Livra-te do mouro e do judeu,
E do homem de Viseu
Mas lá vem o braguês,
Que é pior que todos três,
E o do Porto com seu contrato
É pior que todos os quatro.

Este velho rifão, do cancioneiro popular português, bem podia ser o mote para o evento que a Associação Rotary Clube de Chaves, por intermédio do Centro de Estudos Judaicos do Alto Tâmega (CEJAT), em colaboração com a Câmara Municipal de Chaves, leva a efeito no próximo dia 18 de março de 2017, no Salão Nobre daquela associação, na antiga Escola Primária da Estação, em Chaves.

Com a realização do I Simpósio sobre o judaísmo em Trás-os-Montes, o CEJAT propõe-se, antes de mais, contribuir para que se faça um pouco de luz sobre as comunidades judaicas do Alto Tâmega, nomeadamente a de Chaves e a de Monforte de Rio Livre e ao mesmo tempo lançar um primeiro olhar sobre os núcleos criptojudaicos de Lebução e de Santa Valha.

Para tal contamos com a presença de duas investigadoras de renome, que dispensam apresentações: a Doutora Elvira de Azevedo Mea, Professora Catedrática aposentada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e a Doutora Inês Pires Nogueiro, doutorada em Biologia e que se tem dedicado ao estudo da genética humana, com destaque para o estudo do mapa genético das populações judaicas.

A Professora Doutora Elvira Mea falar-nos-á sobre o judaísmo em Trás-os-Montes. Sabia que a comunidade judaica flaviense existe há mais de 700 anos? E que depois da expulsão dos judeus de Portugal, em 1496/1497, se remeteu, como as demais, à clandestinidade e que, mesmo depois da Revolução de Abril, teima em não afrontar a sociedade conservadora onde está inserida? No entanto, algumas práticas e rituais judaicos continuam muito vincados nessa mesma sociedade. Quando pensávamos que a circuncisão estava há muito excluída, no judaísmo encoberto, entre os flavienses, ela continua, embora de forma residual, a praticar-se!

Como o prezado leitor muito bem sabe, o “homem português” resulta da miscigenação dos povos que aportaram à “ocidental praia lusitana”, cujos cruzamentos nunca enjeitamos aquém e além-mar. Nessa mistura, como não podia deixar de ser, também existe sangue judeu, que alguns juram a pés juntos não lhe correr nas veias. Perscrutem na vossa genealogia e, talvez, sejam surpreendidos! É, precisamente, sobre a contaminação genética na história dos judeus que nos falará a Doutora Inês Nogueiro.

Para os mais atentos não constituirá novidade, mas sabiam que entre 1928 e meados do século XX se tentou, por várias vezes, restaurar uma Comunidade Israelita em Chaves e que a mesma nunca passou de um projeto devido, sobretudo, ao medo que reinava entre os judeus flavienses e as quezílias que existiam entre as famílias marranas? É desta tentativa de resgate dos marranos transmontanos que lhes falarei no próximo dia 18 de março.

Se tiver curiosidade em saber um pouco deste passado, que também é o seu, apareça! A não ser que o “medo” o impeça, todos são bem-vindos! Este evento é de caráter científico, nada tem que ver com a crença religiosa de cada um.

Jorge Alves Ferreira

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