Dividida entre Chaves e Lisboa, Cláudia Patrícia Quitério Bento, de 37 anos, divide-se também entre a medicina e a política, tendo sido eleita, em 2017, deputada do PSD na Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Vila Real. Numa entrevista mais intimista ao jornal A Voz de Chaves, e a estrear uma nova rubrica, esta flaviense conta mais sobre si, como faz para conjugar estas duas atividades, sem nunca esquecer a sua vida pessoal, de igual importância.

A Voz de Chaves: Como foram os seus percursos académico e profissional?

Cláudia Bento: Começando desde pequenina. Os meus pais são professores, o que me deu a possibilidade de viajar um bocadinho por este Portugal. Com, aproximadamente, quatro anos estive na Madeira, de onde tenho excelentes recordações. Estive a morar em Serra de Água e foi lá que fiz a parte do jardim de infância.

Depois, por volta dos cinco anos, os meus pais foram para Setúbal e eu fui com eles. Na altura a escola não tinha jardim de infância e eu acompanhava os meus pais nas aulas. Entretanto a situação profissional deles estabilizou e viemos cá para Chaves. Eles não lecionavam mesmo aqui em Chaves, mas estavam em localidades próximas. Fiz a primária aqui em Chaves, fiz em Santa Cruz e o último ano na escola da Estação.

Depois fiz o 5º e o 6º anos no ciclo. Do 7º ao 9º ano estive na Fernão de Magalhães. E depois fiz do 10º ao 12º na Dr. António Granjo. Portanto, tive umas boas experiências. Não entrei em Medicina logo na primeira candidatura, por duas décimas. Entrei então em cardiopneumologia na Escola Superior de Tecnologia e Saúde do Porto. Como o meu sonho era mesmo ser médica, no ano seguinte voltei a repetir os exames de acesso à universidade e obtive a média necessária para entrar em medicina, e entrei na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho. Aí foi também uma belíssima experiência porque a universidade estava aberta há pouco tempo. Foi o segundo ano após a abertura da universidade. E, portanto, eram turmas pequeninas, e o ambiente era muito familiar. Entrámos 50 alunos. Éramos divididos em duas turmas, cada uma de 25 alunos.

Tínhamos umas condições fabulosas, tínhamos um computador para cada um, tínhamos microscópios para todos. Completei aí os meus seis anos da faculdade, terminando o curso, que na altura já se chamava Mestrado Integrado em Medicina, no ano de 2008. Aí entrei no ano comum, que fiz em Braga também, no velhinho Hospital São Marcos. Depois tivemos o exame de acesso à especialidade. Como o meu sonho foi sempre vir para o Interior, regressar às minhas origens, e havia uma especialidade que eu gostava muito que era nefrologia, concorri e consegui vaga no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro (CHTMAD), em Vila Real, e foi aí que fiz toda a minha formação. Foram cinco anos de especialidade. Portanto, entrei em 2010 e formei-me em 2015, e desde aí que estava a exercer como assistente hospitalar de nefrologia no CHTMAD.

Como tive a possibilidade de estar em vários locais, isso também me permitiu conhecer diferentes ambientes, diferentes realidades, e também ajudou no contacto com as pessoas. Parecendo que não era um saltimbanco, num ano estava numa escola, no outro estava noutra, e às vezes era um bocadinho difícil fazer amizades. Mas como eu sempre fui muito interativa com as pessoas, isso nunca foi problema maior.

E como é que a política entra na sua vida?
Surgiu através do convite de um amigo. Não consigo precisar, mas foi mais ou menos em 2015/2016, para integrar a parte de deputada à Assembleia Municipal de Chaves. E foi assim que começou.

Mas já tinha gosto pela área?
Esse gosto foi crescendo. Não posso dizer que desde pequenina que era vocacionada para a política. Foi mais ou menos a partir de 2015, a partir do momento que entrei na Assembleia Municipal.

Pondo a medicina de um lado e a política do outro. Se tivesse de optar por um deles, qual seria?
Essa é uma pergunta bastante difícil. O meu sonho, desde pequenina, sempre foi ser médica. Ajudar os outros, tentar fazer o melhor pelos outros. E a política, embora não seja diretamente nesse sentido, neste momento, atendendo ao desafio que me foi imposto, vejo-a como uma maneira de também ajudar o Interior, as pessoas, tentar dar-lhes alguns direitos que esta população tem perdido ao longo dos tempos. E uma vez que sou médica, e a nossa área da medicina aqui no Interior está tão desgastada, tão limitada, tentarei dar o meu melhor para que consigamos trazer algumas valências e melhores infraestruturas aqui para o Hospital.

Alguma vez foi vítima de algum tipo de preconceito ou discriminação por ser, digamos, uma mulher num ainda, infelizmente, visto como “mundo de homens”, não na medicina, mas na política?
Não, nunca senti qualquer tipo de preconceito. A verdade é que ele existe, faz parte da história da humanidade e faz parte também da história social da mulher, o que fez com que ela usualmente ocupasse sempre postos em níveis hierárquicos um bocadinho inferiores ao homem. Durante muito tempo a mulher foi vista como o centro da família. A sua função era cuidar da família e dos filhos e não lhe era dada a possibilidade de outras atividades. A verdade é que, penso que por volta dos anos 60, os movimentos feministas tiveram um papel extremamente importante na defesa dos direitos das mulheres. Contudo, na sociedade em que vivemos profissões iguais têm alguns tratos diferentes nas mulheres, isso é evidente. A taxa de desemprego é maior nas mulheres, o nível remuneratório nas mulheres também é mais baixo. Usualmente ocupam cargos mais baixos. Os cargos de decisão central raramente são ocupados por mulheres. E depois, para além disto tudo, as mulheres ainda têm de fazer as suas lides domésticas, cuidar dos filhos, dos familiares, e, portanto, também gastam muito mais tempo que os homens no chamado trabalho não remuneratório. Mas penso que ao longo dos tempos a sociedade tem vindo a melhorar. Ainda há muito para fazer, mas penso que nós mulheres também temos um papel preponderante em nos afirmarmos e também defendermos os nossos valores e a nossa verdadeira identidade e lutar pela igualdade de género.

E por ser do Interior?
Não, e acho que não nos devemos sentir discriminados. Temos é de lutar porque somos iguais a todos, não é por estarmos no Interior. Às vezes aqui até conseguimos fazer mais coisas do que as pessoas que estão no Litoral. Por exemplo, uma das coisas que eu ouço é: “Como é que consegues estar no Interior? Não tens acesso à cultura, não consegues ir ao cinema”. É assim, as pessoas que estão nas grandes cidades chegam a casa tão mas tão cansadas, o tempo que demoram nas deslocações de casa para o trabalho e vice-versa deixa-as esgotadas. Portanto, não fazem isto todas as semanas. Nós aqui na cidade, em termos culturais, aos poucos e poucos temos tido algum desenvolvimento, e também agora com as infraestruturas rapidamente nos colocamos em Vila Real ou no Porto. Portanto, não acho que isso seja um entrave ao Interior. E depois temos uma belíssima educação, as escolas secundárias da cidade foram consideradas as melhores do distrito, e a nível nacional também estão muito bem classificadas. O Interior tem mentes brilhantes. Há várias pessoas que saíram do Interior e que ocupam cargos muito importantes. Portanto, não acho que haja preconceito nem discriminação pelo Interior. Há é nos serviços públicos. No encerramento de escolas, de hospitais, de extensões bancárias, dos correios, aí sim. Por parte do poder central existe uma discriminação para com o Interior.

Como tem sido conjugar a vida profissional com a vida pessoal?
Isto exige uma disciplina e uma ginástica bastante grande, e depois tenho de ser muito metódica e organizada, se não os sete dias da semana não me chegam. Enquanto estou em Lisboa tento resolver todas as coisas que não me obriguem a ir de forma pessoal aos locais. Sempre que me é exigido ir a algum sítio fisicamente tento organizar a minha agenda de forma a conseguir estar nos dois sítios ao mesmo tempo. Em termos familiares é muito bom. Tenho os meus pais que me ajudam muito, bem como o meu namorado. Portanto, são compreensivos. Porque usualmente o que queremos ao fim de semana é passar tempo juntos, e isso nem sempre é possível porque somos requeridos para ir a muitos sítios e às vezes o tempo não chega. Era bem bom que tivesse mais umas horinhas.

Quais as suas perspetivas de futuro a nível profissional?
Essa não é uma questão nada fácil. Não faço ideia. Sei que neste momento fui incumbida de uma tarefa que vou tentar cumprir com a máxima competência e com o maior sentido de responsabilidade, que é a defesa pelo Interior e a defesa pelos direitos das pessoas do Interior que tantas vezes são esquecidas. Obviamente que não posso descurar também da minha parte profissional de médica. Isto porquê? Porque se eu não pratico, não exerço, vou esquecer. E, portanto, o que eu quero é também estar atualizada na medicina. Tenho de estudar, tenho de investigar, tenho de estar sempre atualizada. E acho que tanto na política, como na medicina o fundamental é estarmos realizados profissionalmente, tentar conciliar a nossa vida pessoal com a profissional, e tentar ser sempre os melhores naquilo que façamos, porque uma vez que estejamos realizados, parece que as coisas correm melhor. Eu neste momento tenho de pensar no presente, tenho de exercer a função para a qual fui incumbida, e o futuro logo ditará para onde eu andarei.

Maura Teixeira

 

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