Diário Atual
Dr. Bruno Serra USF Aquae Flaviae

Dr. Bruno Serra
USF Aquae Flaviae

Conforme descrito na crónica anterior, a disfunção eréctil (impotência), sendo frequentemente uma manifestação clínica de doença vascular, pode preceder o aparecimento das doenças cardiovasculares, como enfarte do miocárdio e AVC, funcionando como um verdadeiro marcador de risco. Por outro lado, a presença de cardiopatia em certos pacientes pode conduzir a um evento cardíaco potencialmente letal durante a prática de actividade sexual, devido ao aumento da sobrecarga cardíaca que ocorre, à semelhança de qualquer outra actividade física. Nesta crónica será abordada a estratificação de risco para a actividade sexual dos doentes com doença cardíaca e contra-indicações para o tratamento da disfunção eréctil com inibidores da fosfodiesterase V (ex: Viagra® e Cialis®). Será mesmo verdade que, por si só, estes medicamentos provocam arritmias e enfarte de miocárdio? E morte súbita? E se o leitor padecer já de doença cardíaca, deverá tomar precauções quanto à utilização destes fármacos ou até mesmo restringir a sua actividade sexual? Receios como estes serão então discutidos de seguida.

De facto, as doenças cardiovasculares podem interferir negativamente na actividade sexual dos pacientes devido a duas razões principais: as implicações psicológicas que o próprio diagnóstico acarreta, como ansiedade, do próprio ou do cônjuge, medo de morte/ novo enfarte, restrição na actividade física, além da sensação da culpa, e a necessidade de diversos fármacos (bloqueadores beta, e diuréticos) com efeitos adversos no desempenho sexual. Dúvidas sobre a segurança da actividade sexual existem tanto nos pacientes como nos médicos que os cuidam, em consultas de rotina, ou após alta hospitalar, de algum evento ou procedimento cardíaco. Durante a actividade sexual, a frequência cardíaca e a pressão arterial aumentam da mesma forma que em qualquer actividade física aeróbica: a questão é se o grau de aumento é excessivo e potencialmente perigoso. Uma simples prova de esforço pode ajudar o seu médico a avaliar a segurança cardíaca potencial para a actividade sexual: pacientes assintomáticos durante a prova de esforço, com suprimento de sangue adequado para o músculo cardíaco durante o exercício, raramente terão sintomas cardiovasculares durante o acto sexual. Por outro lado, em pacientes com doença arterial coronária estabelecida, o coito, quando comparado com a actividade física vigorosa e com resposta emocional intensa, acaba por representar um pequeno risco de enfarte do miocárdio, havendo um risco mais diminuto nos indivíduos que realizam actividade física regular e que controlam os seus factores de risco (alimentação saudável, evicção do tabagismo, abstinência de álcool, controlo de doenças crónicas como diabetes e hipertensão). Já os pacientes com risco maior de enfarte agudo do miocárdio devem realizar uma avaliação mais completa antes da recomendação para a prática de actividade física (actividade sexual incluída). Estudos sugerem que um paciente com doença cardíaca capaz de subir um ou dois lances de escada pode manter a sua actividade sexual conjugal sem apresentar maior risco ou até mesmo sem apresentar sintomas cardíacos. Por seu lado, doentes com cardiopatia que se submetem a relação extraconjugal, com sensação aumentada de culpabilidade e ansiedade nessa situação, poderão sofrer sobrecarga e compromisso cardíaco e, em última instância, morte. Além disso, refeições abundantes e bebidas alcóolicas podem aumentar ainda mais as necessidades de oxigénio em relação ao seu suprimento, sobrecarregando ainda mais o coração e agravando a cardiopatia.

Por outro lado, os medicamentos contra a impotência podem ser úteis em muitas situações, mas não devem ser a primeira opção no tratamento da disfunção eréctil, já que eles podem mascarar outras condições, como por exemplo diabetes e cardiopatia, daí que, antes de prescrever um fármaco para a disfunção eréctil, o seu médico pode necessitar de determinar se o seu coração pode alcançar com segurança a demanda de trabalho necessária para a actividade sexual. A principal preocupação não advém tanto da segurança destes fármacos, mas do risco da actividade sexual que assim se torna possível, em certos pacientes com doença cardíaca de base, podendo o esforço exigido predispôr a uma sobrecarga cardíaca nesses doentes e assim desencadear enfarte cardíaco ou arritmias. Não obstante a segurança destes fármacos para a impotência, existe uma contra-indicação absoluta na sua utilização juntamente com nitratos (sublinguais ou adesivos transdérmicos utilizados por pacientes com angina de peito/ enfarte de miocárdio), devendo também tomar-se atenção à utilização de bloqueadores alfa (para hipertrofia benigna da próstata), já que estes fármacos potenciam a diminuição da pressão arterial, podendo levar à sobrecarga cardíaca e comprometer a irrigação dos vasos que suprem o coração, com consequente enfarte e falência cardíaca.

Concluindo, embora a actividade sexual não exija uma sobrecarga acentuada do coração (equivalente a subir dois lances de escada rapidamente), para certos pacientes a actividade sexual pode constituir um risco significativo, devendo-se adiar a actividade sexual até estabilização da condição cardíaca, pois os riscos podem suplantar os benefícios: homens com angina instável (em repouso ou com esforço mínimo) ou refractária ao tratamento, hipertensão não controlada, insuficiência cardíaca moderada a grave (falta de ar aos mínimos esforços ou em repouso), enfarte recente (menos de duas semanas), doença valvular moderada a grave, miocardiopatias graves, e anomalias do ritmo cardíaco potencialmente fatais como taquicardia ventricular recorrente e arritmias de alto risco (fibrilação auricular ou arritmias ventriculares complexas). Isoladas, as arritmias não representam nenhum risco, mas sem acompanhamento médico, o problema pode agravar-se e comprometer não só os batimentos cardíacos como o sistema circulatório. De forma a manter ou retomar com segurança a sua actividade sexual, sem compromisso da sua saúde e sem receios, deverá consultar o seu médico assistente e expôr todas as suas dúvidas. E lembre-se, não hesite em consultar o seu médico assistente antes de iniciar qualquer tipo de medicação para a disfunção eréctil!

Se tiver dúvidas sobre qualquer assunto relacionado com a sua saúde, ou se pretender sugerir um tema para uma próxima rúbrica, contacte a equipa do “Saúde, não Mente!” através do mail: [email protected]

 

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