Com data prevista de abertura no primeiro semestre do próximo ano, o Hospital de Valpaços renasce através de uma parceria entre a Santa Casa da Misericórdia e a Câmara Municipal de Valpaços. Em entrevista ao jornal A Voz de Chaves, concedida no passado dia 18 de setembro, Altamiro Claro, provedor da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços, contou como será feita a gestão do novo Hospital, quais as valências e serviços que este equipamento irá comportar e revelou alguns dos projetos que ambiciona ver realizados num futuro próximo.

Jornal A Voz de Chaves: Quais as respostas sociais que a Santa Casa da Misericórdia de Valpaços proporciona no concelho valpacense?
Altamiro Claro: Na área social temos dez estruturas residenciais para idosos espalhadas pelo concelho, quatro das quais aqui na cidade e uma na Quinta Nª Sª do Carmo, que também pertence aqui à freguesia de Valpaços. Dispomos de quatro serviços de apoio domiciliário: Lebução, Carrazedo, Friões e Valpaços e quatro centros de dia também localizados nas mesmas localidades. Temos também em funcionamento o programa das cantinas sociais, através do qual fornecemos uma refeição grátis por dia a um conjunto de utentes que estão devidamente referenciados por nós e também pelas estruturas da Segurança Social e até pela Câmara Municipal.

No setor da educação dispomos de Creche e Jardim de Infância com um total de 135 crianças, onde tudo fazemos por prestar uma ação educativa de qualidade, o que leva as famílias a optarem pela nossa escola, apesar de em Valpaços existir um Centro Escolar com o ensino pré-primário. Desde logo não é fácil competir com o público, pois as contribuições da Segurança Social e das famílias são muitas vezes insuficientes para suportar os custos de funcionamento.

Dispomos ainda de um setor agrícola, através do aproveitamento das nossas propriedades, onde produzimos vinhos de grande qualidade. Neste momento temos no mercado um vinho Grande Reserva Tinto, denominado Valpaço-Lo-Velho, premiado este ano em dois concursos, um a nível nacional e o outro a nível de Trás-os-Montes, com duas medalhas de ouro. Produzimos igualmente vinho branco de qualidade, também Valpaço-Lo-Velho, que foi premiado com uma medalha de prata. Produzimos azeite na nossa quinta agrícola de Valverde bem como outros produtos que aproveitamos para incorporar nos serviços de alimentação da Misericórdia. Tudo isto é um complemento em termos económicos à nossa atividade principal, bem definida nos estatutos, a atividade social.

Respondemos hoje às necessidades sociais de mais de 800 utentes espalhados pelas várias valências. É para nós uma enorme honra que uma Misericórdia com pouco mais de 70 anos de existência esteja no grupo das maiores IPSSs do país da área social e seja uma instituição de referência.

Quantos colaboradores tem a Santa Casa da Misericórdia de Valpaços?
A Santa Casa da Misericórdia de Valpaços tem um papel fundamental na empregabilidade do concelho. E podemos dizer também que colabora de forma determinante para evitar a desertificação. Neste momento temos 246 colaboradores. Temos só aqueles que precisamos, porque somos uma instituição privada e temos de tudo fazer para que esta seja uma casa equilibrada em termos económicos, e é de facto uma casa equilibrada, que cumpre atempadamente os seus compromissos. No futuro, já no próximo ano, vamos aumentar significativamente esse número de colaboradores com a abertura do Hospital, que neste momento estamos a requalificar.

Qual é o ponto de situação das obras do Hospital de Valpaços?
A Misericórdia de Valpaços nasceu à volta do seu Hospital há, aproximadamente, 72 anos. Até ao 25 de Abril só tinha praticamente uma valência, que era o Hospital. As populações quer da cidade, quer do concelho estiveram sempre muito ligadas ao seu Hospital e ele é emblemático também para toda esta região. Quando assumi as funções de Provedor em 2012, o Hospital estava encerrado devido a todos aqueles problemas que existiram na altura e que toda a gente conhece. Desde essa altura que nos temos empenhado para que se possa proceder à sua reabertura. Não tem sido fácil. Entendemos que devíamos fazer tudo para que tal acontecesse. E então em dezembro de 2016, quando foi inaugurada a nova sede social da Misericórdia de Valpaços, assinámos um protocolo entre o Ministério da Saúde, a Câmara Municipal e a Misericórdia para procedermos a todas as iniciativas tendo em vista a reabertura do Hospital. Desde logo com o Ministério da Saúde porque precisamos dos acordos de cooperação com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para podermos, de facto, funcionar. Com a Câmara Municipal porque precisamos dela para nos ajudar no investimento. A partir daí desenvolvemos todo o processo. Executámos o projeto de reconstrução e ampliação do Hospital, lançámos o concurso público e a obra está a desenvolver-se já há praticamente um ano.

Estamos a investir cerca de três milhões de euros, investimento esse suportado integralmente, em partes iguais, pela Misericórdia e pela Câmara Municipal de Valpaços. Não temos apoio financeiro de qualquer outra entidade. Do Estado o que nos interessa é o apoio após a abertura do Hospital, designadamente através de acordos de cooperação com o Serviço Nacional de Saúde. Alguns desses acordos na área de imagiologia estão apenas suspensos. Pertencemos ao Grupo Misericórdias Saúde e o acordo deste com o Ministério da Saúde vai ser renegociado no próximo ano. Integramos esse grupo que vai negociar com o Estado as áreas nas quais podemos ter eficiência e poderemos responder àquilo que o Ministério da Saúde pretende.

As obras estão a decorrer normalmente. É um investimento significativo, muito grande, é um esforço enorme. Tem um ligeiro atraso, mas é normal em obras desta dimensão. O Hospital desenvolve-se por dois setores distintos. No antigo hospital haverá uma Unidade de Cuidados Continuados com 22 camas de média duração e reabilitação, a Unidade de Medicina Física e Reabilitação e o setor das Consultas Externas. Na parte nova vamos dispor de um Serviço de Apoio Permanente, vulgarmente conhecido por SAP, que é, no fundo, a urgência e que irá funcionar de acordo com as necessidades do concelho e da região. Teremos também todos os meios complementares de diagnóstico com exceção da ressonância magnética porque é um investimento de 1,5 milhões e que nesta fase não se justifica. Vamos ter área de internamento e um bloco operatório, preparado para qualquer espécie de intervenção cirúrgica. Vamos também investir em equipamentos, portanto, este valor de três milhões irá subir para muito próximo dos quatro milhões de euros.

Iremos dispor de uma unidade hospitalar funcional, moderna e equilibrada, que vai dar resposta não só à população do concelho, mas também à população de toda a região. Para todos os efeitos somos um hospital privado, mas temos a vantagem de poder ter acordos com o Serviço Nacional de Saúde através dos protocolos estabelecidas entre o Grupo Misericórdias Saúde e o Ministério da Saúde. Temos já acordos com alguns setores importantes, desde logo a GNR, a PSP, os militares, os CTT. Esses acordos já vinham do antigo Hospital. Vamos também tentar estabelecer acordos com a ADSE.

Portanto, nós poderemos aqui ser uma unidade importante para toda a região do Alto Tâmega e do Nordeste Transmontano. Seremos o único hospital de Misericórdia do interior Norte do país e isso é importante uma vez que as Misericórdias são IPSS que têm a possibilidade de estabelecer acordos com o SNS. E a abertura do Hospital irá também permitir que nós tenhamos aqui mais quadros qualificados, como enfermeiros, médicos, outros especialistas, não só na parte hospitalar, mas também na Unidade de Cuidados Continuados.

A gestão do Hospital será feita pela Misericórdia de Valpaços?
Sim. O Hospital é da Misericórdia, portanto, a gestão será feita pela Misericórdia. Para nós funcionará como mais um equipamento. Já temos dez, e este é mais um que terá um diretor, como tem qualquer um dos nossos equipamentos sociais, que responderá perante a Mesa Administrativa. Vamos optar por uma solução funcional, prática, sem grandes custos. Queremos que o nosso Hospital se vá consolidando pouco a pouco, com extremo cuidado, porque não pode provocar problemas de caráter económico. A Misericórdia tem uma situação financeira boa, equilibrada, e não pode ser o Hospital a desequilibrar a nossa situação.

Existe uma estimativa de quantas pessoas irão trabalhar no Hospital?
Não temos ainda um número exato de pessoas, mas poderá andar à volta de 50 pessoas. Isso depois também dependerá dos setores. Haverá setores nos quais não precisaremos de ter pessoas a tempo inteiro. Há serviços que poderão ser contratualizados, designadamente análises clínicas e eventualmente até a própria gestão da área da imagiologia. Tudo isso está a ser equacionado e, portanto, só em função dessas decisões é que nós poderemos ter uma noção exata de quantas pessoas vamos necessitar.

De qualquer maneira, na parte inicial necessitaremos de menos pessoal. Queremos que este seja um processo evolutivo e de consolidação. Conforme o Hospital for ganhando dimensão, irá aumentando também o número de pessoas em funções. Será um Hospital que responderá a todas as normas definidas pela legislação do setor da saúde. Esse era um dos problemas antigos que nos punham entraves à abertura do Hospital. Antigamente as instalações não correspondiam às normas técnicas, por isso tivemos de fazer obras de fundo que significaram uma remodelação total. Por isso eu digo que vamos ter um serviço de qualidade, que não é concorrente do setor público. As pessoas poderão pensar que agora vamos fazer concorrência ao Hospital de Chaves, ou ao Hospital de Vila Real. Não é isso. Nós vamos ser complementares, iremos fazer aquilo que o público não pode fazer, iremos ajudar nos setores nos quais o público não tem capacidade de responder atempadamente.

Vão ser desenvolvidas algumas especialidades em concreto?
Iremos ter consultas de especialidade das várias áreas médicas. Em Valpaços havia duas áreas nas quais havia uma maior aposta, designadamente a oftalmologia e a ortopedia. São dois setores nos quais queremos continuar a apostar, mas queremos ter uma ação diversificada. Teremos só um bloco operatório, mas será um bloco que responderá com todas as condições para que aqui se possam realizar cirurgias de várias áreas médicas. Nós depois também temos de ir procurando o nosso próprio caminho. De qualquer maneira poderão realizar-se cirurgias de âmbito completamente privado, com a deslocação de equipas médicas que queiram aqui fazer cirurgias, através do aluguer das instalações. E depois haverá as cirurgias que nós próprios poderemos desenvolver de acordo com os contratos que iremos estabelecendo com o Ministério da Saúde. Ainda este ano os Hospitais das Misericórdias estabeleceram um protocolo com o Ministério da Saúde para dar resposta às listas de espera da área das cirurgias. É para esse trabalho que estamos disponíveis, ser complementares ao Serviço Nacional de Saúde, e não competir com ele.

O facto de estar ligado à Misericórdia é uma mais-valia para o Hospital de Valpaços?
É evidente, porque se nós não fôssemos um Hospital da Misericórdia seríamos um hospital completamente privado. Além disso fazemos parte de uma grande estrutura, o Grupo Misericórdias Saúde, um grupo que tem muita experiência, engloba todos os hospitais das Misericórdias, todos os seus representantes, e, portanto com uma experiência muito grande. Tem uma capacidade negocial também muito importante porque tudo é negociado em conjunto. Recentemente foram negociados alguns valores dos atos médicos e cirúrgicos com a ADSE, permitindo reduzir esses valores. As Misericórdias não procuram o lucro, procuram servir as pessoas. Claro que têm de gerar alguns resultados, pois é necessário pagar os investimentos.

Há pouco referiu que os custos do Hospital de Valpaços são divididos pela metade entre a Misericórdia e a Câmara Municipal. Como vê esta relação de proximidade entre estas duas instituições?
Esta parceria estabelecida entre a Câmara Municipal de Valpaços e a Santa Casa da Misericórdia tem sido exemplar. Eu tenho de reconhecer que a autarquia e o senhor presidente da Câmara compreenderam perfeitamente a importância que tem para o concelho e para a região a abertura do Hospital e que o investimento, feito nesta área é um investimento que serve as pessoas, que vai ao encontro das suas necessidades. Quero por isso aproveitar esta oportunidade para agradecer o empenhamento da Câmara Municipal e do seu Presidente neste processo. Ninguém se vai arrepender.

Existe mais algum projeto relacionado com a Santa Casa da Misericórdia de Valpaços que deseje ver realizado num futuro próximo?
Sou Provedor há quase sete anos e desde então já realizámos várias obras, Nova Sede Social (Provedoria, Serviços Administrativos, Biblioteca e Auditório), Lar Maria Ribeiro & Ricardo Mourão, Ampliação do Lar de Lebução. Inaugurámos já este ano o Lar de Nossa Senhora do Carmo, na nossa Quinta Agrícola, onde investimos por nossa conta e risco, um valor significativo para criar ali uma estrutura residencial para idosos que recebe 25 utentes. Temos feito um grande esforço de requalificação de todos os nossos equipamentos sociais e posso dizer que nos últimos sete anos aumentámos aproximadamente em mais de 60% o número de utentes nas várias respostas sociais.

Estamos também a apostar no serviço de apoio domiciliário porque entendemos que este é um serviço de futuro, com novos apoios de enfermagem, transporte das pessoas às consultas médicas, acompanhamento na medicação e que está a ter muito acolhimento por parte dos nossos utentes.

Brevemente iremos lançar o concurso público para a requalificação do nosso equipamento mais antigo, o Lar de São José, mesmo ao lado do Hospital. É um investimento que irá desenvolver-se em duas fases. Terá um investimento inicial de 600 mil euros. Só quando a primeira fase estiver concluída estaremos em condições de avançar para a segunda, pois as obras terão de conviver com os 75 utentes que ali se encontram.
Estamos a desenvolver ao longo do presente ano um programa de implementação de procedimentos que culminarão com a certificação de qualidade dos nossos equipamentos pelas estâncias europeias.
Portanto, hoje a Misericórdia de Valpaços é uma instituição moderna, funcional, com uma gestão rigorosa e eficiente.

Orgulhamo-nos de sermos considerados uma instituição de referência, não só a nível regional, mas também a nível nacional. É uma Misericórdia já anteriormente gerida com equilíbrio, mas que ao longo dos últimos anos deu um grande salto quantitativo e qualitativo. Tem sido um trabalho motivador e reconfortante, este, de servir as populações mais fragilizadas e carenciadas do concelho e da região.

Maura Teixeira

loading...
Share.

Deixe Comentário