A Associação Portuguesa de Mulheres e Desporto está a promover por todo o país “um desporto justo e sem discriminações”. Regina Seixas é a dinamizadora da região e tem desenvolvido junto dos clubes com futsal ou futebol feminino campanhas de dinamização. O Primeiro passo é consciencializar as próprias jogadoras e depois partir para as entidades oficiais.

“A luta já não é de agora”, afirma Regina Seixas, que não teve dúvidas em abraçar este projecto da Associação Portuguesa Mulheres e Desporto (APDM), que defende a igualdade entre homens e mulheres no desporto.
O primeiro passo na região está a ser dado por Regina, que está a promover junto das equipas femininas de futsal e futebol acções de esclarecimento e dinamização acerca do projecto. Chaves, Valpaços, Vila Pouca de Aguiar, Vila Real ou Bragança, em resumo, todos os clubes onde existe a prática de futsal ou futebol feminino. Feita a dinamização junto dos clubes, numa acção que está a decorrer a nível nacional, o projecto deverá continuar junto das entidades oficiais, como câmaras municipais, juntas de freguesia ou escolas, já com o levantamento de toda a realidade feminina no futsal e futebol.
“Mudar também as mentalidades de quem está na capital e de quem gere o desporto a nível nacional”, alerta Regina. “Continuamos a ver que aqueles que mandam, continuam a valorizar o desporto masculino em prol do feminino”, atira.
Combater a invisibilidade, as barreiras culturais e os estereótipos
A meta é 2012, altura de um encontro nacional, mas todo este projecto começou em 2009, na altura dos Jogos da Lusofonia. Aí o futsal e o futebol feminino ficaram de fora da organização e, segundo a APDM, sem razões válidas, o que dizem ser uma “discriminação”. Da petição nacional pela “Igualdade no Desporto” até ao projecto “O Jogo das Raparigas” foi um pequeno passo e a APDM é neste momento financiada pelo Programa Operacional Potencial Humano, do Quadro de Referência Estratégico Nacional. “Também a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) aprovou esta iniciativa, considerando-a de grande relevância na essência da sua própria missão”, explica a associação.
Além da luta  contra a invisibilidade, as barreiras culturais ou mesmo os estereótipos criados sobre as mulheres no desporto, a APMD, e o projecto “O jogo das Raparigas em concreto, têm também como objectivo a consciencialização das próprias raparigas e mulheres que praticam desporto. Tudo isto para “uma perspectiva de consciencialização dos seus direitos, promovendo oportunidades de participação, de organização e de desenvolvimento das suas competências de liderança, bem como o aumento da prática desportiva”, explica a associação.
Acção de dinamização em Chaves
Na passada sexta-feira, dia 17 de Setembro, Regina Seixas esteve em Chaves para promover e sensibilizar os dois clubes de futsal flavienses. As atletas ficaram a conhecer o projecto, o porquê e os objectivos e tiveram também a oportunidade de partilhar as suas opiniões e vivências no desporto.
Liliana Gonçalves está há seis épocas no Hóquei Clube Flaviense e achou “interessante” a ideia de “colocar o futsal feminino ao nível do masculino”. “É preciso tentar fazer ver aos pais que o futebol não é só para homens e que não prejudica ninguém, faz é bem à saúde”, defendeu Liliana.
A jogadora do Hóquei não reclama apenas mais apoio financeiro para as secções femininas, mas também reclama “mais apoio dos adeptos”. “Chaves é uma cidade de desporto e devia haver mais apoios”, afirmou Liliana Gonçalves, concluindo com o destaque à iniciativa que Regina está a fazer, na região, “pelas mulheres”.
Há seis anos no futsal, e com apenas 18 anos, Mariana Pinto, da AD Flaviense,  gostou “bastante” do projecto. “É uma forma de motivação para as jogadoras. É através destes projectos que vemos que vale a pena jogar e evoluirmos nos treinos”, confessou Mariana.
A atleta da AD Flaviense pede mais apoios, não só financeiros mas também “na divulgação dos jogo”. “Incentivar o público, para incentivar as jogadoras”, referiu Mariana Pinto, que diz nunca ter sofrido qualquer tipo de discriminação em Chaves. “Sempre joguei com rapazes e era sempre mais uma”, explicou Mariana.
“O lucro se calhar é cada um se sentir bem naquilo que faz”, refere-se Regina Seixas ao futsal na região. Depois de muitos anos ao serviço do futsal na região, Regina parou este ano. Mais recentemente esteve cinco épocas na AD Flaviense, abraçando agora o projecto da APMD, sendo por isso conhecedora da realidade na região. “Custa ver, quando clubes ao mesmo nível, num distrital, o masculino tem um orçamento de 15 a 20 vezes superior ao feminino, desde vencimentos, a prémios de jogo, ao treinador mais remunerado”, confessou Regina, concluindo que estas “são questões que deviam ser ultrapassadas e que começam por uma mudança de mentalidades daqueles que dirigem esses clubes e essas equipas”.
5 Perguntas a: Regina Seixas, dinamizadora para da área de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Associação Portuguesa Mulheres e Desporto.
A Voz de Chaves – O que a levou a entrar para esta associação?
Regina Seixas – Este projecto vem de uma luta que eu tenho já há muitos anos em relação à evolução do futsal feminino, quando iniciámos cá em Chaves, antes dos anos 90.
Tem a oportunidade de contribuir para o desenvolvimento do futebol e do futsal em concreto e num grupo de pessoas conseguimos ter mais força. Foi essa a razão que me levou a aceitar e contribuir para este projecto.
Quais são as principais lacunas na região  em relação a este assunto?
Em primeiro, na nossa região, é a questão das instituições darem o mesmo valor à prática feminina como dão à masculina. Depois uma mudança de mentalidades: mostrar que as mulheres têm o mesmo direito que os homens, quer no seu dia-a-dia, como seres humanos, quer na prática desportiva, em que os homens têm um acesso mais facilitado a prémios que as mulheres não conseguem ter, mas essencialmente no acesso às condições de prática e esse será o primeiro passo a dar.
Enquanto dinamizadora o que vai ser feito na região?
Em concreto neste momento e no que diz respeito ao passo a passo os objectivos do projecto, são sensibilizar primeiro as jogadoras, pois são elas o objectivo a ter em conta, e depois também todo o envolvente, pais e encarregados de educação. Os dirigentes, treinadores, directores e professores, todo o envolvente que lhe pode dar força para que o projecto vá avante e se consiga criar condições para que as raparigas tenham acesso à prática desportiva.
Ao longo da sua carreira viveu muitas situações de injustiça e desigualdades?
Sem dúvida, essa é uma das minhas lutas. Lembro-me que na altura, para começar a jogar futsal cá em Chaves tivemos que fundar um clube, enquanto que um rapaz para jogar futsal cá em Chaves tinha vários clubes para jogar. Na altura fundámos um clube, o Chaves FEMINI Clube, e conseguimos manter esse clube unido quase até hoje, mudando de nome, mas com as mesmas jogadoras.
Ao longo dos anos essa desigualdade tem vindo a diminuir?
Tem vindo a diminuir, mas ainda há muitos obstáculos a ultrapassar. No próprio cumprimento dos regulamentos. Nos apoios que dão às instituições, mesmo na federação. Os próprios árbitros, que não respeitam tanto a prática feminina como nos homens. As jogadoras que tiveram presentes na acção reviram isso. Se calhar o respeito será um dos primeiros passos por parte das instituições. E depois então cumprir os regulamentos e depois cumprir aquilo que vem na constituição: direitos iguais para os homens e para as mulheres.

Diogo Caldas – dcaldas12@gmail.com
loading...
Share.

Comentarios fechados.