Carvalho de Moura

Na EN 103, as brigadas de trânsito da GNR, no desempenho do que é o seu serviço, a cada passo, fazem STOPs na descida da Corujeira para Medeiros e na recta de Penedones, concelho de Montalegre, em Serzedelo (Cerdeirinhas), de Vieira do Minho e em Rendufinho, da Póvoa de Lanhoso, além de, mais raramente, noutros locais. E, de acordo com a transgressão verificada, os agentes da autoridade aplicam as penalizações estipuladas na lei. Tudo certo, até ver. ´

Aqui há uns dias atrás, tive necessidade de aguardar pela chegada da Carreira de Braga na Estação de Montalegre. Já não é aquela que conduzia o Silva, da Venda Nova, ou o Alvarino, de Parafita, que, vinda de Braga, antes de Montalegre, parava no Barracão. E que dava espectáculo! À espera quase sempre muita gente de diversos sítios do concelho além daqueles que no Barracão faziam horas a fio ou em amena cavaqueira a ver passar as camionetas de cinco rodados ou a botar uns copos na taberna do Ti Abel, ou sei lá quê.

Outros tempos! Ora a célebre Carreira do Marinho, empresário de Braga que criou o sistema de transportes em torno da cidade dos arcebispos e de todas as localidades convergentes, quando o motorista desligava o motor, deixava todo o mundo estupefacto. Os vapores, após a descompressão, varriam o chão e esfumavam-se nos ares deixando em redor um cheiro a combustível, faziam cá um estrondo que deixavam todos os presentes presos a aquela manifestação tão estranha naquela época.

O condutor, a caminho da taberna, num assomo de vaidade, olhava para trás como que a ver a sua dama em procura do merecido repouso. Actualmente, o Barracão perdeu o estatuto de entreposto e as carreiras já não se vêem por lá como dantes e, como resultado da evolução dos tempos, também nos motores de tecnologia mais avançada mal se nota a sua descompressão após a paragem.

Mas o que eu queria dizer não era bem isto. Há dias tive necessidade de aguardar pela chagada da carreira de Braga.

E qual não é a minha surpresa ao me informar dos horários da transportadora. Duas horas e dez minutos demora a carreira de Braga até Montalegre. Duas horas e dez minutos! E sem falhas, a carreira chegou no horário previsto. Dei comigo a pensar que tal não era possível dado o número de paragens que os carros são obrigados a fazer para entrada e saída de passageiros e sobretudo pela sinalização limitadora de velocidade que me parece excessiva nas incontáveis localidades sitas ao longo do percurso da EN 103.

Intrigado procurei a alguns dos profissionais que conduzem esses carros e a resposta veio assim:

– Osr. prof., nós temos que aproveitar.

– E os sinais? Vocês respeitam os sinais?

– Sabe como é! Se não andarmos, os horários não se cumprem e o pessoal reclama logo.

Fiquei esclarecido. As carreiras só demoram duas horas e dez minutos de Braga a Montalegre, e vice-versa. porque a sinalização da EN 103 não é nem pode ser devidamente respeitada.

Então, vamos lá ver, srs agentes da autoridade, se os autocarros não respeitam os sinais de trânsito com que autoridade moral se aplicam multas aos outros condutores?

Há dias um empresário da nossa terra (Montalegre) foi multado nas Cerdeirinhas por circular a uma velocidade de 84 kms/hora em local de velocidade limitada a 50.

Confessou-me, com amargura contagiante, que corre riscos de ficar sem a carta e inibido de conduzir durante alguns meses, quando a sua vida e a de dois filhos está dependente das deslocações que diariamente é obrigado a fazer para orientar o seu parco trabalho na construção civil. O relato daquele conterrâneo arrasava a sensibilidade dos mais resistentes…

A questão do cidadão comum perante as autoridades resume-se a estes pontos:

1) Quem se desloca de Braga para Montalegre, ou vice versa, numa estrada horrível que obriga a uma condução heróica e a passar, quantas vezes, momentos de raiva e de desgaste psicológico, não deveria ter atenuantes numa ou outra ocasião em que ultrapassa os limites de velocidade estipulados?

2) Se os autocarros da REDM gastam apenas duas horas e dez minutos de Braga a Montalegre, e vice-versa, forçosamente que desrespeitam a sinalização e os seus agentes carregam no acelerador até aos 80 e mais kms, porque é que não são multados como os demais condutores?

3) Se se for a respeitar os sinais, de Braga a Montalegre, e vice versa, a demora da referida viagem num turismo ou comercial nunca será inferior a 2 horas. Sim, 2 horas para fazer 90 kms. Aonde é que se viu uma coisa destas? Talvez nas picadas das savanas de África…

Não pode ser! Às autoridades, não sendo responsáveis pelas leis de tráfego vigentes, fica-lhes bem que tomem em boa conta a estrada horrível que é a 103 e que a moral que regula os comportamentos dos homens se imponha ao direito. É só pedir o mesmo que se passa com as carreiras de passageiros da REDM. Como diria o sapateiro de Trancoso, “ou haja moralidade ou comamos todos…”

 

 

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