Paula Fernanda da Mota Chaves tem 52 anos, é vereadora da Câmara Municipal de Chaves, responsável por vários pelouros, de entre eles a Ação Social, e, em entrevista ao jornal A Voz de Chaves, conta que apesar de nunca ter ambicionado um cargo político, se sente realizada naquilo que faz.

Jornal A Voz de Chaves: Como foi o seu percurso académico?

Paula Chaves: Frequentei o Primeiro Ciclo na Escola de Santo Amaro, o Segundo ciclo no Forte de S. Francisco e do 7º ao 12º ano frequentei a escola Secundária Fernão de Magalhães.
Fiz o bacharelato em Gestão de Empresas Agrícolas no IPB e a Licenciatura em Engenharia Agronómica. Paralelamente, fiz uma Pós Graduação em Higiene e Segurança no Trabalho.

Como foi o seu percurso profissional?

Comecei a trabalhar muito cedo, com 16 anos. Comecei nos OTL (Ocupação de Tempos Livres), na Câmara Municipal de Chaves. Aos 19 anos trabalhei nas Termas de Chaves, no Bar. Quando terminei o meu curso superior, comecei a trabalhar na Escola Nadir Afonso a dar aulas de Matemática e de Ciências Naturais, e durante a tarde completava o horário no Estabelecimento Prisional de Chaves, e foi uma experiência maravilhosa. Comecei também a trabalhar na Cooperativa Agrícola Norte Transmontano como estagiária. Aí permaneci até assumir este desafio da política, há sensivelmente três anos (no atual mandato autárquico).
A minha vida profissional andou sempre lado a lado com o mundo rural, razão pela qual as áreas que desempenho como autarca me são muito familiares. Tem sido uma aprendizagem constante este convívio com as pessoas genuínas, o que para mim é altamente gratificante, constituindo um enriquecimento contínuo.

É vereadora da Câmara Municipal de Chaves, mas o que queria ser quando era criança?

Quando somos crianças queremos ser muita coisa na vida. Tentamos imitar aqueles que gravitam à nossa volta. Uma coisa lhe confesso: de entre os muitos sonhos, jamais algum dia pensei em ocupar um cargo político, mas, como se diz na gíria, a vida dá muitas voltas e aqui estou, com muita honra, a servir os meus concidadãos.

Gosta do que faz atualmente?

Posso dizer que me sinto realizada. Sentindo-me realizada, obviamente, estou a admitir que gosto muito do que faço. Esta minha realização assume várias facetas. Desde logo porque estou a cumprir uma missão que está a ser gratificante, missão essa que corresponde a um desafio assumido com a população flaviense que generosamente confiou na equipa liderada pelo Dr. Nuno Vaz e na qual eu tenho a honra de estar integrada.
Nesta missão, o presidente da Câmara delegou em mim áreas de intervenção com as quais eu me identifico perfeitamente e, quando assim é, o trabalho executa-se com muita determinação e alegria.
Posso-lhe dizer que nestes quase três anos de mandato, nas áreas que eu coordeno, já fizemos grandes obras e continuamos a fazer, obras essas traduzidas numa clara melhoria da qualidade de vida dos nossos concidadãos. Falo, obviamente, em projetos ligados à Ação Social e também ao nível dos Mercados e Feiras. Só para dar alguns exemplos, lembro que estamos a reabilitar os bairros sociais. No período de confinamento, não parámos a nossa ação no plano social. Fizemos uma ação muito meritória com o projeto dos cabazes sociais de alimentos, numa altura em que verificámos que a pandemia poderia enfraquecer ainda mais certos setores sociais mais vulneráveis à crise que se abateu sobre nós.

Alguma vez sofreu algum tipo de discriminação por ser, digamos, uma mulher num ainda visto como mundo de homens?

Não concordo inteiramente com essa questão. Hoje em dia, esse estigma está muito ultrapassado. Há mulheres de grande valor e que, por isso se sentem no direito de ocuparem qualquer cargo, assim como o contrário, há homens que, por mérito, também ocupam determinados cargos. A História foi moldando a sociedade para o setor masculino assumir as responsabilidades exteriores ao lar, enquanto que à mulher eram confiadas as lides domésticas. No entanto, essa situação foi melhorando em prol da igualdade e hoje em dia, a mulher tem o seu lugar por direito próprio, em todos os setores da sociedade. Particularizando. No meu caso, modéstia à parte, tenho o meu mérito e, talvez seja essa a grande arma para me poder afirmar e ser respeitada, não só no seio da equipa onde estou integrada, como em todos os projetos em que entro, pois, quando sou desafiada e se aceito o desafio, é sempre com grande determinação que abraço essa causa.
Sendo uma pessoa positiva, extrovertida e de comunicação fácil, rapidamente afasto qualquer fantasma discriminatório, se eventualmente surgisse, o que, felizmente, no meu caso, nunca aconteceu.
Na minha atividade profissional sempre trabalhei com mais homens do que mulheres e sempre me senti acarinhada e valorizada nas funções que desempenhei.

O que pensa sobre este assunto?

Este é um tema cujo debate jamais terá um fim elucidativo e conclusivo, assim como outros, como a questão racial e outras.
No caso concreto da discriminação sexual, não vale a pena estarmos a ocultar o sol com uma peneira. É dos tais assuntos que nos há-de acompanhar ainda durante várias gerações e com amplos debates, mas, se fizermos uma pequena retrospetiva, reportando-nos apenas ao século XX, por exemplo, veja os progressos.
Hoje, desfrutamos de direitos iguais perante o homem, mas veja só: apenas em 1862 as mulheres puderam votar pela primeira vez na Suécia. Nos restantes países europeus só muito mais tarde lhes foi consagrado o direito ao voto.
Outro exemplo: no país da Liberdade, Igualdade e da Fraternidade, a França, apenas em 1870 as mulheres passam a ter acesso aos cursos de Medicina. Até aí, médico era apenas profissão masculina. À mulher estava destinada a tarefa de parteira (muito nobre esta missão, sublinhe-se!). E hoje? Há discriminação entre quem entra para os cursos de Medicina e quem exerce tal profissão?
Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado, pois sabemos que há ainda países onde a mulher sofre todo o tipo de segregações, ao nível profissional, racial, sexual, político e cultural.
A estadista Margaret Thatcher deixou para a posteridade esta frase: “Se você quer algo, pergunte a um homem, se você quer que algo seja feito, peça a uma mulher”.

O que acha que pode ser feito para mudar mentalidades?

Sobre esta questão, já respondi em parte na pergunta que me fez anteriormente. As mentalidades estão a mudar dia a dia. No caso concreto da sociedade portuguesa essa mudança é visível. Repare nas conquistas de Abril e o papel da mulher na sociedade desde então. E, concretamente, em Chaves, nunca senti qualquer ato discriminatório.

Tem dois filhos. Como foi e como tem sido conciliar a sua vida profissional com a vida pessoal?

Os nossos filhos são o complemento da nossa felicidade, do amor. Como qualquer mulher, quando enveredamos por um qualquer projeto de vida ativa, temos que ponderar muitas situações. Nós mulheres, temos este condão de podermos ser simultaneamente esposas, mães, profissionais e, no meu caso concreto, política, atividade que me absorve muito do meu tempo, inclusive, noites e fins de semana, tradicionalmente momentos destinados à família, mas, ao assumir esta responsabilidade, tudo foi discutido, abordado com o marido, que é o meu pilar em todas as decisões que temos que tomar e filhos e, todos juntos, estamos a levar com bastante êxito a nossa “Carta a Garcia”, com muito esforço e boa vontade de todos. Digo-lhe que até ao momento, estou a conseguir ser boa esposa e boa mãe. É esta harmonia familiar que me ajuda a ser como sou, pois eles são os meus maiores incentivadores.

Quais as suas perspetivas de futuro a nível profissional?

Se me fala em termos políticos, não posso prognosticar nada, pois o futuro, além de ser uma incógnita onde é impossível adivinhar, estamos ainda condicionados pelo veredito popular, mas, se me permite, essa é uma questão que não deve ser abordada, pois o tempo presente é de agir, de honrar compromissos assumidos e continuarmos a trabalhar em prol da sociedade flaviense, desenvolvermos e terminarmos os projetos em que toda a equipa está muito empenhada.
Em termos estritamente profissionais, ao assumir a vereação em tempo inteiro, tive que me desligar daquilo que fazia anteriormente, e que fazia com muito gosto e onde era muito feliz e, se um dia tiver que voltar, voltarei a fazer com a mesma dedicação como antes o fazia.

Maura Teixeira

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