No passado dia 28 de junho foi assinada a escritura que deu origem à Escola Superior de Enfermagem Cruz Vermelha – Alto Tâmega. No início do primeiro ano letivo sob a alçada desta instituição, Henrique Pereira, presidente da Comissão Instaladora deste estabelecimento de ensino, em entrevista ao jornal A Voz de Chaves, referiu algum do trabalho que esta escola pretende realizar junto da comunidade e contou que o objetivo de a transformar numa Escola Superior de Saúde poderá ser uma realidade muito brevemente.

Jornal A Voz de Chaves: O que levou a Cruz Vermelha a assumir a Escola Superior de Enfermagem Dr. José Timóteo Montalvão Machado?

Henrique Pereira: De há alguns anos a esta parte que a Cruz Vermelha Portuguesa esteve interessada em integrar a Escola Superior de Enfermagem de Chaves no universo do Ensino Superior Cruz Vermelha. Tendo uma Escola Superior de Saúde em Oliveira de Azeméis e outra em Lisboa, com a escola aqui em Chaves completa-se um ciclo que, sob o ponto de vista geográfico, faltaria, apenas, uma mais a sul, no Algarve, por exemplo, e, assim, ficaria o país com uma cobertura de rede de ensino superior Cruz Vermelha bastante alargado.
Este é um projeto que a Cruz Vermelha vê com bons olhos, também no sentido em que queríamos que esta escola viesse a ser bilingue e que tivéssemos aqui uma forte relação com Espanha, essencialmente com a Cruz Vermelha Espanhola, isto é, a Cruz Roja. Paralelamente, queremos, também, transformar a Escola de Enfermagem em Escola Superior de Saúde. No fundo foi o processo pelo que qual as outras duas escolas passaram. Ambas começaram por ser escolas de enfermagem e transformaram-se em escolas superiores de saúde.

Qual a diferença entre uma escola de enfermagem e uma escola superior de saúde?

A ideia é alargar o leque da oferta formativa. Enquanto uma escola superior de enfermagem é uma área científica única, por isso só pode lecionar a enfermagem, ao passar para uma escola superior de saúde podemos ter aqui um conjunto muito vasto de cursos na área das tecnologias da saúde, por exemplo, e das terapêuticas não convencionais. Estamos a falar de aproximadamente 20 áreas possíveis, mas terá de ser balanceado com o mercado de trabalho e com todo o processo que envolve a acreditação dos 1ºs ciclos de estudos.
Isto passa por vários crivos e um dos crivos é justamente a acreditação dos ciclos de estudos pela Agência de Acreditação e Avaliação do Ensino Superior (A3ES). Para o efeito, a plataforma está aberta até dia 15 de outubro, e até esse dia queríamos ver se conseguimos submeter o curso de Fisioterapia para acreditação e instruir o processo da escola superior de saúde. São processos que indo para entidades diferentes devem correr em paralelo.

Estamos a falar de eventualmente poder surgir já este ano ou só no próximo ano?

Este ano é impossível. Só no próximo ano letivo, ou seja, 2020/2021. Isto acontecerá se for acreditado pela agência.

Certamente haverá outros cursos…

Sim. No entanto, neste momento estamos apostados em várias frentes, vamos ver se conseguimos dar resposta a todos os objetivos a que nos propomos. Um desses objetivos é para ser concretizado neste mês, e é justamente um projeto de formação contínua que estamos a concorrer para o quadro comunitário de apoio, programa POISE, formação para ativos. Aqui o leque pode ser mais alargado para outras áreas, mas estamos a falar de cursos de curta duração. Podem ter entre 20, 30 ou 40 horas de duração. Serão destinados essencialmente a enfermeiros, mas também podemos criar cursos multiprofissionais e até cursos dirigidos aos técnicos auxiliares de saúde, para as pessoas que trabalham há muitos anos no hospital e que precisam de atualizar conhecimentos e competências profissionais.

Já existe data prevista para a implementação destes cursos?

O projeto que estamos a conceber e que irá ser submetido em setembro é para dois anos, e, portanto, nós pensamos que alguns desses cursos têm de acontecer ainda antes do final do ano de 2019. Depois vamos manter até meados de 2021 o projeto a funcionar.

Voltando um pouco atrás, quando decidiram assumir a escola tiveram o apoio dos agentes locais?

Sim, com certeza, nomeadamente do município de Chaves. Os apoios são sempre relativos, ou seja, podemos ter apoios e incentivos mais ou menos qualitativos e termos apoios quantitativos. Aqui estamos a falar de apoio no sentido em que fizemos aqui uma pequena parceria, na qual o próprio Município está representado na comissão instaladora, neste caso pelo seu vice-presidente, o doutor Francisco Melo. E, portanto, isso é um sinal muito positivo que demonstra que o município de Chaves se revê e acarinha este projeto. Estamos a falar de dois meses de atividade, mas naturalmente que temos muitos projetos para desenvolver, não só com o município de Chaves, mas com todos os municípios do Alto Tâmega. Aproveito para dizer que vão ser todos contactados, no sentido de pensarmos em conjunto em projetos de desenvolvimento da região.

Nesse sentido, a Escola poderá ser uma mais-valia para ajudar, ao nível da formação, nas necessidades que possam existir aqui na região?

Sim, sem dúvida. Qualquer instituição de ensino superior implementada numa qualquer região contribui sempre para o desenvolvimento socioeconómico, para o desenvolvimento da literacia em saúde e para o desenvolvimento do conhecimento e da implementação de projetos que acrescentem valor científico, social e económico à região.
Não há dúvida nenhuma de que, para além desses princípios, temos com certeza todo o desejo de trabalhar, por exemplo, com os agrupamentos de escolas, nomeadamente ao nível do ensino secundário, porque ao trabalharmos com eles estamos a fazer uma ponte entre o ensino secundário e o ensino superior, e, nesse sentido, nós temos muita coisa para oferecer, nomeadamente o suporte básico de vida, cursos de primeiros socorros, que são hoje obrigatórios a diferentes níveis.
Com as próprias empresas locais também no que diz respeito à formação das pessoas que estão no ativo em termos de saúde, de higiene, de segurança, e portanto temos aqui um leque abrangente até aos próprios municípios. Temos estatutariamente uma Unidade de Prestação de Serviços à Comunidade. Já nomeámos uma responsável dessa unidade que será a pessoa que fará a ligação entre a direção da escola e a comunidade no que diz respeito a um conjunto vasto de atividades que possamos vir a fazer, quer sejam atividades no âmbito da educação para a saúde, quer sejam atividades de projetos de intervenção na comunidade com grupos de risco, grupos vulneráveis, em atividades de carácter mais social, em atividades de carácter mais de divulgação e marketing, etc.

Mas estamos a falar de um trabalho que é depois feito com os docentes e com estudantes…

Com as duas partes. Claro que os docentes são a massa crítica, são os responsáveis, e nem poderia ser de outra maneira. Mas terão a responsabilidade de fazer a gestão dos processos, e sempre em colaboração com estudantes. Estamos a criar uma bolsa de alunos voluntários para que esses mesmos alunos possam ser integrados em atividades de apoio à comunidade que eles próprios se sintam à vontade para as realizar, sendo sempre supervisados pelos docentes. Este é um trabalho que estamos a iniciar e que queremos que tome corpo, queremos que vá para a frente e irá com certeza porque estamos a trabalhar nele.
Os estatutos também preveem a criação da Unidade de Investigação e Desenvolvimento. Essa unidade tem como responsável uma professora doutorada que fará também um pouco a ligação à comunidade, ou seja, a investigação também pode ser feita com agentes da comunidade, com instituições que representam a comunidade, ou outro tipo de instituições de carácter mais empresarial ou outro.

Acredita que, com este renovado projeto, estão a ser criadas muitas expectativas para a comunidade?

Sim, sentimos que a comunidade está muito expectante e nós também queremos que esteja e queremos corresponder a essas expectativas.
Mas deixe-me referir que temos também a vertente da internacionalização, que tem estado aqui um bocadinho a ser trabalhada apenas com os espanhóis, e a Cruz Vermelha tem um conjunto muito vasto de protocolos a nível internacional, não só com os países de língua oficial portuguesa, mas também de toda a Europa. Já começámos a trabalhar no assunto. Aliás, nos dias 25, 26 e 27 deste mês vamos já fazer uma mobilidade numa localidade perto de Barcelona.
Depois, uma outra área que também não existia, é uma área mais interna mas que também é fundamental que é o Gabinete de Apoio ao Estudante e Inserção na Vida Ativa. Este vai ter consulta psicológica, e algumas ferramentas destinadas ao aprender a estudar e aprender a gerir o tempo que é muito importante para o estudante. Será um serviço que estará disponível para o estudante procurar de uma forma livre e espontânea para expor as suas dificuldades, até eventualmente algumas dificuldades financeiras que poderão ser colocadas à direção para que esta possa ajudar. Isso faz ligação com a questão do antigo estudante. A criação da Associação dos Antigos Estudantes é outro objetivo que queremos cumprir. Esta terá aqui uma janela de oportunidade para colaborar com a escola, não só de uma forma integrada nesse gabinete, mas também criando e implementando projetos em diferentes áreas. Neste momento já temos um antigo estudante interessado em criar a associação, e, portanto, está a constituir um grupo para que isso venha a ser uma realidade.
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