Com 40 anos e uma carreira recheada de sucessos, pois ao serviço do SL Benfica conquistou cinco títulos de campeão nacional, quatro Taças de Portugal, quatro Supertaças de Futsal e uma UEFA Futsal Cup, Zé Maria é um reforço ‘sonante’ do Valpaços Futsal para atacar a Série A da 2ª Divisão de Futsal. Com família em Ardãos, no concelho de Boticas, o internacional por Portugal em 56 partidas cumpriu o sonho de morar na região, mas a ‘reforma’ não chegou ao futsal onde garante estar motivado para continuar à procura de vitórias e conquistas.

Zé Maria, à esquerda, com Ricardinho, ao serviço da seleção de Portugal

A Voz de Chaves: Como se deu a ida para o Valpaços Futsal?
Zé Maria: Tenho raízes em Ardãos [concelho de Boticas]e sempre foi um objetivo meu vir viver para aqui, pela qualidade de vida, pela calma. Sempre que vinha de férias, dizia que era desta vez que ficava, mas depois, ao voltar para Lisboa, entrava naquele ritmo, e passava o ano rapidamente. Este ano decidi mesmo vir de vez e espero que corra tudo bem. Este ano pensava apenas treinar futsal, e se ficasse em Lisboa já não iria jogar mais. Mas o Valpaços, pelo seu presidente, o Zé Maria, soube que ia estar cá, e fez questão que fosse para o clube, pois seria importante devido à minha experiência e mentalidade competitiva, e aceitei mais um ano, e se calhar vou jogar mais dois ou três, e enquanto me sentir bem vou continuar.

Ainda não estava decidido a abandonar a carreira de jogador…
Convidaram-me e aceitei. Também me informei da realidade, falei com o selecionador nacional, Jorge Braz, que me falou muito bem das pessoas de Valpaços. O projeto é interessante e penso que tomei a opção certa.

O que pode fazer o Valpaços Futsal nesta divisão?
O objetivo é chegar aos dois primeiros lugares nesta primeira fase para depois estar na fase de subida. Chegando lá, tudo pode acontecer. Pelo que vejo, temos equipa para passar a essa fase.

Quais os objetivos pessoais?
Praticamente já os ganhei todos e quero jogar futsal pelo prazer que me dá e tentar ganhar. Tenho uma coisa comigo, que é não gostar de perder e acho que vou ser importante no Valpaços devido à minha mentalidade.

Qual a análise do plantel que encontrou no Valpaços Futsal?
Temos uma equipa muito boa, quer guarda-redes, jogadores de campo, e até os miúdos que estão lá a aprender. A base é muito boa e que dá garantia para estar na fase final do campeonato.

E qual a análise da 2ª Divisão, Série A?
Tinha mais conhecimento das equipas da zona de Lisboa, e daqui de cima apenas conheço o Gualtar praticamente…

Está a saber bem este adiar da reforma?
Claro que sim, venho para representar um clube onde tenho raízes, na região, e isso dá-me prazer e sinto que as pessoas da região também ficam contente por isso. Podia ser em Valpaços, Chaves ou Boticas, pois para mim ia ser sempre um orgulho e para a minha família também. Isso é que me faz continuar a jogar e tentar ganhar.

Como foram os últimos anos no futsal?
Foram anos bons porque sempre joguei. Por vezes o que importa quando se chega a um patamar muito alto, e foram 14 anos a alto nível, é continuar a jogar, e para isso temos de estar num sítio onde nos sentimos bem. Estava a jogar com os meus amigos, sentia-me muito bem, e agora no Valpaços Futsal também me estou a sentir.

Numa carreira com tantos títulos, como se resume…
Fui um privilegiado, por chegar onde cheguei. Ganhei tudo o que tinha para ganhar em Portugal, ganhei uma UEFA Cup, representei a seleção nacional 56 vezes, e acho que isso é tudo o que um jogador sonha a nível nacional, um jogador que tenha metas.

É difícil escolher o melhor momento da carreira?
É difícil, pois quando se está num clube como o Benfica, onde se ganham vários campeonatos, são todos maravilhosos, mas para mim o que me marca mais foi a conquista da UEFA Cup, foi um momento especial da minha carreira, pois muitas equipas portuguesas tentam ganhar e não conseguem, por ter sido em Portugal, com o Pavilhão Atlântico cheio, todos a puxarem por nós, e foi muito especial.

E a melhor equipa que integrou?
Para mim, foi essa equipa que conquistou a UEFA Cup, com excelentes jogadores, desde guarda-redes, fixos, pivots… mas a que mais me marcou foi a de 2006/2007, quando vim de Espanha, e que ganhamos tudo. Para mim foi dos melhores planteis.

Qual o melhor jogador com quem jogou?
Tenho dois jogadores que considero os melhores. Um é o Pedro Costa, que se destacou pela forma de jogar e de ser, e também me dava muito bem como ele. Outro é o Ricardinho, claro. Toda a gente sabe o que ele é, veio para ao pé de nós com 17 anos, tive a sorte de o ajudar muito e foi um privilégio grande, e hoje sinto um enorme orgulho de ver onde ele está e orgulho de ver que ele agradece isso, por estar onde está.

E o treinador?
Tenho vários treinadores que me marcaram. Um deles foi o Alípio Matos, que me trouxe para estes patamares, para a 1ª Divisão e para o mais alto nível. Também o Orlando Duarte, o Adil Amarante, o João Pina, foram todos treinadores que me marcaram muito.

Todas estas conquistas vão marcar também a carreira ‘pós jogador’…
Claro que sim. Por vezes há jogadores que jogam anos e anos e não ganham títulos, e tive esse privilégio de ganhar 15 títulos oficiais em Portugal, mais seis na Letónia, e é muito bom olhar para trás e ver os títulos que ganhei.

Porquê as saídas esporádicas para o estrangeiro, ao longo da carreira, que muitos jogadores portugueses fizeram e fazem?
Às vezes é preciso saíres do clube para te darem o real valor que tens. Foi o que aconteceu comigo, quando estava no Benfica, em que saí na época 2005/06 para o Benicarló FS, de Espanha, e só tive seis meses, pois fizeram logo com que regressaste. Aconteceu com muitos jogadores na altura, como o Pedro Costa ou o Arnaldo Pereira, que tivemos de sair para que nos dessem o real valor em Portugal.

O final de carreira foi adiado, mas o futuro já está definido?
O meu próximo objetivo é continuar no futsal como treinador. O último ano que fiz foi já como treinador jogador, e treinava em Lisboa já uma equipa júnior. Espero que quando acabar de jogar continue sempre ligado ao futsal. O que eu tenho é muito graças ao futsal.
É uma ligação que nunca se vai quebrar…
Claro que não… É uma ligação já de muito tempo, desde os 8 anos que jogo federado, tenho 40 e já são muitos anos nesta modalidade.

Como é o futsal atual, em comparação com outros tempos?
Ainda está muito como estava antigamente. Agora, há duas equipas totalmente profissionais, e já na minha altura eram. Há equipas semi profissionais, como o Fundão, Belenenses e o Braga, que procuram bater-se mas nunca chegam aos patamares do Benfica e Sporting. Era bom termos um campeonato totalmente profissional, pois olhamos para Espanha e são todas profissionais, mas claro que em Portugal não há essas condições. Depois também em termos de seleções se reflete esse problema.

Mas o futsal sofreu uma reestruturação nos últimos anos, como viu isso?
Acho que cada vez a Federação está a fazer um esforço enorme, tem seleções jovens de sub-17 e sub-15 e isso é essencial para o jogador evoluir. Mas depois há a parte dos jovens que chegam aos grandes clubes, como Benfica e Sporting, que tem uma equipa de juniores que quando sobem a seniores aproveitam um jogador. E o resto para onde vai? Falo por mim e fico triste por isso, porque vejo um jogo grande na televisão e vejo dez estrangeiros. Onde estão os jogadores portugueses?

E a seleção de Portugal, como tem evoluído?
Penso que tem evoluído imenso, e há que dar mérito ao Jorge Braz por isso. Pelo trabalho que tem feito. Depois, chega-se aos momentos decisivos, e falta sempre algo a Portugal para chegar lá, e penso que é devido ao nosso campeonato. Em comparação com Espanha, Itália e Rússia, falta sempre algo. Se Portugal tivesse um campeonato mais profissional, ou mais jogadores a competirem em Espanha, como faz o Ricardinho, iria notar-se muito a diferença.

Por fim, que papel quer ter no futuro do futsal?
O meu desejo é continuar ligado ao futsal, e tentar ensinar tudo o que aprendi até hoje. Só sendo treinador é que posso passar para os meus jogadores o que aprendi e espero depois de deixar de jogar continuar a minha carreira, agora como treinador.

Diogo Caldas

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