Sandra Albertina da Silva Nogueira Rodrigues Vinhais Sarmento tem 47 anos e é a mais recente entrevistada na nossa rubrica na qual falamos com mulheres da região que ocupam cargos de maior responsabilidade. Esta flaviense, residente em Mirandela, é diretora Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Norte e conta ao jornal A Voz de Chaves que a sua paixão pela natureza surgiu desde muito cedo.

Como foi o seu percurso académico?
Em 1990 terminei o secundário no Liceu Fernão de Magalhães, em Chaves e em 1995 concluí a Licenciatura em Arquitetura Paisagista na Universidade de Évora. Alguns anos mais tarde, em 2002, terminei o Mestrado em Instrumentos e Técnicas de Apoio ao Desenvolvimento Rural – Especialização de Gestão de Recursos Naturais, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Em 2012 inscrevi-me num programa doutoral e concluí a componente curricular do curso de Doutoramento em Arquitetura Paisagista e Ecologia Urbana, promovido pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, em articulação com o Instituto Superior de Agronomia e com a Universidade de Coimbra. Possuo ainda uma Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável e Promoção da Iniciativa Local em Meios Rurais, promovida pela Associação Nacional de Oficina de Projeto em parceria com a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Tive desde sempre uma grande motivação para a gestão de recursos naturais, procurando reforçar as minhas competências nesse âmbito, pelo que durante o meu percurso fui frequentando ações de formação nas áreas do ordenamento do território, urbanismo, ambiente, gestão de recursos hídricos, conservação da natureza e gestão pública, entre as quais destaco o curso de especialização “A 2ª Geração de Planos Diretores Municipais”, o curso de “Hidráulica e Reabilitação Fluvial” (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto), o Programa de Formação em Gestão Pública promovido pelo Instituto Nacional de Administração, o curso de “Gestão da Crise e Mudança Organizacional” e o curso em “Administração das Organizações”, etc.

Como foi o seu percurso profissional?
Iniciei a minha atividade profissional em 1994, no gabinete de projetos de arquitetura paisagista “ORLA”, com dois professores da Universidade de Évora, onde desenvolvi trabalho na área de integração paisagística de estradas e estudos de impacte ambiental.

Em setembro de 1994 fui convidada para coordenar o Curso de Gestão Ambiental e Paisagística da Escola Beira-Aguieira, em Mortágua (1994-1995), onde lecionei diversas disciplinas na área do ambiente.

De julho de 1995 até fevereiro de 2008 trabalhei como técnica superior no Gabinete de Apoio Técnico da Terra Quente Transmontana (1995 a 2008), responsável pela elaboração de projetos e acompanhamento técnico de obras de arquitetura paisagista e coordenação da Equipa SIG da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana (2005 e 2008).

Em 1999 fui convidada para Docente do Instituto PIAGET de Mirandela, responsável pela disciplina de Ordenamento do Território do curso de Engenharia Civil e Ordenamento do Território, onde estive até 2002.
De fevereiro de 2008 a agosto de 2012 integrei a Estrutura Sub-Regional de Vila Real da CCDRN, onde desenvolvi trabalho nas áreas do Ordenamento do Território e Ambiente, bem como no licenciamento industrial, de pedreiras e análise de estudos de impacte ambiental.

Em agosto de 2012 fui convidada para dirigente da Administração da Região Hidrográfica do Norte da Agência Portuguesa do Ambiente, onde exerci as funções de Chefe de Divisão de Planeamento e Comunicação (agosto de 2012 a maio de 2013) e mais tarde de Chefe de Divisão do Douro Interior (maio de 2013 a setembro de 2018), com competências no âmbito do licenciamento da utilização de recursos hídricos, gestão de conflitos nesse domínio, acompanhamento de processos de elaboração, alteração, revisão de planos de gestão de recursos hídricos e de outros instrumentos de gestão territorial.

Em setembro de 2018 fui convidada para Vogal do Conselho Diretivo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P., em Lisboa, onde exerci funções até maio de 2019, com competências nas áreas de planeamento, gestão e valorização das áreas classificadas, na coordenação de programas e ações de interesse nacional em matéria de conservação da natureza e da biodiversidade, das florestas e dos recursos florestais; na preparação de contributos para a definição dos instrumentos de financiamento para a conservação da natureza e floresta, de acordo com as estratégias, planos e programas sectoriais vigentes, na gestão da marca «Natural.PT», etc.

Desde maio de 2019, com a alteração da orgânica do ICNF, estou a exercer funções de Diretora Regional de Conservação da Natureza e Florestas do Norte e Vogal do Conselho Diretivo do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P. (ICNF, I. P.), organismo que “tem por missão propor e executar políticas integradas de ordenamento e gestão do território, em articulação com entes públicos e privados, nos domínios da conservação da natureza, da biodiversidade, das florestas e competitividade das fileiras florestais, e assegurar a coordenação da prevenção estrutural e gestão dos fogos rurais”.

É Diretora Regional da Conservação da Natureza e Florestas do Norte, mas o que queria ser quando era criança?
Sempre fui uma criança com muita energia e vontade de mudar o mundo, e cresci a acreditar que um dia seria médica e participaria em missões humanitárias. No entanto, e apesar de ter esse sonho, sempre tive uma ligação muito forte à natureza e quando, em 1990, entrei no Curso de Arquitetura Paisagista, única opção para além da medicina, embora tivesse sido um choque, rapidamente me apaixonei pelo curso e no final do 1º ano já não pensava sequer em mudar de curso.

É um curso muito inspirador e eu tive a sorte de ter mestres muito inspiradores, como o Arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles, o Professor Alexandre Cancela d’Abreu, o Professor Nuno Mendonça, a Professora Aurora Carapinha, o Professor Jorge Araújo e tantos outros que ainda hoje são uma referência na minha vida. Com eles aprendi a interpretar a paisagem, a importância do ordenamento do território e da gestão sustentável dos recursos naturais. Foi também com eles que aprendi a nunca desistir, a ser rigorosa e exigente em tudo que faço e a dar muito valor ao trabalho de equipa.

Gosta do que faz atualmente?
Gosto muito! Eu considero-me uma pessoa muito privilegiada, sempre gostei muito do que fiz durante todo o meu percurso profissional. Mas trabalhar na área da conservação da natureza e na área da proteção e gestão das florestas é muito compensador, embora seja muito exigente. São áreas verdadeiramente estruturantes em termos ambientais, pelo que sentimos que, com o nosso trabalho, estamos a dar um contributo muito importante para a sustentabilidade ambiental. É realmente muito gratificante!

Alguma vez sofreu algum tipo de discriminação por ser, digamos, uma mulher num ainda visto como mundo de homens?
Não. Nunca senti nenhum tipo de discriminação por ser mulher. Eu defendo o profissionalismo e a liderança pelo exemplo, e acredito que as pessoas são o ativo mais importante das organizações, devendo naturalmente ser valorizadas e tratadas com todo o respeito, sejam mulheres ou homens.

O que pensa sobre este assunto?
Penso que nós mulheres temos de nos continuar a afirmar pela competência, pelo trabalho, pelo compromisso, pela dedicação e empenho, pela determinação, pela persistência e nunca deixar de acreditar em nós próprias.

O que acha que pode ser feito para mudar mentalidades?
As mulheres têm de continuar a afirmar-se pela competência no trabalho e encontrar soluções de conciliação da vida pessoal, familiar e profissional. Naturalmente tudo leva o seu tempo, mas eu acredito que estamos no bom caminho e este governo tem dado muita atenção às questões relacionadas com a igualdade de género no trabalho, e tem procurado implementar um conjunto de medidas muito relevantes.

Como foi e como tem sido conciliar a sua vida profissional com a vida pessoal?
Desde sempre tive uma atividade profissional muito intensa, pelo que conciliar a minha vida profissional com a minha vida pessoal não foi, nem é uma tarefa muito fácil, mas com o apoio incondicional da minha família e de uma amiga que me acompanha há já muitos anos, consegui acompanhar com proximidade o percurso escolar da minha filha, que já está na faculdade, simultaneamente crescer enquanto profissional, e ter a disponibilidade necessária para aceitar novos e exigentes desafios. De qualquer forma, é sobretudo uma questão de organização, motivação, determinação e gosto pelo que fazemos!

Quais as suas perspetivas de futuro a nível profissional?
Gostava de ter a oportunidade de ver implementado o projeto que iniciei há um ano com os meus colegas do Conselho Diretivo do ICNF. Pretendemos modernizar o ICNF, torná-lo mais dinâmico, ágil, ativo e afirmar um caminho de prestígio institucional junto dos diversos agentes do território, reforçar a nossa presença no território e criar melhores condições para os nossos colaboradores, e assim contribuir para a preservação e valorização do capital natural, contribuindo também para a melhoria do estado de conservação de habitats e espécies, bem como para o ordenamento e gestão integrada do território e para a valorização e proteção das florestas.

Maura Teixeira

 

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