A surpresa da pandemia de covid-19 que está a atingir todo o mundo permitiu fazer surgir o melhor da humanidade: a solidariedade. É o caso do grupo criado no Facebook ‘Ajuda ao Hospital de Chaves e Hospital Santa Maria’, que ao longo das primeiras semanas de confinamento procurou, e conseguiu, munir instituições públicas e privadas e cidadãos em geral de material de proteção e outros bens para fazerem face à pandemia.

A Voz de Chaves falou com Nuno Veras, que em nome do grupo de flavienses contou como foi vivida esta etapa diferente das suas vidas. Com o desconfinamento, o grupo tirou o ‘pé do acelerador’ mas caso seja necessário estará pronto a regressar às ruas.

A Voz de Chaves: Após esta fase concluída, que balanço conseguem fazer? Conseguem resumir todo o trabalho que realizaram nas diferentes áreas?
A sensação com que ficamos é de muito orgulho, e de enorme gratidão pela oportunidade que a vida nos deu de sermos úteis a tantas pessoas, numa altura tão difícil, e pelo que, naturalmente, o balanço só pode ser francamente positivo, ainda mais, se considerarmos que tudo isto começou de forma a dar resposta a um pedido pessoal, por parte de uma familiar da Ana, que solicitava ajuda para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde trabalha, e que em pouco mais de um mês, já se havia traduzido na ajuda, primeiro em particular, a 10 Serviços do Hospital de Chaves, e depois, de forma mais ampla, a todas as suas valências, através da então criada Comissão de Apoio, sempre em estreita colaboração com a Administração do Centro Hospitalar e contando com a total disponibilidade e valiosa ajuda do Presidente da Casa do Pessoal, bem como às três Corporações de Bombeiros do Concelho, Centros de Saúde, INEM, GNR, Brigada de Trânsito, PSP, e a outras 27 entidades, repartidas entre Lares, Centros Sociais e Paroquiais, Associações, IPSS’s, …, a Doentes de Risco em particular, que nos foram fazendo chegar os seus apelos, e ainda, à população em geral a quem fomos distribuindo gratuitamente Máscaras Comunitárias de Tecido.

Qual a razão de fazer uma pausa por agora, conseguiram capacitar todas as instituições e população que pediu ajuda?
Numa altura em que começamos a sentir algum cansaço, em parte por ter de acumular a nossa missão às horas de trabalho diário nos nossos compromissos profissionais, em que, em alguns casos, como no meu por exemplo, nunca sofreram qualquer redução, em que nos apercebemos que vínhamos privando as nossas famílias da nossa presença, dia após dia, em que conseguimos dar resposta a todas as solicitações que nos foram chegando, embora nuns casos com mais equipamentos que outros, e sobretudo após ter sido decretada a primeira fase de desconfinamento, decidimos que era hora de parar com as entregas em massa a Profissionais, não só porque já haviam recebido a “nossa” ajuda mas também porque íamos tendo conhecimento de que os Equipamentos de Protecção Individual já lhe estariam a ser disponibilizados mais assiduamente, e entendemos, por isso, que era hora de canalizar todos os esforços e bens adquiridos/angariados para a população em geral, de forma a tentar evitar a propagação do Vírus protegendo o maior número possível de residentes no Concelho.

Nesse sentido, e depois de termos conseguido juntar mais de 15.000 Máscaras, entre FFP2/kn95, Cirúrgicas/Descartáveis e Comunitárias reutilizáveis à base de TNT, com a preciosa colaboração do Município de Chaves, a quem, agradecemos uma vez mais, na pessoa do seu Presidente, a colaboração e disponibilidade demonstrada desde o primeiro momento, era hora de as fazer chegar a quem “mais” precisa, daí, e tal como aconteceu no passado dia 13, entendemos que a melhor forma de as distribuir seria entregando-as, de forma equitativa, a quem melhor conhece a realidade de cada aldeia/vila e de forma mais próxima representa cada cidadão do nosso Concelho, os Presidentes de Junta de Freguesia.

Posto isto, aquilo que quisemos dizer, não foi de forma alguma um “Adeus”, foi antes um “Até já”, não foi um “esqueçam que existimos”, mas sim um “Deus queira que não voltem a precisar de nós”, no entanto, e se “infelizmente” assim for, continuamos aqui, estamos prontos para voltar com a mesma força, dedicação e vontade de ajudar.

Que equipas estiveram sempre envolvidas neste projeto?
Falar em nomes é sempre difícil, não porque eles não existam ou porque uns tenham feito ou contribuído mais que outros, no entanto, o risco de poder ser “ingrato”, esquecendo-me de mencionar alguém, leva-me a preferir dizer que à medida que o tempo foi passando o grupo foi crescendo, eu próprio não fiz parte da “formação” inicial. Devo por isso dizer, que a somar ao grupo de 5/6 elementos que várias vezes ao dia estão presentes nas reuniões, de forma pessoal ou através de vídeo-conferência, e na distribuição de equipamento, existem mais dois elementos que diariamente foram trabalhando na recolha e distribuição de máscaras comunitárias e, claro está, não esquecendo as grandiosas heroínas, muitas delas “sem rosto”, que diariamente foram contribuindo de forma muito generosa e completamente altruísta, aquelas a quem carinhosamente apelidamos de “Mãos de Fada”, e que muitas vezes no sacrifício de algumas horas de sono, foram produzindo as mais de 3000 Máscaras Comunitárias de Tecido que fomos disponibilizando à população, as Costureiras de Chaves.

Por fim, mas não menos importantes, todos quantos contribuíram de alguma forma com o seu donativo, em maior ou menor quantidade, cada contribuição foi vital, e pelo que não poderia deixar de os mencionar como naturais e legítimos membros pertencentes a este grupo e, claro está, sem os quais este projecto não teria sido possível.

Tem sido fácil lidar com todo este stress e até críticas que surgiram?
Pelo orgulho que temos, no trabalho completamente gratuito que vimos realizando, mas sobretudo pelo sentimento de dever cumprido, prefiro destacar o enorme espírito de solidariedade e de amor ao próximo, a generosidade diária de centenas de pessoas que nos foram fazendo chegar tudo quanto podiam, sem cobrar nada em troca, sem querer qualquer reconhecimento ou sem exigir qualquer tipo de satisfação, agradecer a forma como tantos e tantos têm acreditado na nossa missão e se têm redobrado em esforços para que nada falte a quem tem estado na linha da frente, do que perder muito tempo a falar do resto, a esses, que sem sequer saírem de casa, se foram vangloriando publicamente de estarem a fazer isto ou aquilo pelos demais, aos que nunca tiveram de assistir ao medo e à preocupação diária das nossas famílias, por nos verem juntar diariamente de forma completamente voluntária à linha da frente, a quem no confinamento seguro e confortável dos seus lares foi criticando a nossa existência, tentando até beliscar a nossa honestidade, ou ainda aos que pura e simplesmente nos foram apelidando de protagonistas, só quero e posso dizer Obrigado, aquilo que conseguiram foi tornar a nossa existência ainda maior, unir-nos cada vez mais em torno do grupo e da missão, fazer com que tivesse valido a pena cada hora de sono “perdida”, e dizer também, que numa coisa estavam certos, fomos, somos, e caso seja necessário, estou certo que voltaremos a ser, verdadeiros Protagonistas.

 

Esta onda de solidariedade pode contagiar os flavienses e transmontanos para esta nova realidade?
Naturalmente que sim, esta onda de solidariedade já contagiou os Flavienses, ou não fossemos habituais Senhores na conhecida e genuína arte de ajudar e de bem receber todos quantos por aqui passam, ainda assim, devo confessar que fomos sendo surpreendidos pela enorme quantidade de acções que foram surgindo, de entre as quais, e em alguns casos, embora humildemente e de forma completamente desinteressada, nos sentimos orgulhosamente “culpados”.

A finalizar, em nome de todo o Grupo, um enorme e sentido agradecimento a todos quantos colaboraram, depositando em nós a confiança de fazer chegar a sua ajuda a quem mais precisou.

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