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A uma semana da XXVI edição da Feira do Fumeiro de Montalegre, Orlando Alves, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, explica como se mantém o sucesso daquela que é apelidada de Rainha do Fumeiro.

Jornal A Voz de Chaves: A Feira do Fumeiro de Montalegre realiza-se entre os dias 26 e 29, ou seja, no último fim de semana deste mês. Há 26 anos, o Sr. presidente foi um dos grandes mentores desta feira. Naquela altura esperava que este evento tivesse a projeção e o sucesso que hoje tem?

Orlando Alves: Claro que não. Como também nunca nos passou pela cabeça que o evento Sexta 13 viesse a ter a dimensão que tem e viesse a ser exponenciado como hoje está a sê-lo. Mas tudo isso nos faz querer e ver que, como dizia a poetisa, “O caminho faz-se caminhando”, e nunca se pode também desistir, como diria o saudoso Mário Soares. Só é perdedor quem desiste. Quem não desiste é sempre ganhador. E nós, de facto, partimos com esperança e uma crença muito fervorosa de que este era o caminho que tínhamos que trilhar, mas nunca nos passou pela cabeça que logo na primeira edição todo o material exposto na feira para venda, para comercialização, no final do segundo dia estivesse completamente esgotado. Tivemos de nos desdobrar em equipas, onde o presidente de Câmara na altura, o Dr. Pires, o professor Fernando, vice-presidente, eu, todos os dirigentes do setor sociocultural da autarquia e funcionários, andámos pelas portas das aldeias a comprar, a intermediar o negócio da compra do fumeiro para abastecermos aqui o escaparate para que as pessoas que vinham a Montalegre pudessem ter a oportunidade de provar e de comprar. Foi, digamos, uma loucura. Não estávamos à espera disso. A partir daí apercebemo-nos que tínhamos um menino nos braços e que tínhamos de saber cuidar dele. E foi aquilo que fizemos, e penso que fizemos bem ao ponto de hoje ser reconhecidamente um grande acontecimento para a vida económica social de Montalegre e de ser indiscutivelmente, e isto os dados provam-no, a feira mais comercial de todas quanto estão ligadas ao ramo do fumeiro.

Qual é a quantidade de fumeiro que vai entrar na feira para venda?

Não tenho os números aqui presentes, não queria estar a avançar com números errados, mas isso vem na linha daquilo que acontece em anos anteriores. É muito fumeiro, sei que é muito fumeiro, e representa um aporte financeiro muito interessante para a economia local. Porque, independentemente do montante que venha a ser conseguido, a verdade é que assim como nós com pouco conseguimos ser felizes, e mais felizes do que aqueles que têm muito porque só têm problemas e preocupações, também os agentes económicos locais sinto que são felizes com aquilo que fazem e com o encaixe financeiro que conseguem na feira do fumeiro não dará certamente para comprar um mercedes nem para um apartamento no Algarve ou seja onde for, mas a verdade é que há um sustento conseguido para uma casa de família e que projeta, naturalmente, todo um ano civil onde as pessoas têm de comer, têm de vestir-se, calçar-se e também têm de ter algum conforto para o seu dia a dia. Portanto, nós temos estado na linha dos 2 milhões, 2,5 milhões de euros de encaixe financeiro com a realização da Feira do Fumeiro. É esse o montante que perspetivamos. Neste momento estamos numa fase em que, digamos, já se atingiu o topo, e nesta altura interessa envolver cada vez mais as pessoas na qualidade daquilo que se apresenta e põe à venda, do que propriamente estarmos aqui com produções loucas onde de forma alguma o município pretende ou está interessado que no final as pessoas levem também produto para casa. Preferimos que venham e que vendam aquilo que produziram porque aí há um sorriso estampado no rosto. Se vêm com muitas quantidades se calhar a qualidade já sai enfraquecida, sai desfavorecida, e sujeitam-se a no final não exibir o tal sorriso que nós pretendemos ver porque não conseguiram vender tudo.

Orlando Alves, presidente da Câmara de Montalegre

Todos os anos a autarquia aposta muito na divulgação desta feira que é apelidada de Rainha de Fumeiro. Para esta edição, como é que a autarquia tem trabalhado este aspeto?

A divulgação ocorre sempre servindo-nos dos meios de comunicação social que temos na nossa vizinhança, porque também temos o dever institucional e cultural e social de contribuir para que esses periódicos ou todas as revistas do setor consigam também ter sustentabilidade económica durante o ano. Fazemos complementarmente a apresentação à imprensa no Porto, à grande imprensa, porque, infelizmente, sendo Portugal um país tão pequenino as nossas cabeças são ainda mais pequenas e isso faz com que pequenas distâncias sejam ainda vistas como distâncias enormes. Para muita gente, vir do Porto para Montalegre é muito longe. Então nós vamos a Maomé, já que “Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé”, e temos sido bem-sucedidos. Temos também a sorte de ter a aceitação ou a cobertura televisiva das cadeias de televisão nacionais que são importantíssimas na divulgação do evento. E, sobretudo, temos milhares de fãs, milhares de pessoas que já pensam o início do ano projetando uma visita a Montalegre, à Feira do Fumeiro. São públicos distintos. Os que estiveram cá aqui há dias na Sexta 13, são mais jovens. Na Feira do Fumeiro já são pessoas um bocadinho mais traquejadas da vida, são pessoas que, essencialmente, saíram das aldeias, foram habituadas a consumir e a comer presunto e bom fumeiro, e ainda têm esse cheirinho das coisas boas dentro de si, e naturalmente que chegam então os primeiros dias de janeiro e pensam logo na Feira do Fumeiro de Montalegre.

Exato. Há muitas pessoas que vêm de outros pontos do país de propósito para a Feira de Montalegre, assim como da vizinha Espanha. Muitos aproveitam e ficam durante todo o fim de semana. Montalegre tem capacidade para albergar todas estas pessoas?

É óbvio que não. Mas também ficamos satisfeitos que os concelhos vizinhos beneficiem com as nossas realizações. Ninguém sobrevive isoladamente. E o conceito de região é um conceito que tem de ser, digamos, construído todos os dias. Todos os dias tem de se por um cheirinho a uma estrutura mais vasta do que propriamente a capela concelhia que cada presidente de Câmara ou de junta tenha porventura a veleidade de querer circunscrever o seu raio de ação. Portanto, a construção da região também se faz desta forma. E a nós apraz-nos verificar que, por exemplo, Chaves beneficia muito com as nossas realizações, a sua hotelaria. É bom porque Chaves é o elemento agregador de todo o Alto Tâmega. Tem de ser assim para que possa continuar a ter uma equipa na primeira divisão, da qual felizmente sou sócio e vou ver os jogos quando posso, para que seja um polo agregador de cultura, de realizações culturais, desportivas, porque o saber ou as capacidades obviamente estão mais numa cidade média como é Chaves do que numa aldeia qualquer do concelho do Alto Tâmega. O conhecimento, a pesquisa, a abordagem às novas tecnologias, a circunstância de Chaves ter um património fundamental, riquíssimo, de ser uma capital termal das mais importantes do país. Tudo isso é algo que tem de merecer a atenção e o reparo de todos os autarcas do Alto Tâmega. Eu fico chateado quando vem alguma escola pedir-me para ir ver a praia e não vem escola nenhuma pedir para ir ver as Termas de Chaves. Aliás, eu penso que até na cidade não haverá a preocupação dos senhores professores levarem os meninos a ver as Termas e tentar perceber o que ali está. Esse é um elemento fundamental da cidade, que não pode ser só da cidade, tem de ser da região. Porque quem vier a Chaves, naturalmente vai ser tentado a vir a Montalegre, ou a ir a Valpaços, ou a outro sítio qualquer. E esta complementaridade faz falta e é muito importante, e é por isso que eu digo que não tendo nós capacidade para receber toda essa gente a verdade é que as pessoas ficam na região e eu fico muito satisfeito que seja toda a região a beneficiar daquilo que nós fazemos.

Quantos stands vão estar presentes na Feira?

Também não lhe sei dar um número ao certo, nem isso é importante, mas ronda os 80 stands.

E os produtores são exclusivamente daqui de Montalegre?

Sim, apenas de Montalegre. Onde estará o fumeiro, o pão, o mel, e outros produtos da região. Este ano temos a novidade de usar o espaço do pavilhão gimnodesportivo e transformá-lo num espaço da restauração e do convívio. À noite está frio e quem vinha de fora e se instalava aqui nos hotéis, no turismo rural, na capacidade que a terra tem para oferecer, não tinha para onde ir durante a noite. Assim vão para a Feira porque vamos ter animação, muita e boa animação, e vamos ter o espaço onde as associações que queiram fazer algum dinheiro se vão instalar e, digamos, gourmetizar a oferta, a oferta gastronómica permitindo assim que num espaço de convívio, de conversa e de baile haja oportunidade também para a bebericagem e para desfrutar o palato das coisas que estão a ser comercializadas na Feira.

Neste momento são quatro dias de Feira. No futuro poderemos vir a ter uma semana inteira de Feira do Fumeiro aqui em Montalegre?

Não. Eu penso que os quatro dias de Feira são suficientes. O que é importante e seria muito bom era que fosse feira todo o ano, todos os dias em Montalegre. Somos o único concelho do país com capacidade para produzir batata de semente. E temos também todas as condições para, num ambiente de temperaturas frias e ar seco, abastecer o país, que é deficitário neste contexto, de fumeiro e produtos fumados. E isso é o que falta. E o que falta é fazer com que em Montalegre quem vem de fora possa todos os dias ter acesso à chouriça, ao salpicão, ao fumeiro, à alheira num espaço virado para a venda e para a degustação. Já vamos na XXVI edição e isso foi algo que ninguém quis agarrar. E eu fico surpreendido, como é que os nossos jovens, que certamente se valorizaram nas universidades por onde passaram, e que certamente reconhecem que o mundo a imigração é um mundo de escravidão e de desrespeito pelos direitos de cada um, fico surpreendido que ainda não haja um jovem, licenciado seja no que for, porque a economia de Portugal, Espanha e todo o mundo não consegue absorver todos os licenciados que as licenciaturas deitam cá para fora, fico pasmado que ainda não tenha havido um jovem que tenha agarrado esta ideia permitindo assim que quem vem de fora possa degustar e possa sentir o ambiente de feira todos os dias em Montalegre.

Está então a sugerir a criação de uma loja?

A criação de um espaço onde haja comércio, venda de produtos locais e a transformação ao lado. Em ambiente de restaurante ou de tasquinha que é o que faz com que as pessoas abandonem a cidade do Porto ou de Braga e venham até ao mundo rural. Para comerem o mesmo que se come lá então deixam-se estar em casa, não vêm gastar dinheiro em portagens e gasolina e, sobretudo, não vêm poluir o ambiente.

Quanto tempo leva a organização de um evento desta dimensão?

Temos sensivelmente um mês a partir do Natal até ao dia da abertura da Feira. É um mês muito intenso. Neste momento está muita gente a trabalhar no pavilhão. E temos depois toda a organização que se implementa logo no final de uma feira. Acaba uma e iniciamos imediatamente a preparação da outra. E se não for assim as coisas não saem bem.

Fugindo só um bocadinho ao assunto da Feira. Na passada semana realizou-se a primeira Sexta 13 do ano. Que balanço faz?

Foi notável. Foi uma enchente enorme, surpreendentemente enorme. Porque se considerarmos que saímos de um período em que as famílias e as pessoas todas individual e coletivamente se excedem em gastos e em consumo que é o mês do Natal e, logo a seguir, apanha-se com uma Sexta 13. O trazer a Montalegre 30 ou 40 mil pessoas que aqui estivessem a conviver aqui um dia inteiro connosco, a consumir, a dormir, a comer, a beber, foi algo que nesta altura do ano me surpreendeu muito pela positiva, porque tinha sempre esse receio, uma vez que o dinheiro não dá para tudo, e que as pessoas fizessem seleção. Felizmente as coisas acabaram por correr bem. E nós só temos de aprender que o êxito depende sempre de nós, de nós Câmara que organiza, e depende das pessoas, dos empresários locais que têm que dar todos os anos e cada vez mais o melhor de si próprios para que as pessoas se sintam bem e continuem a vir. É simpático ver, por exemplo, no dia seguinte a uma noite de excessos como é que os nossos serviços às 9h da manhã já têm tudo limpo. E isso é uma imagem de marca, isso cativa as pessoas e faz com que elas nos tributem honrarias e respeito referindo e fazendo esforço sempre. Porque sentem que há alguém capaz de agarrar as coisas e transformá-las em ambiente simpático e no espaço de positividade.

Quer aproveitar para fazer um convite aos nossos leitores para virem a Montalegre entre os dias 26 e 29 de janeiro?

A verdade é que nós estamos habituados a ver Montalegre sempre cheia sempre muito apetecida. O charme de Montalegre também é inquestionável. Mas haverá ainda muitos portugueses que não conhecem Montalegre. Particularmente para o auditório, e, sobretudo, para o pessoal do Alto Tâmega eu deixo o convite para que venham de facto a Montalegre porque vão dar o seu tempo por muito bem empregue, e vão sentir até, daqui para a frente, a vontade e a necessidade de vir cá mais vezes.

Maura Teixeira

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