A Delegação de Chaves da Cruz Vermelha Portuguesa ajuda 800 pessoas carenciadas, um número que duplicou, sobretudo no meio rural, devido ao aparecimento do novo coronavírus.

Depois de uma vida inteira a trabalhar fora da sua cidade, quis o destino que há cerca de sete anos Hélder Pereira regressasse a Chaves. Hoje, com 68 anos, e já reformado, o flaviense ocupa os seus dias entre a Universidade Sénior de Rotary de Chaves, onde é diretor há cerca de dois anos, a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, onde faz parte da assembleia, e a Delegação de Chaves da Cruz Vermelha Portuguesa, onde é presidente da Comissão Administrativa, atividades que desempenha com afinco e que o fazem sentir “útil” e “com mais vida”.

Há cerca de dois meses decidiu aceitar o convite para liderar a Comissão Administrativa da Delegação de Chaves da Cruz Vermelha Portuguesa, uma tarefa que aceitou “com convicção” e da qual faz um balanço positivo. Para além de ser um desafio pessoal, o flaviense considera que tem sido uma oportunidade para conhecer a fundo todo o trabalho desenvolvido pela Cruz Vermelha de Chaves, que faz parte de um dos maiores movimentos de solidariedade social a nível nacional e também internacional.

Hélder Pereira formou-se em Engenharia Eletrotécnica, trabalhou no Brasil, numa empresa equivalente à EDP, esteve no Grupo Américo Amorim, trabalhou durante vários anos na Sonae e esteve ainda ligado a outras empresas relacionadas com gestão de serviços, equipamentos e projetos. Habituado a gerar lucro nas empresas, o engenheiro conta que a sua nova função tem sido “um complemento de vida” e “uma aprendizagem”.

“Um dos principais objetivos era gerar proveitos. Agora não, agora é mais ações. E tem sido interessante. Dá-nos conforto”, acrescentou.

Quando chegou à Cruz Vermelha de Chaves Hélder Pereira encontrou o grupo de trabalho um pouco apreensivo pois não sabiam quem é que os iria “conduzir”.

“Havia um certo receio porque as pessoas que neste momento estão na direção nunca estiveram ligadas a qualquer direção da Cruz Vermelha, tanto a nível nacional como aqui em Chaves. Havia grande expectativa. Mas penso que as coisas se estão a harmonizar, as pessoas estão-se a adaptar”, referiu.

Hélder Pereira quer dar mais dinâmica à instituição de solidariedade social

Hélder Pereira foi nomeado pelo presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, Francisco George, para liderar, durante um ano, a Comissão Administrativa da Cruz Vermelha de Chaves. Por seu lado, Hélder Pereira convidou a advogada Mariana Venceslau, a psicóloga Olga Melo e a economista Carla Sarmento para trabalhar consigo. Alberto Lebreiro, enfermeiro, foi outro dos nomes apontados para integrar a comissão, mas que não se veio a concretizar.

“Houve uma intenção de me juntar com pessoas de várias áreas que permitisse fazer um complemento em termos de informação, o que no meu entender poderia ajudar nas decisões”, explicou o responsável, acrescentando que outro dos motivos deveu-se ao facto de ser “gente nova, no ativo, com capacidade de ação e que me pudesse ajudar ativamente”.

A Delegação de Chaves da Cruz Vermelha Portuguesa é composta por cinco funcionários que pertencem ao quadro: duas assistentes sociais, uma técnica de contabilidade, outra ligada à área de educação e existe ainda um motorista para o transporte escolar. A instituição é ainda apoiada por vários voluntários que ajudam sobretudo nas campanhas de recolha alimentar e de outros bens essenciais. O presidente da Comissão Administrativa da Cruz Vermelha de Chaves, assim como a restante direção, não aufere qualquer salário relativo às funções desempenhadas.

Candidatar-se daqui a um ano à presidência da Cruz Vermelha de Chaves é uma hipótese que Hélder Pereira não põe de lado, mas para já ainda é muito cedo para pensar nessa possibilidade.

“Só daqui a um ano é que fará sentido pensar nessa hipótese e se me sentir confortável com o meu trabalho e também se a própria Cruz Vermelha se sentir realizada com o meu trabalho. Mas o objetivo é esse: preparar tudo para que daqui a um ano possa haver uma eleição efetiva”, referiu Hélder Pereira.

Pandemia levou mais pessoas a pedir ajuda à Cruz Vermelha

A Delegação de Chaves está envolvida em vários projetos de carácter social com algum impacto, de onde se destacam a entrega de bens alimentares e não alimentares às famílias sinalizadas pela Segurança Social. Neste momento, a Cruz Vermelha de Chaves acompanha 800 pessoas carenciadas, um número que duplicou depois do aparecimento da Covid-19.

“Os destinatários das nossas ações estão amplamente identificados, os critérios estão muito bem definidos e a ajuda é muito bem direcionada” não havendo possibilidade de desvios dos apoios, lembrou Hélder Pereira.

Segundo o responsável, a pandemia veio pôr a descoberta pessoas que já viviam com muitas dificuldades mas que ainda não eram conhecidas. Além das pessoas com falta de meios, a Delegação de Chaves acompanha outras com problemas relacionados com a ingestão excessiva de álcool e com droga, havendo um aumento destes casos sobretudo fora da cidade.

As ajudas são provenientes de doações e dos próprios organismos do Estado, como a Segurança Social. No caso da roupa, explicou o presidente da comissão da Cruz Vermelha de Chaves, o Estado doa vestuário que é apreendido nas operações realizadas pelas forças de segurança pública relativas a material contrafeito.

“Esse vestuário é armazenado em vários armazéns espalhados por diversas cidades do país, como é o caso de Braga e Porto, por exemplo, assim como o material que é deixado nos contentores destinados para esse fim. Nesses contentores existe um acordo com uma empresa que é responsável pela recolha da roupa, pela sua separação, prepara-a e higieniza-a. Depois, cada delegação faz o seu pedido consoante as necessidades. Para a delegação vem aquilo que ela entende que precisa para dar. É um processo muito bem organizado e não há nada de escuro como algumas pessoas pensam”, destacou Hélder Pereira.

Para além disso, há material que é para doar que chega diretamente à Cruz Vermelha de Chaves. Esses artigos são encaminhados para a Cruz Vermelha nacional para suprir necessidades de outras delegações ligadas a esta entidade.

Além das doações, a Cruz Vermelha conta ainda com mecenas e com as quotas dos associados. O dinheiro que entra na instituição flaviense e tudo aquilo que é faturado é encaminhado para a contabilidade que é gerida a nível nacional: “O controlo das contas é feito por nós e por Lisboa e a gestão é feita em Lisboa. Não há grandes possibilidades de andar a fazer desvios”, garante o engenheiro eletrotécnico.

Cruz Vermelha de Chaves é a única instituição no Alto Tâmega com programa de apoio à vítima

A Cruz Vermelha acompanha ainda situações de refugiados. Em Chaves existe uma família de refugiados constituída por cinco pessoas de origem síria a quem está ser dado todo o acompanhamento necessário para a sua reinserção na sociedade. O processo dura um ano e seis meses.

“A Cruz Vermelha recebe-os, arranja casa, dá-lhes as condições mínimas para eles viverem. Existe uma pessoa da área da ação social que os visita regularmente, que os ajuda na integração, desde o processo de entrada dos filhos na escola, de tirar a carta de condução, no ensino do português, que é uma das principais dificuldades”, contou. Entretanto, a delegação de Chaves vai receber mais uma família de refugiados composta por quatro pessoas.

A educação é outro dos pilares desta instituição. A Cruz Vermelha é responsável por levar os alunos, quando as aulas terminam, para o centro de estudos localizado nas instalações da delegação de Chaves, local onde as crianças realizam os trabalhos de casa enquanto esperam pelos pais. Esta atividade é comparticipada financeiramente pelos pais e uma forma da Cruz Vermelha obter algumas receitas para continuar a apoiar a vertente solidária. Outra fonte de rendimento passa pela candidatura aos concursos abertos pela autarquia para o transporte escolar entre aldeias ou entre aldeias e a cidade.

Em Chaves existe ainda uma clínica da Cruz Vermelha, com várias especialidades médicas e de análises clínicas.

A nível de projetos, a Cruz Vermelha Portuguesa – Delegação de Chaves abraçou várias iniciativas, das quais se destacam o CLDS 4G, programa de apoio à empregabilidade, o Novo Começo, de apoio à vítima, cujo objetivo passa pela identificação de vítimas de violência doméstica, fazendo o encaminhamento dessas pessoas e por prestar apoio psicológico e jurídico.

“Neste momento somos a única instituição no Alto Tâmega a fazer este tipo de ação”, sublinhou o flaviense.
A Cruz Vermelha é também responsável, através de um protocolo assinado com o Estabelecimento Prisional de Chaves, por orientar as atividades destinadas aos cidadãos que têm de cumprir serviço comunitário.

A instituição flaviense participa também em outras iniciativas, como é o caso da campanha de boas-vindas aos emigrantes, perto da fronteira, com a oferta de pequenos brindes e de um folheto informativo.

Cátia Portela

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