Em criança ambicionava ser enfermeira e conseguiu concretizar esse sonho. Hoje, Laurentina Maria Gonçalves da Santa Teixeira, de 57 anos, reside em Vila Pouca de Aguiar – de onde é natural –, é diretora executiva do ACES (Agrupamentos de Centros de Saúde) do Alto Tâmega e Barroso e, em entrevista ao jornal A Voz de Chaves, conta como foi o seu percurso até aqui e como tem sido conciliar a vida profissional com a vida pessoal.

Jornal A Voz de Chaves: Como foi o seu percurso académico?

Laurentina Teixeira: Frequentei o meu curso de enfermagem de 1982 a 1984. Depois fiz a especialidade, em Enfermagem de Saúde Pública, de 1990 a 1992. Depois da especialidade fiz o mestrado em Ciências da Enfermagem, no Instituto de sempre fazer formação que fosse ao encontro do exercício das minhas funções.

Como foi o seu percurso profissional?

Iniciei as minhas funções como enfermeira em dezembro de 1984. Comecei por trabalhar no Centro de Saúde de Vila Pouca de Aguiar. Depois tomei posse como enfermeira especialista em 1992. Posteriormente concorri a enfermeira-chefe e iniciei funções como tal em agosto de 1993. Aí fui chefiar o Centro de Saúde de Santa Marta de Penaguião. Nunca me tinha passado pela cabeça ser enfermeira-chefe, apesar de já ter estado a exercer funções em substituição da enfermeira-chefe que esteve em formação durante um ano. A área que mais me fascinava era a da prestação de cuidados, mas o concurso a enfermeira-chefe tinha um desafio grande: havia uma discussão curricular, ou seja, uma avaliação pelo meio de uma entrevista para avaliação de conhecimentos e, essencialmente, conhecer as expectativas e aquilo que eram os nossos projetos futuros. Na altura não se falava ainda no enfermeiro de família, mas eu idealizava um enfermeiro de família porque estive a trabalhar numa extensão de saúde em Vila Pouca de Aguiar, que era em Campo de Jales, que eu digo que foi a minha escola, e foi quando fui para lá que defini o meu futuro. E recordo-me que uma das questões que me fizeram na altura foi o que eu faria se fosse enfermeira-chefe, e eu dizia que ia implementar o enfermeiro de família. Era a mais nova de todas as que estavam a concorrer e consegui ficar com a vaga. Para conseguir implementar o enfermeiro de família acabei então por ir para o Centro de Saúde de Santa Marta de Penaguião. Nessa altura já tinha os meus dois filhos, e fazia 90 km diariamente, entre casa e o trabalho e vice-versa. O enfermeiro de família acabou por ter bastante visibilidade a nível nacional.

Em 2001 tomei posse como enfermeira supervisora em 2001, mas antes, em 1996, fui convidada para integrar e implementar o gabinete de saúde pública a nível da sub-região de Saúde de Vila Real. Em 1998 fui presidente da Comissão de Especialidade em Enfermagem de Saúde Pública e Comunitária e por inerência integrava o Conselho Nacional da Ordem dos Enfermeiros.

Integrei vários grupos de trabalho a nível nacional, quer a nível da Direção-Geral da Saúde, quer a nível da ARS. Entre 2008 e 2011 fui membro do Grupo Consultivo para a Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, grupo de apoio à Ministra da Saúde. Fiz sempre um percurso muito centrado naquilo que era a reorganização dos cuidados de saúde primários.

Depois, com esta reorganização dos cuidados de saúde primários, que implicava acabar com as ARS distritais e as sub-regiões, passámos a ter os agrupamentos de Centros de Saúde. No distrito de Vila Real ficaram dois agrupamentos. Logo no início, em 2009, que vim para o agrupamento Trás-os-Montes, Alto Tâmega e Barroso. Foi precisamente no dia 1 de abril, mas só vim trabalhar no dia 2. Vim cá falar com o então diretor executivo, que é o atual presidente da Câmara de Chaves, o Dr. Nuno Vaz, e disse-lhe que não vinha trabalhar no dia 1 porque era o dia dos enganos e eu não queria vir enganada para cá. Perguntei-lhe então se me autorizava a vir trabalhar só no dia 2 e autorizou. A partir daí os agrupamentos, em termos de órgãos de gestão, têm a direção executiva e têm o Conselho Clínico e de Saúde. Integrei esse conselho como vogal de enfermagem e estive até 2015, quando fui nomeada diretora executiva. Quando me convidaram houve alguma resistência da minha parte, mas depois acabei por aceitar. Estou contente com aquilo que faço. No início foi um bocadinho complicado. Foi uma surpresa para todos, e houve algumas pequenas resistências pelo facto de eu ser enfermeira e muitos não entendiam como era possível uma enfermeira ser diretora executiva. Alguns diziam que não era por não me reconhecerem competências, porque já as tinham reconhecido enquanto elemento do conselho clínico, mas era uma questão de princípio. São os tais estereótipos. Em julho do ano passado fui novamente reconduzida como diretora executiva.

Durante todo o seu percurso profissional, alguma vez sentiu que ser mulher a colocava, digamos, em desvantagem?

Como mulher não. Não que eu seja muito nova, mas já não estávamos naquela fase em que havia mais tendência para os homens ocuparem cargos mais importantes. Mas pela minha formação talvez. Se formos a ver, as enfermeiras eram maioritariamente mulheres, enfermeiros-chefe maioritariamente eram mulheres também. Ou seja, enquanto enfermeira nunca senti isso, mas depois enquanto diretora executiva também nunca senti que alguma vez fosse discriminada pelo facto de ser mulher. Senti foi, como já referi, aqui pelo facto de ser enfermeira, e mais da parte do grupo profissional, o que é natural porque era uma área mais reservada a médicos. Entretanto aqui também já não era novo que o diretor clínico poderia não ser um médico. O primeiro diretor executivo não era médico, era da área do Direito. O segundo também tinha formação em direito, e depois vim eu com formação em Enfermagem, e muita formação na área da Gestão.

Como foi e tem sido conciliar a sua vida pessoal com a vida profissional?

A sorte foi que eu tive uma família que sempre me deu muito apoio, e foi por isso que consegui fazer o percurso que fiz. Quando fui fazer a especialidade já tinha a minha filha. E como uma colega minha costumava dizer ao meu marido: metade da especialidade era minha e metade era dele. Porque de facto ele foi fundamental nesse acompanhamento e nunca se opôs a que eu fizesse o meu percurso independentemente de ter de ir para o Porto, que na altura ainda não havia autoestrada e demorávamos mais tempo, por isso tinha de lá ficar durante a semana. Os meus pais, a minha avó e a minha madrinha também foram um apoio fundamental. Quando fui para o Porto andei à procura de casa e de um infantário para por a minha filha. Quando a minha avó soube da minha intenção ficou de tal maneira ofendida e enervada que teve um AVC. E depois tinha toda a gente a dizer-me que se lhe acontecesse alguma coisa a culpa era minha porque lhe ia tirar a menina, e acabei por deixá-la ficar. Passava a semana sem ver a minha filha. Ela tinha quatro anos na altura, e foi sempre uma criança muito desenvolta, até de mais para idade. Muito autónoma.

E nessa altura nunca pensou em largar tudo e voltar para casa?

Às vezes tive vontade. Mas por outro lado também achava que já que estava lá tinha de acabar. A especialidade era um ano e meio e depois se calhar justificaria aquela ausência de outra forma. Mas a minha filha tinha uma sensibilidade não muito comum àquela idade. Por exemplo, quando eu ia embora ela ficava muito triste, mas nunca chorou à minha frente. À segunda-feira de manhã, quando eu tinha de ir embora, ela fazia questão de ir até ao carro dizer-me adeus. E ela não chorava, só me dizia “Oh mãe tem de ser, tens que ir”. E mal eu desaparecia da vista dela, ela agarrava-se às pernas da minha mãe e chorava muito. Mas quando falávamos ao telefone ela nunca me disse “Tenho saudades. Anda embora”. Dava-me muita força. Já com o meu filho, as coisas foram mais complicadas. Quando ele nasceu eu fui para Santa Marta de Penaguião. Saía de manhã e regressava ao final da tarde. Mais uma vez tinha o apoio da minha mãe e do meu pai, porque o meu marido também trabalhava em Vila Real. Antes de sair eu ia levar o meu filho a casa da minha mãe. Quando o meu filho tinha um ano fui fazer o mestrado. E foi aí que as coisas se complicaram. A meio da semana ele ficava sempre doente. Era matemático. E eu aí já fazia a viagem diariamente. Ia e vinha todos os dias. Porque nós só tínhamos aulas durante uma semana por mês. Mas como ele, mesmo sendo pequenino, já percebia que se passava algo fora do normal, porque já não era eu que o levava à minha mãe. Mas tive sempre muito apoio e é por isso que digo que fiz o percurso que fiz porque tenho uma família incrível.

Quais as suas perspetivas de futuro a nível profissional?

Enquanto estiver como diretora executiva quero fazer o melhor que sei, o melhor que posso e procurar nortear o meu trabalho sempre nos princípios e nos valores que tenho, de tentar ser sempre o mais coerente e isenta possível com todos, não prejudicar ninguém. Quero dar as mesmas condições e tratamento a todos, desde o assistente operacional ao enfermeiro ou ao médico mais graduado. Desde que começou o ACES trabalhámos sempre para conseguir mudar algumas mentalidades, algumas práticas e organizar os serviços de acordo com aquilo que são os cuidados de saúde primários. Isso não é fácil, porque temos profissionais, principalmente os médicos, que já estão muito próximos da reforma e sentem que já deram o que tinham a dar, que já passaram por muitas reformas e que pensam que não vale a pena mudar mais nada, ou seja, pessoas muito resistentes à mudança.

Estamos a começar a receber médicos novos, mas estamos com um grande problema, o de conseguir fixar. Eles vêm mas assim que podem vão-se embora. E isto é muito difícil para implementarmos seja o que for. Não quer dizer que os novos são melhores que os mais velhos. É mais uma questão de eles terem outra forma de pensar, dominam outras tecnologias, hoje em dia são muitas plataformas, corre tudo muito rápido. A reforma do ACES previa, por exemplo, as Unidades de Saúde Familiares, e aqui tem sido muito difícil conseguirmos que as pessoas adiram a essas unidades. Neste momento temos três. As duas últimas já foram implementadas desde que tomei posse como diretora executiva. Existem mais três que irão depender de alguns fatores. Alguns médicos vão sair, outros estão a aposentar-se. Estamos a ver se conseguirmos que pelo menos alguns deles fiquem para depois darmos continuidade e conseguirmos concretizar esta ideia. Relativamente aos novos, temos pessoas que ao fim de meio ano ou de um ano vão embora. Por exemplo, agora vai abrir concurso, e temos 11 vagas. Dessas, só duas são para colmatar listas de utentes sem médico que são dos que se vão aposentar. Porque todos os outros são para substituir os que já cá estavam, que entraram no ano passado. Assim, é muito difícil conseguirmos desenvolver seja o que for.

Maura Teixeira

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