Cumpriu-se no passado dia 20 de Janeiro mais um tradicional dia de São Sebastião no Couto de Dornelas, que com a celebração da “Mesinha de S. Sebastião”, integrada na antiga tradição das refeições comunitárias, atraiu milhares de visitantes, contando este ano com a presença do Bispo da Diocese de Vila Real

SSebastiao_Dornelas (27)Todos os anos no dia 20 de Janeiro, realiza-se aquela que é uma das mais importantes festas de cariz comunitário: a Mesinha de S. Sebastião ou a Festa das Papas como inicialmente era conhecida. De acordo com a tradição, a festa em honra de S. Sebastião, em Dornelas, santo protector dos animais e de vários males como a fome, a peste e a guerra, embora sendo de origem incerta, remonta à idade medieval. Reza a lenda que há muitos anos houve, na região, muita fome e peste e foram tantos os mortos que os habitantes de Dornelas prometeram que se São Sebastião os protegesse da peste, lhe realizariam uma festa, onde não faltaria carne e pão, para quantos nela aparecessem. E assim tem sido.

A organização desta festa, refeição comunitária, está a cargo da Comissão de Festas, mas inicialmente era composta pelos nove maiores lavradores da aldeia de Vila Grande, num sistema de rotatividade entre eles, isto é de 9 em 9 anos e cada um deles era conhecido pela “casa” dos seus antepassados, os mordomos eram “a casa do Pires”, “a casa do Barroso”, “a casa do Gervaz”, “a casa do João Afonso”, “a casa do Virtelo”…mas gradualmente algumas destas famílias foram desistindo ou porque se foram desagregando, mudaram de localidade ou mesmo por falta de vontade. Hoje em dia são os mordomos com a ajuda de familiares e amigos que arranjam e preparam a comida composta por pão, carne e arroz, que é servida ano após ano.

Dada a dimensão da festa tudo tem que ser preparado com muito antecedência. Por altura do Natal, o Mordomo, alguns “ajudantes” e “jeireiros” andam pelas casas da freguesia a recolher os cereais (centeio e milho) para fazer as broas. Em Janeiro recolhem os restantes donativos: carne de porco e dinheiro para comprar o arroz. Além de procederem à recolha destes produtos arranjam lenha para cozerem o pão e os restantes alimentos. Durante 5 dias e 5 noites cozem as centenas de broas que vão posteriormente ser distribuídas no decorrer da festa e/ou vendidas.

Na manhã do dia 20, assim que tocou o sino para a missa presidida pelo Bispo da Diocese de Vila Real, D. Amâmdio Tomás e pelo Presidente da Câmara Municipal de Boticas, Fernando Queiroga, a Igreja Paroquial de Dornelas, dedicada a S. Pedro, padroeiro da freguesia, tornou-se pequena para tantos visitantes. Finda a missa, a procissão seguiu com a figura de São Sebastião até à “Casa do Santo” onde o padre procede à bênção do pão, da carne e do arroz.

À hora da refeição, um dos mordomos da Comissão de Festas cobre a “mesinha” de largas centenas de metros, com um pano de linho branco. Outros põem as broas, distanciadas à medida de uma vara com 120 cm de comprimento, enquanto um terceiro grupo coloca uma malga com arroz e um prato de madeira de carvalho para cortar a carne.

A comida é confeccionada na “Casa do Santo” construída para o efeito. Na lareira põem-se mais de vinte potes de ferro ao lume, onde se cozem bocados de carne de porco fumado e arroz, que vão ser depois servidos na mesinha de S. Sebastião, juntamente com o pão, metade centeio metade milho. À volta dos potes encontramos Alda Barroso que ano após ano se assume como uma das muitas cozinheiras e que este ano, pela primeira vez, pertenceu à Comissão de Festas. Segundo Alda, a quantidade de comida servida durante o dia é “quase impossível de contabilizar, mas provavelmente ronda as 300 postas de carne (com 1,5 kg cada) e mais de 150 kg de arroz”, e que, apesar de todo o “esforço e trabalho que esta festa implica”, a aldeia nunca a deixará de realizar, oferecendo uma refeição a todos aqueles a que a ela acorre.

Enquanto os milhares de fiéis comem, o Mordomo percorre a mesa dando o S. Sebastião a beijar e recolhendo as esmolas que cada romeiro queira oferecer, caso para dizer que “quem mais dá, mais amigo é do Santo”.

As pessoas da aldeia dizem que, por ser benzida, esta comida tem propriedades curativas, de tal forma que as broas podem-se guardar muito tempo que não criam bolor. Tais são os benefícios que lhe são atribuídos, que muitos são os que levam pedaços, senão mesmo broas inteiras, para casa, para comer ou dar aos animais para que não padeçam de maleita nenhuma.

 

 Andreia Gonçalves

 

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