Fonte: Sábado

Já sabemos quais são os sintomas da Covid-19 – febre, tosse e dificuldade em respirar. Mas como é que estes são provocados? E como entra o vírus dentro do organismo? A “raptar” as nossas próprias células.

O novo coronavírus já fez mais de três mil infetados em Portugal e mais de 500 mil em todo o mundo. Mas como é que a Covid-19 entra no nosso corpo e como se comporta dentro de um doente? O que faz provocar os seus sintomas?

Como o coronavírus entra no nosso corpo?

O vírus é espalhado através de gotículas transmitidas por um infetado pelo ar, seja por tosses ou espirros, que podem chegar ao nariz, boca ou olhos de uma pessoa próxima. 

Estas gotículas viajam depois pelos canais nasais até se ligarem a células que produzam certas proteínas, as enzimas conversoras de angiotensina 2 (ACE2), que são recetores que existem em células epiteliais dos pulmões, intestinos, rins e vasos sanguíneos, e aos quais o SARS-CoV-2 se liga para entrar nas membranas celulares do nosso organismo – quase como uma catapulta que ajuda o vírus a ficar em contacto com as células humanas.

Nos morcegos, animais que se pensam ser de onde o vírus é originário, é usada uma proteína semelhante para a ligação ao organismo. Os agentes infeciosos são compostos por material genético envolvido numa carapaça de proteína e gordura, que usam para se ligarem às membranas – permitindo que o material genético entre depois nas células humanas.

É nesta altura que o vírus começa a “raptar” as células humanas ao organismo, comandando-as a ajudarem o novo coronavírus a multiplicar-se, impedindo o sistema imunitário de se aproximar. Como o fazem? Ora, o material genético do vírus – o ARN, semelhante ao nosso ADN – é largado para formar cópias dentro de uma célula humana. Em pouco tempo, podem ser criadas entre 10 a 100 mil.

Como explica William Schaffner, médico especialista em doenças infecciosas, ao New York Times, o material genético do novo coronavírus diz a uma célula humana: “‘Não faças o teu trabalho normal. O teu trabalho agora é ajudar-me a multiplicar-me e fazer o vírus’”.

Para comparação de tamanhos, o genoma do coronavírus – toda a informação genética armazenada no ARN do vírus – tem 30 mil pares de bases, a unidade utilizada para contar a quantidade de material genético. O genoma humano tem mais de 3 mil milhões de pares de bases.

Cada célula viral pode libertar milhões de cópias com material genético até a célula humana morrer. Os vírus vão depois infetar as células humanas vizinhas, matando-as, e assim sucessivamente. Podem escapar para os pulmões, fazendo com que a infeção acelere.

E é assim que se forma a doença propriamente dita: a Covid-19. 

Como é que o vírus começa a provocar os seus sintomas?

Os sintomas da Covid-19 já são relativamente conhecidos e documentados – febre, tosse, dificuldade em respirar, insuficiência respiratória aguda – mas como é que o vírus os provoca? Ou melhor, como é que o corpo os provoca a si mesmo para combater o vírus?

Quando o organismo humano percebe que o vírus está no corpo e está a destruir células, desencadeia uma resposta inflamatória para se tentar proteger e expulsar o objeto estranho que o está a atacar. Como consequência desta resposta ao vírus, aparece também a febre.

Esta inflamação chega também às mucosas dos pulmões e brônquios, e é esta irritação que provoca a tosse frequente. Pode ainda danificar os alvéolos, onde é realizada a troca de oxigénio pelo dióxido de carbono – o que pode dificultar esta função e o fornecimento de oxigénio ao sangue que circula pelo corpo.

Em casos extremos, o sistema imunitário pode começar mesmo a atacar as células dos pulmões, com estes a ficarem obstruídos com grandes quantidades de fluído e células mortas – o que leva a dificuldade em respirar ou, em menor percentagem, à pneumonia ou a síndromes respiratórias agudas.

Ao New York Times, o professor de patologia Shu-Yuan Xiao indicou que o vírus aparece primeiro nas áreas periféricas de ambos os pulmões e demora ainda algum tempo a chegar ao trato respiratório superior, à traqueia e às vias respiratórias. 

O diretor do centro de Patologia e Diagnóstico Molecular na Universidade de Wuhan, cidade na China originária do novo coronavírus, examinou dezenas de pacientes e crê que este padrão ajuda a explicar também porque é que muitos dos casos iniciais não foram identificados imediatamente e acabaram mandados para casa sem tratamento.

“Eles acabaram por, ou ir a outros hospitais para procurar tratamento, ou ficar em casa e infetar a sua família. Essa foi uma das razões pela qual a propagação foi tão grande.”

E o vírus pode causar danos para além dos pulmões?

Apesar da Covid-19 se centrar nos pulmões, por ser uma virose respiratória, pode também infetar células do sistema grastrointestinal – onde também existe o mesmo receptor ACE2. Esta pode ser a razão pela qual alguns pacientes demonstram sintomas menores como indigestão – que pode estar associada à febre – e diarreia.

Schaffner, consultor no Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, indica ainda que o vírus pode até chegar à corrente sanguínea, com o mesmo centro de estudos a referir que o ARN do novo coronavírus já foi encontrado no sangue e fezes de espécies – embora não seja claro que o vírus possa sobreviver nestes fluidos e resíduos.

“O vírus pode chegar a órgãos como o coração ou o rim e pode causar danos diretos a esses órgãos”, diz ao New York Times, explicando que, à medida que o sistema imunitária aumenta o combate ao vírus, a inflamação resultante pode levar a que outros órgão deixem de funcionar. Como resultado, alguns infetados pelo novo coronavírus acabam por suportar a dor, não só provocada pelo vírus, mas também pela própria resposta à Covid-19.

Além destes sistemas, o novo coronavírus pode levar à inflamação de órgãos como o fígado, como em casos registados durante o surto de 2002 e 2003 da Síndrome respiratória aguda grave (SARS).

   
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