O líder da Associação Portuguesa O Samurai explica em entrevista À Voz de Chaves o percurso desta associação na defesa e promoção de uma arte transmontana: a Luta Galhofa.

A Voz de Chaves: Como tem sido o seu percurso neste tipo de desporto?
Vítor Gomes: O meu percurso neste tipo de desporto fez despertar curiosidade em conhecer o que é nosso e aprender, investigar e compreender algo onde até eu desde pequeno tinha crescido a ver e a compreender essa tradição. Por esse motivo quis recuperar algo que era tão nosso. Luta Galhofa, que já vem do tempo dos Lusitanos, que para além de serem um povo guerreiro eram muito estratega, nunca foram vencidos pelos Romanos, sempre comandados por Viriato. Consta-se que também tinham uma bebida, que podemos comparar à famosa banda desenhada de Astérix & Obélix a poção mágica. Isso aconteceu não em França, mas em Portugal. Tinham uma bebida que era feita com cogumelos venenosos, onde as propriedades alucinógeneas faziam dos bravos guerreiros ainda mais bravos e invencíveis. Em algumas localidades o vencedor usava um cordão ou cinto de pano à cintura, que simbolizava o campeão e se em determinada altura essa pessoa perdesse, era retirado esse cinto e o novo vencedor mostrava-o com orgulho e era ele que o colocava à cintura, até que outra pessoa lho tirasse, quase como se de um título de campeão e de um cinturão se tratasse, como acontece nos dias de hoje, em algumas modalidades inclusive na Lut Tradicional Portuguesa, Luta Galhofa.

Como foi o passar da Luta tradicional para a Luta desportiva?
Foi um trabalho que durou anos. Surgiu em 2008 e já em 2016 eu e os meus atletas federados na FPLA e a preparar a transição da modalidade para a federação em questão e extinguir a FPLGDI Federação Portuguesa de Luta Galhofa e Desportos Interculturais – O Guerreiro Lusitano. Finalmente em 2017 já na Federação Portuguesa de Lutas Amadoras, tratou se de organizar provas oficiais, onde foi realizada a 1º em Boticas em 2018, onde já era modalidade desportiva. Tivemos um grande desafio em preservar algo que é nosso, mas até lá é continuar a lutar para que não fique esquecida esta arte milenar. Por esse motivo, em 2019 a prova desportiva da Luta Galhofa. Foi realizada com a componente desportiva e também a desportiva, mas tradicional, mantendo as regras antigas, as quais interditavam a presença de mulheres e crianças, não havia categorias de peso (ou seja, era absoluto) e os homens lutavam em cima da palha e pelo título de campeão, recebendo um cinturão o vencedor, mantendo o tradicional em tempos modernos. Sinto-me lisonjeado pelo facto desse título ter ficado na APS através do brilhante desempenho do meu aluno João Silva, o qual competiu com adversários com peso superior ao seu. Este projeto envolveu várias pessoas e os meus atletas principalmente, o Presidente da FPLA Pedro Silva, e muitos mais da FPLA e da APS. Do que se conseguiu nunca poderia ter conseguido sem o apoio da minha família, atletas e amigos, pois eles sempre me apoiaram. Os meus atletas e os respectivos pais foram fundamentais para que a Luta Galhofa seja hoje em dia uma modalidade desportiva e federada.

Como tem sido nesta altura de pandemia?
Inicialmente parámos, íamos estando em contacto via internet, por um grupo, e tentando fazer uns treinos, alguns membros, como trabalhavam e estando livres e sempre com os devidos cuidados tentámos ajudar quem nos contactava para levar compras a casa e não só. Atualmente estamos a treinar ao ar livre e com os devidos cuidados na zona pedonal ao pé do rio e gratuitamente de momento, tem é de estar devidamente federados, mas claro que para já são treinos muito limitados, mas melhor do que estar parado.

Já tiveram algum reconhecimento importante a nível nacional e internacional?
Sim. A nível internacional saímos por duas vezes numa revista de artes marciais mundialmente conhecida – a Cinturão Negro. Fomos também convidados pelo canal História para fazer uma reportagem sobre a Luta Galhofa e recebemos alguns louvores por parte da Original European Ju Jitsu /Ju Jutsu Union. A nível nacional a FPLA tem demonstrado reconhecimento por esta modalidade, só é de lamentar que a nível local isso não aconteça, mas como se costuma dizer: santos da casa não fazem milagres.

O que gostariam de realizar ou conseguir num futuro?
O sonho desta associação é de que a Luta Galhofa possa ser um dia considerada Património Imaterial da Humanidade, à semelhança do Fado, o Canto Alentejano e mais recentemente os Caretos.

Existe algo que a Luta tenha contribuído para outros desportos?
Sim, posso dar o exemplo do vídeo-árbitro, sabiam que a 1ª modalidade a ter vídeo -árbitro foi a Luta. Infelizmente as pessoas ainda têm preconceito em relação aos desportos de combate e acham que há violência. Para mim é muito mais violento um jogo de futebol, tanto para o jogador, como para os adeptos, pois se virmos nos desportos de combate é como o próprio nome diz combate, mas o atleta sabe para o que vai e está preparado e existem poucas lesões e sempre controlado, pois os árbitros estão sempre para proteger a integridade física do atleta. Relativamente ao futebol, se vou jogar à bola não estou à espera de levar com uma joelhada ou uma cotovelada e verificamos mais lesões nos jogadores de futebol, nos adeptos podemos ver que a dita violência se mantém: pais a dizer asneiras com os filhos ao lado. Isso na Luta não acontece. Mas o preconceito nos desportos de combate, chamados de violentos, não é bem assim, pois os seus praticantes aprendem valores e a respeitar sempre o seu adversário.

Têm tido apoios?
Poucos. Na maioria das vezes fazemo-lo por amor à camisola e com investimento próprio para se conseguir concretizar alguma coisa. Alguns patrocínios por parte de particulares, juntas de freguesia e pelo município de Chaves, como quando organizamos o Mundial de Luta de Praia, mas mesmo assim representam uma gota no oceano perto daquilo que seria espectável e necessário. Ambicionamos há já muito tempo por um espaço próprio com condições para ensinar jovens e menos jovens e até muitas vezes resgatá-los de caminhos desviantes, pois como ja referimos várias vezes um dos nossos objectivos era dar os treinos gratuitamente, mas para isso faz falta dinheiro, para gastos.
Relativamente ao apoio Municipal, é importante que as associações tenham esse apoio. Só é de lamentar que tenha sido dito numa notícia anterior que desde 2017 a Associação Portuguesa O Samurai recebeu 8 mil euros e que treina numa sala que tem o valor de 200 €. No que diz respeito à sala em questão, a qual teve que ser restaurada por nós e mesmo assim com poucas condições, por isso que há mais de dois anos que é utilizada somente para reuniões, onde vamos umas 2 a 3 vezes por ano. Por outro lado, fomos informados que essa sala tem um valor de 200€ mensais e quando já por várias vezes, tanto no anterior mandato, como no atual ,temos referido sempre que o que mais ambicionamos é ter um espaço digno para treinar, pois até haveria a possibilidade de ter um espaço de alto rendimento para a modalidade da Luta, mas sempre sem resposta ou que não há salas disponíveis, o que não corresponde à verdade pois sabemos que as há aos anos. Para o mundial de Luta na Praia tivemos um apoio de 4000€ e isenção das taxas camarárias. Esta prova para a cidade de Chaves teve um retorno imediato, pois, só esse valor foi pago numa unidade hoteleira de Chaves, mais as restantes e autocarros, publicidade, etc. Durante 5 a 6 dias os atletas estiveram nesta cidade. Na prova nacional de Greco Romana em 2018, o apoio foi a estadia e alimentação dos atletas no Regimento de Infantaria 19 e também o pavilhão gimnodesportivo para a mesma se poder realizar. Independentemente da quantia dos apoios, estes foram exclusivamente para provas pois a APS não recebeu nenhum, contrariamente ao que se passa com muitas associações que recebem verbas sem organizar nada.

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