Carlos Pinto, de forma frontal e sem tabus, lança o arranque de uma temporada atípica para o Desportivo de Chaves na Liga 2, em plena pandemia. Desde o arranque difícil de pré-temporada, até aos nove jogos de preparação sem perder, o técnico de 47 anos garante uma equipa à sua imagem e dos ‘valentes transmontanos’. A opção pelo regresso a Chaves, quando está prestes a terminar o quarto nível de treinador e a antevisão de um campeonato difícil sem público numa fase inicial são também temas na entrevista À Voz de Chaves.

A Voz de Chaves: Pré-época terminada, como correu e como está a equipa?
Carlos Pinto: Nós já sabíamos que a partir do momento que os jogadores estiveram tanto tempo em casa era fundamental numa primeira fase atacar o mercado para construir um plantel forte à imagem do clube, era claramente a primeira preocupação, depois a parte mental, depois de cá chegarem, era muito importante, e era outra das nossas preocupações, perceber como é que os jogadores estavam após a quarentena. A partir daí começar a trabalhar numa ideia de jogo, no nosso processo. Obviamente que para mim ficou mais facilitado trabalhar com jogadores que já me conhecem e trabalhamos também nesse sentido pois passam essa ideia para os colegas e trabalhar é muito mais fácil.

Não foi uma pré-época fácil…
É verdade que durante a pré-época tivemos um pequeno percalço, com a situação do Carlos David [positivo à covid-19]que prejudicou e obrigou a 14 jogadores a estarem em casa. Tivemos a situação de alguns jogadores com lesões, mas obviamente que o meu foco e o foco dos meus jogadores foi de trabalhar forte e não entrar no caminho da desculpa. A partir do momento que temos 11 jogadores já dá para entrar em campo. A pré-época foi muito produtiva, tivemos nove jogos, sete vitórias e dois empates. Obviamente que temos zero pontos como todos os adversários e trabalhando sobre ideias e sobre vitórias claro que motiva. No processo de treinos tivemos que alterar algumas coisas, pois não tínhamos sempre toda a gente e quando regressaram os jogadores confinados tivemos que gerir certas situações.

Foi uma pré-época de vitórias, isso deixa os jogadores a quererem começar a competir?
Claro que eles estão desejosos de começar a competição, é onde se sentem mais confortáveis. A pré-época foi positiva em termos de ideias de jogo que queríamos trabalhar e sistemas de jogo, pois queremos jogar em 4x4x2 e 4x2x3x1. Os jogadores assimilaram com alguma facilidade mas agora a competição é que vai ditar o que é mais importante, que são os pontos e os resultados, para fazermos um bom campeonato.

Que objetivos estabeleceram?
É normal as pessoas colocarem o Chaves, mesmo os de fora, como candidato à subida, vamos respeitar essa situação, mas o mais importante foi o que definimos desde o primeiro dia e o que passo aos meus jogadores é que passei quatro anos como jogador e um ano como treinador e a imagem que temos de deixar é o lema do clube, os ‘valentes transmontanos’ e temos de deixar tudo em campo. Se pudermos juntar a isso qualidade de jogo, que é o que gosto nas minhas equipas, ficaria feliz. O mais importante é terminar a época naquilo que é o normal, e o normal no Chaves é lutar até à exaustão em todos os jogos, respeitar uma casa, um símbolo, que é a verdadeira estrela e perceberem aquilo que sinto. Sempre disse sem problemas de assumir, o Chaves após todos os anos aqui é um clube que não gostei de início mas vou gostar até ao final da minha vida, e o prazer que tenho em dar tudo em prol do clube é o que tento transmitir aos jogadores.

É um plantel de prioridades, está satisfeito com o plantel, quer os reforços quer os que já cá estavam?
A primeira preocupação foi claramente ter jogadores de qualidade, quando atacamos o mercado. Depois a componente humana, acho que tem de estar sempre presente, é fundamental essa relação humana, que deve ser muito boa desde o técnico de equipamentos até ao presidente, com exigência, para estar mais perto do sucesso. Depois da qualidade e dimensão humana, era jogadores que conhecessem esta divisão, este clube e com títulos e subidas de divisão, para passarem aos colegas. A vantagem que temos neste momento é que os jogadores têm noção que estão a representar um grande clube, que é o Chaves e que tem todas as condições de trabalho para poder ganhar todos os jogos que entre.

É um clube diferente em termos de infraestruturas…
Mesmo quando cheguei para treinar em relação a quando jogava já era diferente, mas para a realidade atual é diferente também. Hoje é diferente, temos um campo de treinos relvado para treinar, um campo principal, um ginásio, temos Vila Pouca de Aguiar se os relvados não estiverem disponíveis. Resumindo, temos todas as condições para trabalhar aqui.

O Desportivo tem claramente espaço numa primeira liga?
Claro que tem. Mas isso neste momento não é importante. Olhamos para o campeonato português e vemos que o clube tem lugar na I Liga, mas está na segunda, e isso significa que alguma coisa não correu bem e as coisas não foram bem feitas. O clube tem que trabalhar rapidamente nesse sentido, para voltar, e acredito que a qualquer momento possa voltar, porque dadas as condições que tem, na estrutura… há sempre coisas a melhorar mas as pessoas trabalham para isso, no sentido de melhorar o clube de estar sempre mais preparado para as exigências. Hoje o Chaves mesmo na relação humana está diferente, as pessoas estão mais disponíveis para trabalhar no clube, estão com sede de voltar a colocar o clube no lugar que merece e claro que o nosso trabalho fica mais facilitado assim. O conhecimento que tenho no sr. Francisco, com o Chico Zé, com o Óscar, que são pessoas que já conheço e tenho relação torna mais fácil o trabalho.

É mais um regresso a Chaves, continua a não hesitar perante convite do Chaves?
Não e explico porque. Uma das razões é que ainda estou a tirar o quarto nível de treinador e estabeleci que enquanto não o tivesse não trabalhava na I Liga. Por isso é que não fiquei no Famalicão e no Santa Clara. Se tudo correr dentro da normalidade dentro de pouco tempo tenho o quarto nível que me dá acesso à I Liga e fora do país. O Chaves é claramente um clube grande e a partir do momento em que a proposta me foi apresentada, foi muito rápido, as pessoas atacaram com força também. O Chaves é um clube que me diz muito, claro que tenho ainda a sensação do que aconteceu no ano em que não subimos [época 2014/2015] e poder trabalhar para seja numa época ou em duas colocar o Chaves na I Liga é um desafio. Depois a relação com as pessoas, sinto-me bem aqui, mesmo em relação aos meus filhos, tenho alguma estabilidade, pois tenho pessoas na cidade que me ajudam nesse sentido e trouxe a família para cima. Quando te sentes bem e és bem tratado num clube que colocas sempre essa possibilidade.

Ter cá a família é importante, é uma forma diferente de viver a cidade…
A família está cá porque a minha filha vai estar cá na escola, tenho o meu bebé que já anda no infantário, e obviamente estar aqui é diferente do que ir duas ou três vezes por semana a casa. É diferente estar cá e ter a família e os filhos em casa. É completamente diferente. Digo aos jogadores que se puderem tragam as famílias para cá, muda tudo, é uma cidade diferente, até pelo clima, com muito calor e muito frio. Os jogadores quase todos fizeram isso o que é bom.

Nos últimos anos, sem voltar à I Liga tem colecionado bons resultados e subidas na II Liga, pode tornar-se no novo ‘rei das subidas’, um especialista?

Não considero isso… acho que o verdadeiro especialista já passou aqui, é claramente o mestre, como o trato pois é uma pessoa que gosto muito. Infelizmente acabou a carreira e não teve a sua devida homenagem, mesmo na associação de treinadores de futebol e no futebol português. Estamos a falar de uma pessoa que deu muito ao futebol e depois tem uma característica que gosto muito e aprecio, e que na sociedade está banida, que é a frontalidade, é uma pessoa muito frontal, diz o que pensa e hoje as pessoas para ter um lugar de destaque trabalham mais com hipocrisia e o Vítor nesse aspeto destaca-se dos demais. O Carlos Pinto é o prazer do treino, do jogo. A minha vida praticamente foi dedicada ao futebol e obviamente que quando passei para treinar, muitos colocam a fasquia de atingir o top e os meus objetivos sempre foram claros, trabalhar para a estabilidade aos meus filhos.

É uma opção interessante de não fazer como outros treinadores…
Foi mesmo opção, tive convites mas não fui. Lembro-me no Santa Clara que foi massacrado e estava já a tirar o terceiro nível. Hoje temos treinadores com primeiro e segundo nível a faze-lo. Mas isso é opção deles e vou sempre respeitar. Há uma coisa que mudou também no Carlos Pinto, está mais calmo mais tranquilo, uma pessoa mais soft, como costumo dizer. Não abdico da integridade, lealdade e caracter, isso nunca vou abdicar, mas estou mais flexível no que tem de ser, mais paciente, hoje já não reajo como fazia. A vida vai-nos ensinando isso e os próprios filhos acabam por interferir também. Às vezes lembro-se de situações como treinador ou jogador e sinto alguma vergonha mas também fico satisfeito pois era o Carlos Pinto da altura, pura, honesto e genuíno. Hoje vivo esta tranquilidade, vivo uma estabilidade este momento.

Segunda Liga, um campeonato sempre difícil, como se pode antever?
É muito difícil de antever, até porque não sabemos se irá voltar a parar o campeonato. Mesmo em relação aos adeptos é difícil… obviamente que queremos os adeptos nos estádios, jogadores, treinadores… porque a festa do futebol é com os adeptos, mas sou muito a favor da saúde. Fala-se que na tourada e nos espetáculos já há público, mas prefiro valorizar o lado contrário. Não há nada que pague a saúde, muitas vezes as pessoas preocupam-se em ver o jogo de futebol, mas o mais importante para todos enquanto o problema cá estiver é ter tranquilidade para poder trabalhar. Custa ver um estádio sem adeptos, mas prefiro colocar a saúde à frente de tudo o resto. Temos que caminhar em tudo o resto pelo caminho de superação mas na saúde já não há.

Vai fazer falta o público à equipa?
Lembro-me dos tempos de jogador e era tudo diferente. Lembro-me no ano em que subimos com o mister Leonardo [Jardim], era um espírito diferente, de muita proximidade. Mas temos de perceber que os adeptos merecem sempre o nosso respeito, e é uma das preocupações que tento transmitir aos jogadores, pois é fundamental. O adepto quer resultado e temos de ser pacientes com eles. Por isso é que houve a preocupação de ter jogador com personalidade, preparados para adeptos exigentes. Em Chaves é fácil por um lado e difícil pelo outro, pois o adepto do Chaves é aquilo que costumo ver com normalidade, há uma paixão incrível pelo clube, sentem o clube e nem sempre há equilíbrio e temos de saber que isso faz parte do futebol. Queremos ganhar para eles estarem tranquilos.

Terá da haver a habituação de passar a ter público a meio da época…
Costumo dizer que mesmo em competição estaremos a fazer jogos de conjunto, sem adeptos, mas acho que não interfere. Claro que queremos adeptos no estádio, mas com a situação da pandemia e com a segunda vaga temos de gerir a questão da saúde. Temos de perceber que já faleceram muitas pessoas e continuamos com problemas graves.

Diogo Caldas

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