No âmbito das bodas de Diamante da Casa de Santa Marta, foi inaugurada no sábado uma exposição documental em homenagem póstuma ao fundador, Padre Manuel Pita, no Arquivo Municipal de Chaves. A mostra pode ser vista até ao final do mês e desvenda um pouco da vida e obra de um missionário simples, discreto e pouco (re)conhecido pelos flavienses.

 

“O meu Asilo é hoje desprezado e esquecido; dias virão em que há-de tornar-se grande e respeitado”. Palavras do Padre Manuel José Pita, missionário flaviense pelo nascimento, mas chinês pela vida e cultura, que em 1936 doou uma quinta no Bairro do Telhado às irmãs da Congregação das Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados para a criação de um asilo. Este ano, a Casa de Santa Marta cumpre 75 anos de existência em prol da comunidade e celebra a data homenageando o seu fundador com uma exposição documental patente até 31 de Maio, no Arquivo Municipal de Chaves.

 

Uma homenagem que as irmãs da Casa de Santa Marta consideram necessária pelo desconhecimento e esquecimento que a cidade de Chaves imprimiu até hoje a este homem discreto, mas que deixou muita obra feita. Na abertura da exposição, no passado sábado 30 de Abril, Júlio Montalvão Machado, que conheceu o homenageado na sua juventude, lembrou que “o Padre Manuel Pita passou fugidiamente por Chaves. (…) Não era muito sorridente, andava sempre de batina e usava um abanador de palha contra o calor”.

 

Natural da freguesia de Carvela, no concelho de Chaves, Manuel José Pita partiu muito novo para Macau, onde entrou para o seminário São José. No Oriente, cumpriu 30 anos de apostolado, deixando grande obra na ilha de Hainan (China). Regressou aposentado a Chaves em 1928, habitando uma casa modesta na Travessa de S. José, na Madalena. “Era um homem muito simples”, recordou Montalvão Machado, que o aponta como tendo sido o primeiro padre da Igreja da Madalena, que na altura não existia como paróquia eclesiástica, nem como freguesia civil. Presente na homenagem, esteve também um familiar do Padre Pita, que faleceu a 30 de Outubro 1951 na freguesia que o viu nascer. “Merece esta homenagem e muito mais. Era um homem inteligente que gostava de fazer o bem”, considerou Manuel Pita.

 

“O Padre Pita é um grande desconhecido”

 

“Foi o padre que convidou as irmãs [fugidas da Guerra Civil de Espanha]a colaborar com a Santa Casa da Misericórdia de Chaves, que já tinha um lar”, recordou a irmã Maria do Carmo. Contudo, após algumas divergências com a direcção da Santa Casa, o Padre Manuel Pita, conhecido como o “padre das barbas”, decidiu dar-lhes uma “casa pequena” no Bairro do Telhado, que o trabalho e dedicação das irmãs transformaram no que é hoje a Casa de Santa Marta, que acolhe cerca de 128 idosos.

 

Contudo, em Chaves, “o Padre Pita é um grande desconhecido”, considera a irmã, que acredita que este facto terá a ver com a desadaptação de um padre que passou a maior parte da vida no Oriente, onde foi “o intérprete do Governo português junto dos chineses”. “Era uma pessoa muito importante na altura, quer a nível de Governo, quer a nível de Igreja”, notou a irmã Maria do Carmo. Por isso, “queremos reavivar a memória do padre Pita e temos todos os elementos necessários para elaborar uma biografia muito completa da vida em Macau, mas faltam dados sobre os anos que viveu cá”, apontou.

 

De resto, “temos muita pena que o nome do Padre Pita tenha saído do nome da casa”, que inicialmente se chamava Asilo Padre Manuel Pita, confessou Maria do Carmo, que destaca que, além de um busto, as irmãs da Casa de Santa Marta gostavam de dedicar uma rua ao padre à volta do asilo. “Existe uma, mas é no Seara, no monte, e acho que o Padre Pita merecia ser mais conhecido e mais tido em conta dentro da cidade”, rematou a irmã Maria do Carmo.

 

Presente na inauguração da mostra, o presidente da Câmara de Chaves, João Batista, reconheceu no Padre Pita “uma figura humilde, que na sua terra deixou uma obra notável”. Se até à data a vida e obra do Padre foi pouco reconhecida pelos flavienses, admitiu o autarca, “os 75 anos da Casa servem de pretexto para a reposição de alguma justiça” e para cumprir as palavras proféticas do missionário flaviense: reconhecer a importância da Casa de Santa Marta, “uma instituição de muito mérito e prestígio”. Este sábado, 7 de Maio, pelas 10h30, as celebrações continuam com a apresentação de um livro monográfico sobre a Casa de Santa Marta, no Salão Polivalente do asilo, pelo bispo coadjutor de Vila Real, D. Amândio Tomáz.

 

Sandra Pereira

 

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