Já as quarenta primaveras tinha visto passar e as estações do ano cada vez se aproximam mais. Bom, depois do milénio só me lembro das quadras de Natal. O tempo voa e não perdoa, a vida passa e restam as recordações.

Enfrento agora a desilusão de ser grande. Nada é como imaginava, amores e desamores, amizades e trabalho, tudo é diferente. Sim, sei que já é um pouco tarde para dar conta desta realidade, mas penso que as ilusões não são para todas as pessoas iguais, sendo certo que cada pessoa as vive e alimenta de diferentes formas.

Há quem lhes chame outras coisas, tal como: sonhos, projectos de vida, objectivos, .. mas o certo é que tudo não passa de ilusões. São elas que nos dão força e coragem para enfrentar os dissabores que a vida nos acarreta. Por outro lado, são também elas próprias que nos levam pelos piores caminhos, quase que nos obrigam a tomar decisões irreversíveis, para as quais não há arrependimento possível e com elas temos que aprender a viver. A pior parte das ilusões é quando dependem de terceiras pessoas e estas desconhecem esse facto.

Quem é que um dia, não idealizou como seria aquela pessoa com a qual queria envelhecer ao calor da lareira?

Quem é que um dia, não criou a ilusão de uma vida a dois, com a casa e as crianças a brincar no jardim?

Será que alguém, por muito remota que possa ser a ilusão, não pensou em encontrar aquela pessoa; confidente, amiga, apaixonada!…

Penso que de nada serve fugir desta realidade. Independentemente das ilusões, vivemos numa sociedade em que a nossa realização passa pela vida a dois, pois tal como alguém disse um dia “a vida só é vivida, quando estiver envolvida, na vida, de outra vida”.

À medida que avançamos na vida olhamos para o tempo já vivido e sentimos alguma nostalgia. Costumo pensar que é minha sabedoria interior a dizer-me para aproveitar bem o tempo, o muito ou pouco, que me possa restar.

 Em crianças e depois na adolescência vamos construindo os nossos projectos de vida, pessoais, profissionais, relacionais, … São projectos e sonhos que nos alimentam e dão forças para vivermos o dia-a-dia, quase sempre tão diferente daquilo que idealizamos. Em adultos, creio que continuamos a sonhar, eu pelo menos vivo alguns momentos numa realidade quase paralela e tenho de me obrigar a regressar à realidade, ao meu quotidiano. Mas faço-o com prazer. Com o prazer de quem já viveu tanta coisa que pode recordar ! Todas as paixões e a intensidade com que foram vividas. Aquilo que fui alcançando ao longo da vida, não como um ponto de chegada mas como vivências e experiências que me permitiram ser como sou, valorizar aquilo que tenho e não sofrer com o que não tenho ou não posso ter ou fazer …

E no presente, valorizo muito aquilo que sou e aquilo que tenho, valorizo muito as pessoas, que me têm acompanhado ao longo da vida, que caminham comigo e que dão sentido à minha vida todos os dias. Vivo um dia de cada vez, pois amanhã não sei se cá estou !!! Mas tento vivê-lo o melhor possível, sonhando sempre pois isso alimenta a minha imaginação, criatividade e capacidade construtiva, a minha ilusão…

As coisas más são desafios para nos pôr à prova perante nós próprios e perante as situações, mas desistir não faz parte nem do meu vocabulário, por isso há que seguir em frente, sonhando ou sendo realista, mudando o que se pode e aceitando o que não se pode mudar, procurando forças para enfrentar aquilo que é necessário.

No entanto, em diversas ocasiões, torna-se muito difícil aceitar e enfrentar os percalços da vida, quer tenham origem em nós ou em outrem. Estes momentos são efectivamente problemáticos, e, numa tentativa frustrada de encontrar soluções recorre-se frequentemente à violência. Assim surgem episódios de violência doméstica em que muitas vezes a vítima nem sequer é conhecedora das verdadeiras razões que lhe deram origem.

António Dos Passos Saudade

Colaborador do Projecto – Câmara Oculta

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