Mais de 150 pessoas encheram a Igreja Românica de Nossa Senhora da Azinheira para assistir à apresentação do livro “No Outeiro das Lembranças”. A obra de 240 páginas reúne textos de gentes da terra e ressuscita cerca de 50 fotografias que estavam esquecidas no fundo do baú.

Outeiro Seco tem a mesma idade que Jesus Cristo e só este facto basta para merecer um livro. Na noite de sexta-feira 20 de Agosto, mais de 150 pessoas encheram a Igreja Românica de Nossa Senhora da Azinheira, classificada imóvel de interesse público, para assistir à apresentação da obra “No Outeiro das Lembranças”. “É um livro de partilha documentado com fotografias que retrata vivências antigas”, descreveu o coordenador da obra, Altino Rio.

A ideia começou no blogue “Tradição e Modernidade” do “engenheiro Altino”, como é conhecido pelas gentes de Outeiro Seco. Depois, mais de 40 pessoas, locais e colaboradores de outros blogues como o “Chaves Antiga”, aceitaram contribuir com textos, outras 50 emprestaram fotografias que estavam esquecidas numa gaveta ou no fundo do baú e cerca de 30 deram donativos para financiar o livro. “Os textos são alusivos ao património físico e actividades como excursões, procissões, casamentos, que eram momentos fotogénicos”, explicou à “Voz de Chaves” Altino Rio.

“Outeiro Seco tem uma história muito bonita e profunda. Tem imensos vestígios que justificam o aprofundamento da história desta localidade. Aos poucos, vamos descobrindo estas preciosidades que um dia farão parte de uma obra mais completa”, justificou o autor do blogue que já chegou a ter 2000 visitas num dia e tem como único fim “unir as pessoas”. Muitas fotografias tiverem de ser restauradas.

Na apresentação do livro, o presidente da Câmara Municipal de Chaves, João Batista, que já partilhou o ensino e as lides autárquicas com Altino Rio, quis felicitar o “amigo de três décadas”. “Ao registar esta história, este livro contribui para o conhecimento e o aprofundar da identidade da terra e isso não só dignifica o passado e o presente, mas projecta também o futuro”, disse João Batista. “Tem muito mais valor quando as iniciativas partem das pessoas. (…) Altino sempre promoveu, defendeu e dignificou esta terra”, concluiu o autarca.

Também presente esteve o historiador jubilado Manuel Carvalho Martins, que contribuiu para o livro com uma descoberta inesperada: um altar pagão construído por cima do altar cristão na Capela de Santa Ana. Antes de revelar a descoberta e dar uma lição de história pré-romana aos presentes, Manuel Martins falou da “doença incurável” de Altino Rio: “o amor à sua terra e às suas origens”, que é tanto que merece uma rua em seu nome na aldeia. E de onde vem esse amor? “Nasci em Outeiro Seco e toda a minha formação de base vem da minha infância. Aprendi muito até aos 15 anos. Marcaram a minha vida e tenho uma gratidão enorme pela terra”, respondeu Altino Rio.

Netos escreveram sobre os avós

“Todos os textos [do livro]têm a sua beleza e encanto”, mas “a parte em que os netos escrevem sobre os avós é a mais terna e de gratidão”, destacou Altino Rio. No início, a jovem Liliana Bernardo teve medo da responsabilidade de escrever sobre o avô, mas, após reflexão, quis tentar passar “a imagem que toda a família tem dele”. “O melhor contributo que posso dar ao meu avô é falar da vida dele e mostrar o quanto ele é fundamental no meu crescimento. É a minha referência”, contou a jovem.

António Bernardo, hoje com 85 anos, esteve muito tempo fora como guarda-fiscal, mas, ao regressar a Outeiro Seco, trabalhou na Junta de Freguesia e integrou a Comissão Fabriqueira da Igreja. “É uma das pessoas mais idosas da terra. Já é muita cultura e conhecimento”, notou, com orgulho, Liliana Bernardo. Na terra, “é visto como uma pessoa calma, honesta e amigo de todos”. E o que sente o avô homenageado? “Muita alegria, orgulho e vaidade!”, respondeu António Bernardo, embora ainda não tenha lido o texto da neta.

Com este livro, “queremos passar o amor à terra aos mais jovens, que já não têm essa ligação. Na modernidade, é tudo mais efémero, mais rápido, mas queremos que conservem as raízes”, concluiu Altino Rio. Outro objectivo do livro é incentivar a investigação do passado de Outeiro Seco. No final, houve um convívio no exterior da Igreja animado com doces conventuais e 25 livros foram oferecidos à Associação Mãos Amigas. “No Outeiro das Lembranças” pode ser adquirido no café Sapo por 15 euros.

Sandra Pereira

loading...
Share.

Comentarios fechados.