José e João Medeiros são flavienses, mas vivem no Luxemburgo e na Bélgica, respetivamente, onde são enfermeiros.

José Medeiros

Tiraram a licenciatura em Enfermagem em Chaves na Escola Superior de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa – Alto Tâmega, à data denominada de Escola Superior de Enfermagem Dr. José Timóteo Montalvão Machado.

José trabalha na Cruz Vermelha do Luxemburgo, na prestação de cuidados ao domicílio. O flaviense de 30 anos explicou que neste país os cidadãos têm o direito de usufruir dos cuidados primários nas suas casas. “Inicialmente, foi um choque para todos os profissionais e clientes, pois o surgimento deste novo vírus deixou-nos a todos muito apreensivos. Com o passar dos dias e com as medidas de prevenção que foram postas em prática, os clientes, gradualmente, voltaram a sentir-se em segurança com a nossa presença. No setor onde eu exerço funções, posso dizer que a situação está controlada, sendo para isso importante continuar com todas as precauções, sem baixar a guarda”, referiu.

João trabalha no hospital central Marie Curie, a 50 quilómetros de Bruxelas, capital da Bélgica, lidando diretamente com os infetados: “Em meio hospitalar somos sujeitos a testes de despiste com regularidade. Não escondo a minha ansiedade quando toca o telefone, pois, em função dos resultados que me comunicam, poderei ou não continuar a desempenhar a minha missão. Apesar de todos estes temores, sinto-me privilegiado e recompensado quando posso anunciar ao paciente que está livre do vírus, e simultaneamente ver na sua cara a felicidade, gratidão e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido”. O enfermeiro flaviense diz que este está a ser o maior desafio da sua vida profissional e fala numa “guerra invisível e altamente contagiante” que acredita que ainda poderá durar vários meses.

No que toca à parte pessoal, ambos afirmam que uma das coisas que mais lhes custa é não poderem ver a família, especialmente estarem um com o outro, mesmo estando relativamente próximos, pois são dois países fronteiriços. “Pela primeira vez em 30 anos, eu e o meu irmão gémeo estamos separados fisicamente, por um longo período, mas, como nada nos separa um do outro, continuamos ligados virtualmente”, apontou José Medeiros.

No caso de João, este conta ainda com o apoio da sua esposa Soraia, que também trabalha como enfermeira e lida diretamente com infetados por Covid-19, “o que torna mais fácil as adversidades que estamos a vivenciar”, realça.

Se a falta de equipamentos de proteção individual é uma realidade em muitos países, estes enfermeiros têm a sorte de, até à data, nunca terem tido este género de problemas, estando todas as valências preparadas para lidar com um doente com o novo coronavírus, mas garantem que o uso diário durante horas a fio deste equipamento é muito desgastante, não só a nível físico, como psicológico: “Lidar com a pressão, no decorrer desta pandemia, confere um medo constante pela possibilidade de sermos infetados, assim como também uma sensação de impotência com a falta de instrumentos necessários e eficazes para salvar as vidas dos nossos doentes, eles sim, os Heróis”.

Regresso a Portugal para trabalhar fica, para já, adiado

Tendo já exercido enfermagem em Portugal, Espanha, Bélgica e Luxemburgo, estes irmãos gémeos tiveram a oportunidade de perceber a “excelente cotação conferida ao enfermeiro português a nível mundial, fruto da reputada formação e qualidade”. No entanto, no que diz respeito a Portugal, ambos afirmam que este reconhecimento não acontece: “Parece que só no contexto atual desta pandemia é que se está a valorizar o trabalho dos enfermeiros. Anteriormente, o nosso Primeiro-ministro reprovou uma proposta que visava o reconhecimento desta classe”.

João Medeiros

Juntando isto ao facto de nos países onde se encontram existir uma carreira profissional estruturada e com possibilidades de progressão, bem como incentivos para estudar, o regresso destes dois irmãos flavienses está, de momento, adiado. Contudo, ambos mantêm a esperança de um dia voltarem “com as merecidas condições de trabalho e de reconhecimento”.

As visitas à sua cidade natal para passar férias são frequentes, sendo já uma tradição a participação de ambos na maratona de futebol de praia: “Desde há 12 anos, no mês de julho, que participamos na Maratona de Futebol Praia de Chaves, o melhor torneio do país, onde, com a nossa equipa, aproveitamos para juntar a nossa família e, também, voltar a jogar e confraternizar com os nossos amigos, o que tememos que este ano não possa acontecer”.

Tendo sempre Portugal, e em especial Chaves no coração, José e João Medeiros fazem questão de promover o país e a sua cidade nos países que os acolheram. Assim, quiseram deixar uma mensagem de esperança em tempos difíceis aos seus conterrâneos: “Os Portugueses sempre foram um povo com um espírito guerreiro, e desde cedo foram obrigados a ir à luta e a vencer muitas batalhas. Mais uma vez, estamos a mostrar ao mundo a nossa capacidade de resposta e de união. Nós, os Flavienses, infelizmente habituados a travar grandes lutas políticas contra a centralização, temos posto em prática todo o nosso espírito de ajuda, solidariedade e superação que nos é característico, e com isso alcançando resultados exemplares nesta batalha que vamos com toda a certeza superar. A mensagem que queremos transmitir é de orgulho em todos os Flavienses, em especial familiares e amigos”.

O Luxemburgo é o país europeu com mais casos de infeção pelo novo coronavírus per capita – cerca de quatro mil infetados e mais de uma centena de óbitos – e a Bélgica é o país europeu com mais mortes por Covid-19 per capita – cerca de 56 mil infetados e nove mil vítimas mortais. No caso da Bélgica, grande parte destas mortes ocorreram em lares de idosos e todas as mortes são incluídas nos números oficiais, mesmo quando não são confirmadas com um teste positivo. Esta medida está a gerar forte contestação pública, podendo resultar num impacto negativo no que diz respeito à imagem deste país a nível internacional, trazendo dificuldades na retoma da economia, em particular no setor do turismo.

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