Com 67 anos, José António Correia Pires passou 15 no teatro. No início da década de 80, fundou o Teatro Experimental Flaviense e, mais tarde, a Companhia de Teatro do Alto Tâmega com o irmão, que era encenador. Foram os anos de glória do teatro em Chaves, que recorda com saudade. É também poeta e tem um novo livro na gaveta, mas falta-lhe dinheiro para o editar. Em tempos de crise, sabe que “ninguém compra livros” e, por isso, espera melhores dias. O poeta de Faiões também escreveu várias peças de teatro, mas só “A Alga Traiçoeira”, inspirada nas (des)venturas da pesca, subiu ao palco.

Como é que começou no teatro?

Em 1978, eu e o meu irmão Manuel Correia Pires, que era encenador, formámos por carolice o teatro “O Impossível” de Faiões. Demos-lhe esse nome porque as pessoas, adversas à cultura, achavam que era impossível fazer-se teatro em Faiões. Pedimos uma sala da escola local e começámos a ensaiar uma peça do Camilo Castelo Branco, “O Esqueleto”, que fala muito de Faiões. Actuamos em várias localidades da região, no cineteatro de Chaves e foi um sucesso. Mas houve pessoas que, com a inveja, nos apedrejaram durante um ensaio. Saímos de Faiões e fundamos o Teatro Experimental Flaviense (TEF).

Como correu?

Pedimos o ginásio da escola Dr. Júlio Martins para ensaiar. Tínhamos vários actores de Chaves, como a Fátima Torres, que era muito boa actriz, com o estilo da Ivone Silva. No início dos anos 80, realizámos várias peças como “Maria Não Sejas Francesa” do José Coutinhas e o “Saco de Nozes” de um escritor de Vila Real, o António Pires Cabral. Também fizemos peças para crianças. Fazia-se muito teatro na altura. Corremos as localidades todas da região.

Havia muito público?

Havia! Casa cheia! Chegamos a ter 600 pessoas no Cineteatro de Chaves! Mas queríamos ter sucesso com peças mais modernas, um teatro de enigmas e o TEF não avançava, já era o Rufino Martins director. Também houve algumas intrigas e saímos para criar a Companhia de Teatro do Alto Tâmega (CTAT). Houve promessas de apoios do presidente da Câmara da altura, o Dr. Alexandre Chaves, mas como faltaram, ao fim de dois anos a companhia faliu. Havia actores mais novos que queriam ganhar algum dinheiro e as receitas de bilheteira não davam para financiar a propagação do teatro.

Qual foi a peça que encenaram com mais sucesso?

Foi “O Esqueleto”. O Camilo Castelo Branco foi um grande escritor e a peça falava de Chaves, Vila Pouca, Vidago, Faiões. Agradou tanto porque as personagens eram da zona e era muito sentimental. Havia partes em que as pessoas sentiam tanto que choravam. Depois, foi “Maria Não Sejas Francesa” porque era uma comédia engraçada. Falava de como os emigrantes portugueses se exibiam quando vinham de França.

Na altura toda a gente podia ser actor?

Sim. [Os grupos de teatro] tinham cerca de 15 actores, mas havia muita gente que tinha uma recusa pelo teatro no espírito. Gostavam de ver, mas não de fazer. Antigamente as pessoas do teatro eram mal vistas porque as pessoas da aldeia diziam que as actrizes eram umas prostitutas. Diziam coisas do diabo! Actualmente não porque a vida das pessoas é quase toda um teatro!

Como é que se combatia o falatório?

Com boas peças! As pessoas começaram a ver que não era nada como pensavam. Tínhamos duas professoras primárias! Mas não se pode comparar com Lisboa, lá as actrizes eram muito mais atrevidas do que em Chaves.

Mas também havia boémia…

Saíamos do ensaio e íamos para a discoteca Xenon, em Vila Nova de Veiga. Divertíamo-nos um bocadinho, não era só teatro! Depois das estreias, ia um copinho!

Como financiavam as peças?

O que nos safava eram as verbenas. Houve uma com uma banda espanhola só com meninas que deu 1700 contos! Compramos uma carrinha. Os cenários eram feitos pelo meu irmão e as roupas buscavam-se no baú de pessoas mais velhas.

Qual a melhor recordação em 15 anos de teatro?

A ida a Almada. Brincámos muito, passámos a viagem a contar anedotas, foi um divertimento total e fomos bem recebidos.

Como vê hoje o TEF?

Fizeram uma peça ou duas com sucesso, vieram cá encenadores de Lisboa, mas muito espaçadamente. Deviam ter uma actividade mais regular. Talvez seja porque o cinema dá mais dinheiro.

Se havia público para teatro em Chaves porque não continua?

Às vezes, as pessoas passam por mim e dizem que têm saudades porque agora vêem que o teatro está numa ‘preguicite’ constante. Tem bons actores, mas talvez não se dediquem tanto ao teatro. As pessoas também se dedicam mais às discotecas e a ver filmes na televisão.

Mas se voltasse a haver peças regulares, as pessoas iam ver?

Sim, talvez. Mas tinham que ser peças culturalmente boas, bem encenadas, com classe.

Cabe aos jovens fazer renascer o teatro das cinzas?

Os jovens têm que ter força de vontade, não andarem tanto na vida nocturna e dedicarem-se mais um bocadinho à cultura. Hoje as pessoas também querem ganhar dinheiro, não andam no teatro por carolice. A vida não se faz só de amor. Só peço ao Sr. Rufino Martins que continue e faça trabalhar mais os jovens.

A Câmara também devia apoiar mais?

Claro, mas vira-se mais para o futebol do Desportivo do que para o resto da cultura. Há pessoas muito evoluídas em Chaves, mas não são apoiadas.

Voltava a fazer teatro?

Não posso, já estou numa idade avançada. Ensaios duas ou três vezes por semana e lides do campo é muito trabalho.

“Posso andar no campo, ver um pássaro e inspirar-me”

Desde quando escreve poesia?

Desde sempre. Mas amarrotava e deitava fora. Até que uma senhora que trabalhava na biblioteca da Escola Dr. Júlio Martins, Zélia Neves, encontrou um poema meu no lixo e disse-me para aproveitar a poesia e escrever um livro. Registei as palavras dela, comecei a juntar poemas e editei um livro em 2003: “Coração ao Espelho”. Tenho outro escrito chamado “Miradouro Poético”, mas ainda não foi publicado porque as gráficas levam muito dinheiro e o pelouro da cultura da Câmara não está a ajudar nada. Para o primeiro livro, a câmara prometeu ajuda, mas viu que comecei a vender muitos livros e não deu nada.

Quanto vendeu?

Vendi cerca de 750 exemplares, na América, na Suíça, em vários pontos do país. Os amigos iam levando e vendendo. Recuperei o dinheiro que investi.

O que é que “Miradouro Poético” tem de diferente de “Coração ao Espelho”?

É diferente porque foi escrito na entrada da Escola Dr. Júlio Martins, onde estive um ano a trabalhar na portaria. Escrevia aí nas horas vagas. Não tinha que fazer, só entravam pessoas! “Miradouro Poético” fala mais da cidade de Chaves e talvez mais de desporto. Tem um poema sobre o futebolista Miklós Fehér que morreu no campo do Braga.

Espera apoio da Câmara para o editar?

Não sei, também têm falta de dinheiro! Espero melhores dias.

Escreve sobre o amor, a beleza da mulher, os valores transmontanos, a natureza. O que o inspira?

É momentâneo. Estou a fazer algo e aparece-me um tema, uma ideia visual ou espiritual e começo a fazer poesia de memória. Posso andar no campo, ver um pássaro e inspirar-me. Pode acontecer a qualquer momento, até de noite.

Como definiria os seus versos?

Isto é um estilo popular. Não consigo dizer que é uma poesia muito intelectual. Só tenho o curso comercial da Escola Industrial e Comercial de Chaves. Nasci e trabalhei no campo com o meu pai até aos 20 anos.

Porque os deitava fora?

Pensava que as pessoas não iam gostar, não acatavam a poesia.

Qual é o poema que o define melhor?

O Bocejo. Foi o primeiro que escrevi. Até o declamava no teatro ao fim das peças e as pessoas gostavam muito. É a vida nocturna de um casal, que deixava o filho em casa e ia para os bares. É o que acontecia na altura.

O que é ser poeta?

Ser poeta é ter uma alma grande, grande, talvez maior do que o mundo. Uma pessoa faz poesia só a pensar no bem da humanidade e da natureza.

Sandra Pereira

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