A Luta Galhofa pode não ser conhecida por muitos, mas faz parte da cultura portuguesa. É ainda anterior à formação de Portugal como nação. Flaviense Vítor Gomes, da Associação Portuguesa O Samurai, está num projeto para levar a arte marcial para Guimarães.

Esta arte marcial Galaica praticada em Trás-os-Montes, tendo em Bragança o nome de Galhofa e no Alto Tâmega e Barroso a designação de Luta, tem a sua origem Celta. Naquela altura houve uma fusão entre Celtas e Iberos passando a chamar-se o povo Celtibero. Este povo estava dividido em tribos sendo que os Lusitanos eram os mais conhecidos, ficando a Lusitânia entre o rio Douro e o Tejo. Um dos seus mais famosos chefes foi Viriato (um pastor de gado por profissão) que acabou por ficar muito conhecido até aos nossos dias pela sua bravura e as vitórias sobre os Romanos.

Este tipo de luta transitou até aos descendentes dos Lusitanos, o povo português. Crê-se que teve uma variante própria na zona da margem sudeste do rio Douro e em várias localidades e povoações a Sul do rio Douro. Todos estes lugares pertenceram à Lusitânia. A tradição do estilo da Luta Galhofa terá sido perdida nessas zonas por vários factores ao longo dos tempos.

Da Luta Galhofa não se sabe em concreto a data do seu surgimento, mas estima-se ter mais de 2000 anos (tempo dos Celtas e Iberos), sendo os Lusitanos que lhes deram mais uso. A prática da modalidade era uma forma de medir forças para saber quem era o mais forte do clã.

Durante alguns tempos ela manteve-se nas aldeias transmontanas, e era associada à passagem dos rapazes adolescentes para adultos. Contudo o passar dos tempos também teve o efeito inverso em outras localidades, deixando de se praticar, ficando somente como demonstração em dias festivos por três localidades do concelho de Bragança.

A luta em si era praticada em currais com a cobertura de palha fresca, descalços, em tronco nu, somente com calças, era por aí que eles puchavam. estas eram feitas de um material robusto o borel ou algum material semelhante, em que estas calças castanhas por vezes rasgavam ficando exposto o corpo dos lutadores. O objectivo era derrubar o adversário de forma a que ele tocasse com as costas no chão e quem derrubasse era considerado vencedor. Não havia socos nem pontapés, mas sim agarrar o adversário e fazê-lo cair de costas. Uma espécie de Wrestling Transmontano. Uma particularidade que a Luta Galhofa tem é que antes de iniciar e no final, os praticantes dão um abraço, prevalecendo a amizade durante e após a prática.

A técnica tinha no seu nome original “Manha” e a Luta também se chamava de “Porrada”. Não tinha o objectivo do combate, treino de guerra, mas sim para medir forças entre homens e rapazes da aldeia, era um jogo cultural. O medir forças consistia na conjugação entre a “Manha” e a força física, o que não significa que o vencedor tivesse mais força física que o seu adversário, mas sim a junção das duas. O nome Galhofa tem a ver com a luta estar inserida num contexto de festa, alegria e brincadeira, uma autêntica galhofa…

As mulheres e crianças não estavam permitidos a assistir, era um exclusivo para os homens. No final comemorava-se com uma bela refeição confecionada pelos rapazes com as iguarias tradicionais em que participavam os mordomos e homens daquela região. Para terminar os festejos faziam o baile da rosca que para além da confraternização era destacado o vendedor da luta.

Com o fim de não se perder esta luta tradicional, que está a ser transformada em modalidade desportiva estando sobre a égide da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras (FPLA). Esse caminho tem sido longo, os trilhos por vezes não são fáceis de percorrer e com os recursos limitados, estando esse trabalho a ser feito desde 2008, entrando a APS (Associação Portugal Samurai) em 2009 para ajudar a traçar o bom caminho, o sonho veio a concretizar-se em 2016, em que a Federação reconhece a Luta Galhofa como modalidade desportiva. Para além do reconhecimento da FPLA (que tem um carinho muito especial pela disciplina), actualmente já é oficialmente uma modalidade desportiva.

Aqui entra uma nova vida para a modalidade, a componente desportiva e a componente cultural. A cultural não tem grandes alterações no seu caminho, tende-se sim preservar e divulgar de modo a que não desapareça.

Quanto à nova componente desportiva há alterações. Existe equipamento definido, está aberta a todas as faixas etárias e as mulheres podem praticar. Houve adaptações, em vez da palha dos currais, temos os tradicionais tatamis das artes marciais, o tronco dos atletas deixa de ser despido e já é coberto com uma licra para permitir que as mulheres também pratiquem, as calças são de material leve, robusto e confortável, o caso da sarja. Há graduações através de uma faixa à cintura em que o branco é utilizado para os iniciantes, o amarelo para os intermédios, o castanho para os avançados e o preto para os instrutores. Tem escalões de idades e de pesos. Há eliminatórias, equipa de arbitragem, entre outros factores que levam a este tipo de luta, uma actividade desportiva aberta a todos.

A essência da Luta Galhofa é cultural, contudo tem contornos desportivos.
Em 2018 houve a primeira prova oficial de Luta Galhofa pela FPLA, e o ano de 2019 correu da mesma forma. Nesta segunda prova oficial, decidiu-se também trazer ao público a modalidade tradicional sobre a palha.

Assim há mais uma garantia para a continuidade desta arte milenar, não correndo tanto o risco de desaparecer assim como outras Artes Marciais. Esta dinâmica vem de um grupo de pessoas tais como o Mestre Vitor Gomes, da Associação Portuguesa O Samurai, de Chaves, que para além da Luta Galhofa ensina outras disciplinas, o presidente da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras Pedro Silva, tentam divulgar em Portugal e no estrangeiro esta forma de luta.

Em breve a cidade de Guimarães terá um espaço com a Luta Tradicional Portuguesa, o Dr. Paulo Freitas do Amaral, achou por bem que esta modalidade não se podia perder e uniu-se a batalha de preservar esta nossa cultura e tentando implementar numa entidade, como poderá ser a Misericórdia de Guimarães, o treinador certificado pela FPLA , que estará a frente deste clube será Pedro Oliveira, num projecto do Mestre Vítor Gomes, que acredita que se houver mais clubes e associações a dar esta modalidade em alguns anos, poderemos ter a Luta Tradicional Portuguesa em vários pontos do país e algo que esteve quase extinto, estar completamente a salvo por muitas décadas. Só é de lamentar que este projecto já tem anos e foi entregue a todo os centos escolares de Chaves e ao Município e nunca teve resposta, explicou o flaviense.

Município destaca apoios

À Voz de Chaves, o município de Chaves esclareceu que tem apoiado regularmente a Associação Portuguesa O Samurai, concretamente, entre outras iniciativas, no apoio à organização do Open de Portugal Luta Greco-Romana e Luta Feminina em 2018 e da etapa do Mundial de Wrestling de Praia em 2019, que foi uma prova inédita no país. A autarquia lembrou ainda que a associação está instalada num espaço municipal e que isso resulta num apoio mensal de 200 euros e que desde outubro de 2017 o município apoiou iniciativas da associação em mais de oito mil euros.

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