicas, a limpeza e a higienização de espaços assumiu-se como rotina. Isso também é educação. São deveres cívicos que se praticam e que se consolidam e que tem sido muito bem aceite pelos nossos alunos”.

Sobre a avaliação final, o Ministério da Educação anunciou na semana passada que vai auditar as avaliações dos alunos, comparando-as com as notas do 1º e 2º períodos para travar inflação das notas finais, estando previstos processos disciplinares nos casos em que isso for detetado. O responsável pela EPC garante que está tranquilo e justifica com a especificidade modular do ensino profissional.

“Ao ser modular, os alunos estão a ser avaliados em cada momento específico de aprendizagem e, portanto, não temo nada disso. A experiência dos professores e a continuidade de trabalho vão permitir que tudo se mantenha de forma estabilizada. A diferença aqui é a maneira como avaliamos e a dificuldade de o fazer neste formato. Em termos de justiça, temos todos os critérios definidos”, justificou.

Em junho iniciar-se-ia uma nova fase para os alunos finalistas e também para os alunos do 2º ano com o arranque dos estágios. Jorge Paulo Santos disse que ainda não havia uma decisão concreta no que respeita à realização ou não dos estágios, uma vez que o tecido empresarial só agora tinha retomado o trabalho e outros só a partir de junho é que o fariam.

No entanto, o responsável adiantou que os alunos finalistas iriam, no primeiro mês de estágio, ter prática simulada em contexto de trabalho, desenvolvendo as aptidões que se desenvolveriam em contexto empresarial na escola, complementando com um trabalho sobre a empresa onde irão estagiar no mês seguinte.

“O estágio presencial nos alunos finalistas é uma integração no mercado de trabalho, ou seja, uma percentagem muito grande dos nossos alunos vai fazer estágio na empresa e tem normalmente o convite para continuar a trabalhar lá. Já os alunos de 2º ano, o estágio é uma questão motivacional, onde o aluno vai aprender as aplicações do curso em que está inserido”. De fora ficam os alunos do 1º ano, dado que estão em sistema de ensino à distância.

Para que ninguém ficasse para trás, escola realizou estudo para saber as reais necessidades dos alunos

No dia 16 de março, a Escola Profissional de Chaves foi também obrigada a encerrar portas por recomendação do Governo com o propósito de evitar a propagação da covid-19 na comunidade escolar. Desde então, professores e grande parte dos alunos passaram a contactar através do telemóvel e dos meios digitais disponíveis. Jorge Paulo Santos considera que face aos acontecimentos daquela altura a decisão foi a mais sensata e que a transição da aprendizagem presencial para o ensino à distância na escola que dirige “foi pacífica”, revelando que na escola já eram utilizadas algumas metodologias tecnológicas para partilha de conhecimentos, como é o caso do Moodle, do Microsoft Teams, do Skype, do Zoom e do Office 365, sendo por isso mais fácil a adaptação dos alunos e professores ao mundo digital.

“Tivemos alguma facilidade em dar continuidade ao trabalho porque alguns professores já utilizavam essas ferramentas para disponibilizar apontamentos aos alunos, e assim se evitasse a sua impressão, ou também eram utilizadas para os alunos entregarem trabalhos individuais, o que neste caso facilitou à transição”, destacou. Desta forma, e já no término do segundo período, foi possível realizar “um trabalho de qualidade”.

No entanto, e para que nenhum aluno ficasse para trás por falta de equipamento tecnológico, os serviços da escola, juntamente com os diretores de turma, realizaram um estudo prévio sobre as reais necessidades dos alunos no que refere a esta temática. Assim, todos os alunos do escalão 1, 2 e 3, alunos que recebem subsídio escolar, foram inquiridos no sentido de perceber se possuíam um smartphone, internet móvel, computador e internet fixa. O estudo demonstrou que grande parte destes alunos tinha telemóvel com internet móvel, porém, a capacidade da internet para trabalhar seria insuficiente, e que 30, num universo de 200 alunos, não tinham computador. “A escola de imediato resolveu a situação facultando os computadores”, disse Jorge Paulo Santos, faltando ainda solucionar a falta de internet fixa em seis lares.

Aqui, a escola forneceu material impresso que era recolhido na escola pelos alunos ou pelos encarregados de educação, havendo ainda alguns alunos que realizavam as atividades na própria escola, adotando todas as medidas de segurança, higiene e distanciamento social.

No ensino à distância, a Escola Profissional de Chaves decidiu que metade da carga horária das disciplinas seria em formato síncrono, com modalidades de videoconferência ou interação direta, com alguém sempre disponível do outro lado do ecrã para tirar dúvidas aos alunos, sendo a outra metade das atividades realizadas em modo assíncrono.

A direção da escola teve ainda um trabalho acrescido no que respeita à organização do número de horas presenciais dos alunos, obrigatória no ensino profissional. No caso das aulas práticas, foi utilizado o sistema de “prática simulada”, com os alunos, por exemplo, do curso de restauração, a colocarem a mesa em sua casa, seguindo o protocolo apreendido, e a enviarem fotografias com o serviço elaborado, ou até mesmo na confeção de pratos com os formandos a cozinharem em casa com a família a “avaliar” o resultado dessa confeção. Nos cursos de eletrónica e informática os alunos utilizaram software de simulação para cumprir as propostas dos professores.

Jorge Paulo Santos adiantou que o estabelecimento de ensino disponibilizou formação aos professores que não estavam tão familiarizados com as novas ferramentas e até mesmo com as regras de comunicação e com o modo de realização das atividades e os horários das mesmas. Ao mesmo tempo, a direção da escola teve ainda a preocupação de partilhar junto dos não docentes informação pertinente, nomeadamente no que diz respeito à higienização das instalações.

Outra das preocupações da escola foi a de desenvolver junto dos pais e encarregados de educação um espírito de entreajuda para que “promovessem junto dos seus filhos/educandos a obrigação do cumprimento das suas obrigações pedagógicas”, agora à distância e com outro modelo, e de gerir junto dos alunos a ansiedade, através de um sistema de difusão de mensagens constante.

Jorge Paulo Santos reconhece que o trabalho desenvolvido pelos docentes e não docentes não foi fácil e que implicou um esforço ainda maior do que o habitual.

“Preparar uma aula é sempre um trabalho meritório porque há sempre aquela expectativa de agradar aos alunos, de ser interessante e motivador. Com o ensino à distância, os professores tiveram que se adaptar a um monitor (…) havendo ainda uma dificuldade acrescida na comunicação. Estar em presença é diferente de estar a ver 20 quadradinhos com o rosto de cada. O sistema permite controlar a presença, mas a interação não é a mesma, que aliada a outros obstáculos, como o da distração ou até mesmo o facto de por vezes falarem todos ao mesmo tempo, perturba o normal funcionamento das aulas e gera um cansaço extra”, salientou o diretor da EPC. Apesar das dificuldades, Jorge Paulo Santos garante que todos os colaboradores corresponderam “com muita qualidade ao desafio e a esta nova normalidade que nos foi imposta”.

EPC oferece seis áreas de formação no próximo ano letivo

Esta altura era por excelência a data escolhida pela Escola Profissional de Chaves para a organização do “Open Day” na zona ribeirinha da cidade, no jardim do Tabolado. Uma oportunidade para a comunidade escolar conviver e para divulgar a oferta formativa da escola. Com a atual pandemia, o estabelecimento de ensino foi obrigado a cancelar o dia, assim como outras iniciativas protagonizadas pelos alunos da EPC.

Jorge Paulo Santos adiantou que já é conhecida a oferta formativa para o próximo ano letivo nas escolas do Alto Tâmega, faltando apenas a homologação do Ministério da Educação. Em 2020/2021 a EPC tem aberto seis cursos: Cozinha/Pastelaria, Restaurante/Bar, Eletrónica, Automação e Computadores, Mecatrónica, Comunicação, Marketing, Relações Públicas e Publicidade e Design Digital 3D.

O diretor da EPC revelou que será organizada a nível nacional uma ação de divulgação do ensino profissional no âmbito da Associação Nacional de Escolas Profissionais. Em Chaves, Jorge Paulo Santos irá continuar a apostar nos meios digitais para conseguir chegar aos mais novos, dando a conhecer a oferta formativa da escola para que os alunos do 9º ano possam decidir de forma “consciente e vocacionada” o melhor curso e a escola mais adequados para a sua realização. Os interessados podem obter mais informações através do site oficial da EPC, em www.epc.pt, ou na página da rede social Facebook da instituição, www.facebook.com/epchaves.

Devido ao aparecimento do novo coronavírus, a escola cancelou a realização da festa de finalistas, um momento de alegria que contava com a presença dos alunos em fim de curso e dos seus familiares, juntando cerca de 400 pessoas nesses eventos.

Os alunos enviaram à direção da escola um documento escrito onde manifestaram o seu descontentamento e tristeza pela não realização desse momento, com muitos deles já com “tudo preparado para o jantar de gala” e “com a emoção de juntar a família e de festejar o final do curso”. Sabendo deste sentimento, Jorge Paulo Santos garantiu que os alunos não iriam ficar sem a sua festa, sendo reagendada para outra altura.

“Nós também estamos tristes por essa oportunidade não existir neste momento, mas vamos simplesmente adiá-la porque é-lhes devido”, sentenciou o diretor executivo da EPC.

Cátia Portela

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