O cartaz indicava tratar-se de uma comédia teatral sobre um triângulo amoroso nos anos 50. No final, “O Segredo da Arca Vermelha” acabou por ser um grito de revolta contra a falta de originalidade, o comodismo e o egoísmo, da parte de um novo movimento artístico fundado por seis jovens que querem impor-se e ousar algo diferente em Chaves.

Quando os espectadores se sentaram no Cine Teatro Bento Martins nas três sessões de teatro decorridas no passado fim-de-semana, esperavam assistir aos amores e dilemas familiares de Anne Vogensen, na década de 50. Eis que um jovem invade o palco a querer contar o seu caso. De repente, todos – actores e público – têm a sua história para contar e a peça que era para ser apresentada… não o foi. No final, o “Segredo da Arca Vermelha” – que o público viu em vídeo e retirou da caixa colocada à entrada do Cine Teatro no final do espectáculo – era a própria apresentação do novo movimento artístico flaviense que subiu ao palco: o Movimento Cri’Arte. Surpreendidos? A ideia era mesmo essa.

“O nosso maior medo era que as pessoas se levantassem a meio e saíssem da sala porque efectivamente pagaram para ver uma peça que afinal nunca existiu”, contou Sylvain Dias, um dos fundadores do Movimento Cri’Arte. Com uma assistência jovem, as palmas foram dadas fora do palco, junto à arca vermelha, após o fim da representação, que durou cerca de meia hora. “Foi curta de propósito, para as pessoas ficarem com fome de ver mais teatro”, notou Sylvain Dias. Mas o essencial foi a mensagem do Movimento transmitida na peça: “criar algo, saber impor-se e ser original”. Apesar de algumas reclamações, “as pessoas gostaram bastante”. Ainda assim, o público estava previamente avisado que a peça seria uma adaptação de “O meu Caso” de José Régio, que também tem um intruso a interromper uma representação clássica…

Nasceu um novo Movimento…

(Esquerda para direita, cima para baixo) Diogo Martins, Bianca Pereira, Tiago Ribeiro, Sylvain Dias, Marta da Costa, Rúben Abreu

Com a mensagem apresentada, o desafio está lançado. O Movimento Cri’Arte apareceu este Verão, numa conversa sobre o estado da arte flaviense entre seis amigos, com idades entre os 20 e 25 anos que se conheceram na Academia de Artes de Chaves (AAC). “Chegámos à conclusão que as pessoas estão demasiado acomodadas a uma certa forma de fazer teatro, a um certo estilo de música e espectáculos”, explicou Sylvain Dias, acrescentando que o Movimento pretende “educar o público flaviense”, apresentando “espectáculos alternativos” (seja pelo contexto, forma de apresentação ou conteúdo) e abraçando todas as “formas de exprimir sentimentos”, como dança, pintura e música.

Outra constatação é que “é difícil mostrar o nosso trabalho nesta cidade. Há uma série de burocracias que se cruzam no nosso caminho”, apontou o jovem. No primeiro espectáculo, os cinco fundadores subiram ao palco (com o sexto elemento na iluminação e sonoplastia), mas não querem ficar só por aqui: o objectivo é funcionarem como uma “rampa de lançamento” de outros talentos escondidos na cidade e “dar oportunidade a quem ainda a não teve”. “Temos a certeza que, em Chaves, há muito talento”, mas ou “não o mostram cá para fora”, ou “não têm o devido valor reconhecido”, apontou Sylvain Dias, referindo como exemplo a Orquestra de Sopros da AAC e o grupo Enraizarte.

… para derrubar “o medo de arriscar em algo novo e diferente”

Para Sylvain Dias, a Câmara de Chaves tem feito “o esforço possível” na cultura, mas a mentalidade fechada da cidade faz com que as pessoas tenham “medo de chegar-se à frente e não têm coragem de mostrar o que sabem fazer. Há sempre o medo de arriscar em algo novo e diferente. (…) É essa barreira que queremos derrubar”. De modo a preservar os espaços culturais da cidade, o Movimento Cri’Arte desenvolveu ainda uma amizade com o Teatro Experimental Flaviense (TEF), a quem doou as receitas de bilheteira do primeiro espectáculo. Os jovens querem ajudar a associação a ultrapassar os problemas financeiros e a falta de adesão do público para que não feche portas, como o antigo Cine Teatro de Chaves.

No futuro, dependendo da aceitação, o Movimento Cri’Arte poderá transformar-se em associação, de modo a assegurar a renovação constante. “Não somos um grupo de amigos que resolveu fazer espectáculos pelas próprias mãos! Somos os impulsionadores de algo que acreditamos que pode ter pernas para andar bem longe”, rematou Sylvain Dias. O próximo espectáculo será musical e deverá ser apresentado no Natal.

Sandra Pereira

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