Gisela Maria Esteves do Espírito Santo nasceu em Moçambique há 49 anos e vive em Chaves. Desde muito cedo soube qual o caminho que pretendia seguir e, em entrevista ao jornal A Voz de Chaves, esta flaviense destaca a importância da família, nas suas diferentes tipologias, na promoção da igualdade de género e no combate à discriminação, valores que tem vindo a passar para a sua filha, e que espera que um dia os seus netos defendam também. 

Jornal A Voz de Chaves: Como foi o seu percurso académico?
Gisela Espírito Santo: Iniciei a minha formação escolar no Colégio dos Maristas em Lourenço Marques. Entretanto regressei a Portugal, com os meus queridos pais e irmão, no dia 5 de outubro 1974, altura em que já se tinha posto cobro à ditadura e se respirava esperança e liberdade. Anos antes, o meu avô paterno tinha sido preso pela PIDE e a sofrida revolta de meu pai havia adiado o nosso regresso à “metrópole”. Já em plena democracia, frequentei a então escola primária de Santa Cruz e o segundo ciclo na Escola Nadir Afonso. Entre o 7º e o 12º ano de escolaridade estudei na Escola Secundária Fernão de Magalhães, onde mais tarde viria a experienciar a minha primeira atividade profissional, sob a orientação de uma das pessoas que mais admirei: o Dr. José Augusto Fillol Guimarães. Em 1989 ingressei na Universidade de Coimbra, onde me Licenciei e obtive o grau de Mestre em Psicologia. Mais tarde, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, fiz uma Pós-Graduação em Gestão Pública. Fui realizando diversos cursos complementares, sobretudo na área Social, no domínio da Gestão Pública, do Desenvolvimento Organizacional, do Planeamento Estratégico, do Emprego, da Formação Profissional e da Igualdade. Sempre gostei de estudar porque entendo que o conhecimento é condição básica para o progresso individual e coletivo.

Como foi o seu percurso profissional?
O meu percurso profissional foi, desde o início, muito desafiante e relacional, tendo sempre como foco central o serviço às pessoas. Logo após a Licenciatura fui colocada como professora de Técnicas Especiais (Psicologia) na Escola Secundária Fernão de Magalhães e a par dessa função colaborei como professora convidada no Polo de Chaves da UTAD e na Escola Superior de Enfermagem Dr. José Timóteo Montalvão Machado. Entretanto ingressei nos Quadros de Pessoal do IEFP, IP como Conselheira de Orientação Profissional. Entre 2005 e 2010 exerci a função de Diretora no Centro de Emprego de Chaves. Posteriormente, assumi funções como Diretora Adjunta no Centro Distrital de Segurança Social de Vila Real do ISS, IP, com poderes delegados e subdelegados nas áreas funcionais da Unidade de Prestações e Atendimento, e Núcleo Administrativo e Financeiro. Entre novembro de 2015 e outubro de 2017 assumi funções dirigentes enquanto Diretora Adjunta do Centro de Empego e Formação Profissional do Alto Tâmega. Desde 13 de novembro de 2017 desempenho o Cargo de Diretora deste Serviço Público.

É Diretora do Centro de Emprego e Formação Profissional do Alto Tâmega, mas quando era criança o que queria ser?
Recordo-me com nostalgia que em criança sonhava ser hospedeira. Gostava muito de viajar e da descoberta de “novos mundos”. No meu imaginário todas as hospedeiras eram mulheres bonitas e cultas. Dominavam diversas línguas e tinham a oportunidade de conhecer muitas pessoas, mentalidades e culturas. Mais tarde, por volta dos 12 anos de idade, decidi querer Licenciar-me em Psicologia. As preocupações sociais, o gosto pela comunicação e a curiosidade sobre o comportamento, o pensamento e as emoções das pessoas, levaram-me desde muito cedo a saber qual o caminho a seguir.

Gosta do que faz atualmente?
Para mim é um enorme orgulho trabalhar e servir no IEFP, IP e, nesta fase pandémica, particularmente difícil, em que este Instituto Público é considerado Serviço Essencial, os desafios e as exigências são exponenciais.
Do ponto de vista pessoal e institucional, nunca tinha enfrentado um desafio tão intenso, rigoroso e humanamente desgastante. Mas esta crise veio provar, exatamente, que a administração pública e os seus trabalhadores se encontram preparados para enfrentar a adversidade perante a necessidade e a excecionalidade. A pandemia, que chegou de modo inesperado, obrigou-nos (e ainda nos obriga) a repensar os modelos de gestão, de organização, de funcionamento e de articulação com os parceiros sociais, empresas e cidadãos. O desafio tem sido constante, mas o serviço que prestamos às pessoas motiva-nos a cada dia.
Assumir uma condição de liderança e responsabilidade acrescida numa área da administração pública de fulcral importância para os cidadãos e para o território do Alto Tâmega, quando temos um forte vínculo emocional a este sistema, não poderia deixar de significar realização e felicidade. Tudo o resto se torna secundário face à grandiosa missão e prestação do IEFP, IP..

Alguma vez sofreu algum tipo de preconceito durante o seu percurso profissional por ser mulher?
Naquilo que respeita ao meu percurso profissional, julgo não ter sido vítima de preconceitos associados ao género. Mas, o facto de eu não os ter sentido neste âmbito, não significa que outras mulheres não tenham sido discriminadas pela sua condição. De facto, apesar dos avanços ocorridos em Portugal e no mundo, relativamente às questões de género, e desta temática merecer importante destaque nas Agendas Políticas Nacionais, Europeias e Internacionais, ainda há um longo caminho para trilhar.
A igualdade entre Mulheres e Homens, ou Igualdade de Género, respeita à igualdade de direitos e liberdades de participação em todos os domínios da sociedade. O empoderamento das mulheres está no âmago da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. O progresso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável equivale verdadeiramente ao progresso de todas as mulheres, em todo o mundo.
É inegável que em Portugal os Governos socialistas têm assumido a linha da frente também nesta matéria, procurando ao longo dos anos fomentar uma participação mais equilibrada e igualitária na vida pública, através de diversas iniciativas legislativas e medidas governativas. Todavia a igualdade “por decreto” ainda está enfermada e, por isso, importa lembrar que, em primeiro lugar, esta é uma questão de princípio democrático.
Defendo, por exemplo, de forma veemente um modelo de organização em que o acesso aos lugares de topo na administração pública, privada e nas empresas cotadas, se sustente no mérito e no tratamento absolutamente igualitário entre Mulheres e Homens o que, claramente, ainda não acontece. Pugno para que, em todas as esferas, a excelência paute e regule as escolhas. Esta é uma questão primordial para a credibilização da democracia, dos partidos, e para o progresso das instituições e do País.

O que acha que pode ser feito para mudar as mentalidades relativamente a este tema?
Para além de medidas legislativas, fundamentais para acelerar o processo de mudança de mentalidades, importa referir que cada um de nós é um agente de mudança. As ações que praticamos nos diferentes contextos de vida devem consubstanciar-se em princípios e valores igualitários e justos. Até porque, desde muito cedo, as crianças tendem a reproduzir modelos sociais. E por isso mesmo a família assume um papel crucial na promoção da igualdade de género. A defesa da justiça social e dos direitos humanos pelo exemplo familiar constitui, na minha perspetiva, o primeiro passo para a promoção da igualdade e o combate à discriminação. Derrubar estereótipos e preconceitos de género fortemente arreigados, ao longo da história, na sociedade portuguesa, é condição estruturante para a afirmação de valores de cidadania e igualdade. Cresci a ouvir minha mãe “decretar”: “Poderás sempre ir para onde o teu irmão for; ou ele para onde fores tu!”. As regras, a partilha de tarefas e as expectativas foram sempre igualitárias. A vivência familiar inspirou-me e, talvez por isso, a minha filha, com 16 anos, se assuma orgulhosamente feminista. Porque entende claramente que o feminismo diz respeito à defesa de direitos, de igualdade e liberdades fundamentais, muitas delas alcançadas com o 25 de Abril de 1974, data que mais lhe apraz celebrar.
Por outro lado, é também através da educação, da Escola, que se transforma a sociedade. E para isso importa que a escola pública priorize verdadeiramente na sua estratégia e ação, no seu sistema, a educação para a cidadania, centrando-se mais nos processos de desenvolvimento global das pessoas e no combate a preconceitos e estereótipos de género, do que nos produtos avaliativos das aprendizagens. Importa que consigamos afirmar uma cultura de direitos iguais no respeito pelas diferenças individuais, extensível aos diversos níveis de ensino, planos curriculares e disciplinares. Mas confesso que em dias mais controversos ainda me vem à memória uma frase escrita no Século XVIII: “Os homens têm vantagem sobre nós porque são eles que contam a história. A sua educação foi muito mais completa; eles empunhavam a caneta.” (Jane Austen). Derrubar definitivamente esta aceção, em todos os contextos e circunstâncias, é inequivocamente uma responsabilidade de todos e todas para que possamos construir uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais sustentável e plenamente democrática.

Como tem sido conciliar a vida pessoal com a vida profissional?
Por natureza sou uma pessoa resiliente e de bem com a vida, por isso conciliar um trabalho exigente, mas que muito aprecio, com o cuidado com os que mais amo, acaba por ser uma dádiva e uma forma de criatividade. Somos uma família com laços afetivos muito fortes e inabaláveis. Partilhamos de modo plural pontos de vista e perspetivas. Vivemos os problemas e o sucesso de cada um de forma intensa e solidária. Protegemo-nos e respeitamos as diferenças individuais. Sempre foi assim! Ainda que os tempos sejam exigentes e que a assunção de responsabilidade mude ao longo do ciclo de vida, o mais importante é estarmos juntos. O resto é acessório e perfeitamente conciliável.

Maura Teixeira

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