Na segunda-feira, dia 4 de novembro, decorreu a reabertura do Hospital da Misericórdia de Valpaços, apenas com alguns serviços, estando para breve a abertura das restantes valências. Altamiro Claro, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços, em entrevista ao jornal A Voz de Chaves, aborda um pouco da história do Hospital e da importância da sua reabertura para o concelho valpacense, bem como para a região.

Jornal A Voz de Chaves: Na segunda-feira, dia 4 de novembro, decorreu a reabertura do Hospital da Misericórdia de Valpaços. Qual é a história deste Hospital?
Altamiro Claro: A Misericórdia de Valpaços foi constituída, para dar corpo ao seu Hospital, no dia 27 de novembro de 1946, há aproximadamente 73 anos, e até ao 25 de Abril de 1974 constituiu praticamente a sua única valência.
Até ao 25 de Abril o hospital era a única resposta no concelho na área da Saúde. Entretanto foi nacionalizado, fechado posteriormente e reabriu através de uma parceria com um grupo da Galiza, a Cosaga, constituindo-se para o efeito a Lusipaços.
Em janeiro de 2011 voltaria a fechar, dando origem a fortes contestações e a um contencioso judicial que só terminou há poucos meses com a decisão do Supremo Tribunal Administrativo. Todo este processo teve custos significativos para a Misericórdia, entre devolução de valores recebidos e indemnizações aos trabalhadores então despedidos.
Na sua perspetiva, o que terá levado ao encerramento do Hospital em 2011?
Apesar de não me encontrar à época na Misericórdia, mas fazendo hoje uma análise fria à distância, entendo que o Hospital fechou essencialmente para serem criadas as condições de sucesso de um hospital privado que se previa abrir na região, tal como viria a acontecer. Claro que as instalações não reuniam as condições previstas na legislação vigente e esse foi o grande argumento das entidades oficiais. No entanto a sociedade valpacense não foi capaz de se unir à volta do seu Hospital e da Misericórdia.
Entendo que foi construída uma teia onde infelizmente as forças vivas e a população do concelho se deixaram enredar. A Cosaga apenas esteve interessada em obter dividendos, juntamente com alguns interesses de pessoas, que a seu tempo abandonaram o “barco”.
Quem perdeu foi o concelho, a região e essencialmente a Misericórdia que se viu a braços com uma situação que lhe provocou custos financeiros elevados que temos vindo a resolver.
Como nasce a ideia de voltar a abrir o Hospital?
Desde a primeira hora em que assumi funções como Provedor, em janeiro de 2012, defini como grande objetivo reabrir o nosso Hospital, pois desde muito jovem se enraizou em mim a importância que ele tinha para Valpaços e para a região.
Foram encetadas várias tentativas de reabertura que esbarraram sempre na falta de condições e na inadequação das instalações às normas legais em vigor.
Quando se reuniram todas as premissas para avançarem?
O ponto de partida aconteceu em 10 de dezembro de 2016, aquando da inauguração da sede social. Nesse dia foi assinado um Memorando de Entendimento entre a Misericórdia, o Município de Valpaços e a Administração Regional de Saúde do Norte, que contou com o empenhamento do então Secretário de Estado da Saúde, Dr. Manuel Delgado. Nesse memorando a Misericórdia e o Município comprometeram-se a suportar em partes iguais o investimento nas obras de Recuperação e Ampliação do Hospital e dos equipamentos, e a ARS Norte a proporcionar os acordos de cooperação, indispensáveis ao seu funcionamento. Foi mandado elaborar o projeto, realizaram-se as obras, adquiriram-se os equipamentos e esta semana iniciámos o processo de reabertura.
Olhando para trás, constato que foi um caminho longo, difícil, mas que contou com a determinação dos Órgãos Sociais da Misericórdia, especialmente da Mesa Administrativa e o apoio importante da Câmara Municipal e especialmente do seu Presidente, o Dr. Amílcar Almeida, que compreendeu a importância estratégica para o concelho da reabertura do Hospital.

Qual é, na sua perspetiva, essa importância?
Pois bem, o Hospital da Misericórdia de Valpaços tem atrás de si uma longa história de serviço público prestado na área da saúde, tem uma localização estratégica privilegiada, porque está no centro geográfico de Trás-os-Montes e é o único hospital do setor social no interior norte. Estou plenamente convicto que irá contribuir para a dinamização da economia local e para a fixação de quadros qualificados, dando um exemplo concreto de como se dão passos importantes no combate à desertificação.
Veja-se que a Misericórdia de Valpaços emprega hoje 270 trabalhadores e dentro em breve serão mais de 320.
Hospital ainda não abriu todas as valências. O que ainda falta para a sua conclusão e quais as principais valências?
De facto está praticamente concluído, foi um investimento superior a 4 milhões de euros, integralmente suportado em partes iguais, pela Misericórdia e pelo Município, que precisa de obter todas as certificações legais e os respetivos licenciamentos.
Dispõe de uma Unidade de Cuidados Continuados de Média Duração e Reabilitação, já com acordos com os Ministérios da Saúde e da Solidariedade Social. Conta com uma Unidade de Medicina Física e de Reabilitação e acordos com o Serviço Nacional de Saúde e outras Convenções. Vai também colocar ao serviço das pessoas todas as valências indispensáveis a um hospital moderno: Consulta Externa, Internamento, Bloco Operatório, Imagiologia, Análises Clínicas e Serviço de Apoio Permanente (SAP).
Queremos que todo o processo de abertura decorra de uma forma faseada e com sustentabilidade. Esta semana já abrimos a Unidade de Medicina Física e de Reabilitação e as Análises Clínicas e esperamos brevemente iniciar as Consultas de Especialidade. É pois um processo evolutivo, muito dependente dos licenciamentos.
Não se tratando de um hospital público, mas sim um hospital duma IPSS, neste caso da Misericórdia de Valpaços, que apoios pensa ter das entidades públicas?
Como já disse foi oportunamente assinado um Memorando de Entendimento, em que a ARS Norte se compromete, desde logo, a levantar a suspensão do acordo de Radiologia e a integrar o Hospital de Valpaços na dotação global que existe com o Grupo Misericórdias Saúde.
Esta semana tivemos a honra de receber o Conselho de Gestão do Grupo Misericórdias Saúde, presidido pelo Dr. Manuel de Lemos, bem como o Conselho Diretivo da ARS Norte, presidido pelo Dr. Carlos Nunes, com quem estabeleceremos as bases da cooperação futura.
A par desta cooperação temos já acordos em vigor para a Fisioterapia e a Unidade de Cuidados Continuados, assim como Convenções com várias entidades publicas e privadas, designadamente, IASFA, SAD/PSP, SAD/GNR, MÉDIS/CTT, CGD, TRUST, MULTICARE, REDE HUMANAS, RNA.
Na sequência do acordo assinado entre o Grupo Misericórdias Saúde e a ADSE, no início do presente ano iremos apresentar o processo que permitirá obter os acordos com a ADSE.
Não sendo um hospital do setor público quais são as áreas médicas com uma maior aposta?
Entendo que o setor social deve ser complementar ao Serviço Nacional de Saúde e por isso a nossa maior incidência será nas especialidades médicas com respostas mais demoradas nos hospitais públicos da região. Privilegiaremos as áreas da oftalmologia, ortopedia e urologia. No entanto estamos abertos a trabalhar em articulação com os Conselhos de Administração do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro e da Unidade Local de Saúde do Nordeste, no sentido de se buscarem as melhores soluções que vão ao encontro das necessidades das pessoas.
Um hospital precisa de quadros médicos qualificados. Qual o ponto de situação?
O corpo clínico encontra-se praticamente constituído e conta com profissionais competentes nas várias especialidades médicas. No entanto não é um processo fechado, pois estaremos sempre disponíveis a receber a colaboração de profissionais que se enquadrem no espírito e na missão desta unidade hospitalar do setor social.

Tem alguma mensagem final que gostaria de deixar?
Quero que os Valpacenses compreendam que a abertura de um hospital, com uma dimensão regional e com todas as valências, é um processo de alguma complexidade e de um grande esforço financeiro, que implica que sejam dados passos seguros, tendo em vista a sua sustentabilidade no futuro e que só foi possível levar a “bom porto” graças a uma parceria virtuosa entre a Misericórdia, o Município de Valpaços, o Ministério da Saúde e a União das Misericórdias, e o empenhamento dos dirigentes destas entidades.
Com a sua inauguração será escrita mais uma página dourada na história deste concelho e desta cidade onde me orgulho de ter nascido.

Paulo Chaves

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