Os tempos são outros e agora  as aldeias, outrora cheias de vida e alegria, dão lugar a locais que mais parecem abandonados, e onde apenas ficaram algumas pessoas para contar como já foram aqueles locais, um dia. Solidão leva as pessoas a confiar em desconhecidos e a cair em “contos do vigário” e a GNR de Chaves, esteve junto das pessoas nas aldeias para lembrar  os perigos de viver em isolado e como devem agir perante desconhecidos.

Desertificação e uma elevada idade dos moradores podem significar vulnerabilidade para as aldeias cada vez mais despidas de gente. Ao início da tarde do dia 10 de Novembro encontravam-se cinco pessoas junto à antiga escola primária de Roriz, já desactivada há largos anos. Fazem companhia uns aos outros e vão passando o tempo e nesta tarde de quarta-feira receberam a visita de dois agentes da GNR de Chaves.

De 15 de Outubro até 15 de Novembro, a GNR de Chaves desenvolveu, através de contactos pessoais, acções de sensibilização à população idosa nos concelhos de Chaves, Valpaços, Boticas e Montalegre. O objectivo? “Comunicar os procedimentos de segurança a observar em situações de tentativa de burla ou burla consumada, de forma a criar maior sentimento de segurança junto da população afectada por este tipo de criminalidade”.

É sempre bom receber visitas, e depois de percebido o motivo da presença da GNR, rapidamente se percebe a vulnerabilidade a que os idosos estão sujeitos. Desde telefonemas estranhos, onde as pessoas do outro lado da linha insistem em receber informações sobre a pessoa, até estrangeiros a bateram à porta insistindo para entrar, as gentes de Roriz foram contando as suas experiências pessoais.

São muitas as histórias que os burlões inventam.

O “Conto do Vigário” é uma das formas mais recorrentes de burlas a idosos e pode definir-se como uma “historieta impingida por gatunos a pessoas desprotegidas e ingénuas, para apanharem os seus bens e dinheiro”. É importante nestas situações não acreditar em pessoas desconhecidas, que se aproximam com negócios ou promessas, ou alegando contas em atraso, trocas de dinheiro ou inquéritos da segurança social.

Embora não existam em Roriz casos recentes de burla, pois os habitantes contactados pareciam mesmo bem informados e prevenidos, a desertificação é uma realidade. “É rara a aldeia que tenha uma casa com mais de duas pessoas”, atira Agostinho Reigado, antigo militar da GNR, que há três meses não vai à cidade de Chaves e que explica como são passados os dias na aldeia. Entre “tomar café e conversar”, até se juntarem aos “domingos para um jogo de cartas” as pessoas também “têm ainda as suas hortas”, com que se vão entretendo.

Mas o convívio durante as tardes, que nesta altura do ano vão ficando cada vez mais frias, “seria muito mais confortável com a criação de um local de convívio”. Quem afirma é Fernando dos Santos, viúvo, que considera que “seria bom para a aldeia” existir um local de convívio, e aponta a antiga escola primária como o local ideal para a obra.

Num outro local da aldeia encontra-se mesmo uma situação de possível vulnerabilidade. Nesta altura das castanhas existem carrinhas que vêm de longe para comprar sacos de castanhas. Vindo desde Vila Flor, estava um comerciante, mas já conhecido das pessoas, a carregar os sacos e que conta que para aquela zona também se estão a desenvolver estas campanhas de sensibilização. A passar por aquele local estava Maria Rodrigues, que depois de receber o panfleto informativo contou logo uma história que a chocou muito e que viu na televisão sobre uma senhora que tinha sido enganada por uns homens que se fizeram passar por representantes da segurança social.

Burlões são “pessoas bem vestidas e bem falantes”

Sempre que um desconhecido se aproxima com uma voz calma, afável e com uma conversa convincente e cativante, podemos estar na presença de um burlão. Desde familiares e amigos de familiares, os burlões podem fazer-se passar por funcionários da segurança social, dos CTT, bancários ou médicos. “As burlas a idosos continuam a ser praticadas por indivíduos cuja apresentação e postura não levantam suspeitas, que se exprimem muito bem com voz calma e afável e com uma conversa extremamente convincente e cativante, demonstrando conhecer bastante bem a vida familiar dos lesados, os seus hábitos e a sua rotina diária ganhando, assim, a sua confiança”, explica a GNR.

“A população atingida por este tipo de criminalidade é maioritariamente constituída por pessoas idosas, residindo por vezes sozinhas e em locais isolados, onde não existem hábitos de segurança e a informação não chega”, conclui. É então importante, além de não confiar imediatamente em desconhecidos e nas suas histórias, ter números de telefone à mão para poder contactar com alguém em caso de perigo.Conforme explicou o Capitão Jorge Costa, comandante do destacamento territorial da GNR de Chaves, a operação “cumpriu com o objectivo a que se propos” Ao todo, foram contactados cerca de 410 pessoas, entre Centros de Dia, Lares, Misericordias e através do contacto directo com a população mais idosa.

Diogo Caldas – redaccao@diarioatual.com

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