O filme “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”, de Paulo Carneiro, rodado na aldeia do concelho de Boticas, foi premiado na 24ª edição do Festival Caminhos Cinema Português. O prémio de imprensa foi para “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”.

A competição cinematográfica decorreu no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra. A cerimónia de encerramento e entrega de prémios decorreu no dia 1 de dezembro.

Na sua 24.ª edição, o festival dedicado ao cinema português contou com 26 longas-metragens, 110 curtas, 17 documentários e 21 animações, num total de 74 horas, cinco minutos e 55 segundos.

A pequena aldeia de Bostofrio, no concelho de Boticas, é apresentada em “Bostofrio, où le ciel rejoint la terre”, onde o território e as suas gentes aparecem em destaque ao longo do documentário, enquanto o realizador, Paulo Carneiro, busca informações sobre quem foi o seu avô, que nunca conheceu, com raízes na aldeia botiquense.

Para isso, o cineasta decidiu entrevistar os locais e aqueles que conviveram com o familiar. A história começa porque Domingos Espada não perfilhou o progenitor de Paulo Carneiro. O seu pai, Isaías Carneiro, é natural de Bostofrio, e foi através da sua história, que surgiu esta longa-metragem.

 Ecos de Boticas: Para além deste prémio, o filme recebeu mais alguma distinção?

Paulo Carneiro: Sim. O filme foi distinguido com uma menção honrosa logo na estreia no IndieLisboa, em maio passado, e de melhor documentário português no Festival de Documentário de Melgaço, em agosto.

 Para um filme com um baixo orçamento como este, qual a importância destas distinções?

Acho que o baixo orçamento não está diretamente relacionado com a atribuição dos prémios ao filme, mas sim com as condições em que trabalhámos. Antes de partir para a rodagem sabia que os recursos que tinha eram escassos para o filme que queria fazer, portanto acaba por ser culpa minha também ao decidir avançar e filmar com o orçamento que conseguimos angariar. Era um filme que já me fazia sentido há muito tempo e, por vezes, os anos que se esperam para conseguir ter acesso a um subsídio do ICA (instituição responsável pelo financiamento do cinema em Portugal) não compensam o risco de avançar com condições mais humildes. Independentemente disso, acho que fiz o filme que queria e da forma que me sentia preparado. Se tivesse aguardado uns anos seria um filme completamente diferente, isso é certo, não sei se para melhor se para pior. E como é óbvio todo o processo só foi possível graças aos grandes amigos profissionais que me ajudaram nesta missão.

Claro que os prémios são importantes. São importantes porque fazem com que as pessoas falem do filme e aguça a vontade de outros o verem, isso é o que mais me interessa nas distinções. Mas continuo a acreditar que os prémios não definem se um filme é bom ou não porque é sempre muito subjetivo: o júri; a situação político-social; o país onde é mostrado; etc., etc.. Obviamente que todas estas distinções são partilhadas com cada pessoa que fez parte deste trabalho, com a dedicação e com tudo o resto que trouxeram para o filme, inclusive a própria aldeia, que para mim é também uma personagem essencial.

Além dessas distinções nos festivais de cinema, e das críticas positivas de especialistas, o filme tem sido bem recebido pelo público em geral por cá?  E lá fora?

Sim. E isso deixa-me muito contente. O filme comunica muito bem com o público, apesar da sua génese, o facto de ser praticamente todo ele filmado em longos planos fixos. Em Portugal criou-se o estereótipo que isso faz com que os filmes sejam chatos. Foi também por esse motivo, por querer provar o contrário, que escolhi este dispositivo [longos planos fixos]. As pessoas revêem-se no filme e por vezes elas próprias refletem sobre a sua vida quando se abre o debate ao público. Tem sido sempre de uma riqueza muito grande ouvir estas histórias também elas muito pessoais. Em relação ao estrangeiro, por enquanto estamos a tentar a possibilidade de circulação alternativa em Paris (Île de France) para o público representado no filme, porque o público de festival é uma percentagem muito pequena daquele a que me interessa chegar. Eu gosto de falar de cinema quando discutimos o filme em debates abertos, mas também me interessa falar da nossa história, do que se passou à época, daquilo que estas pessoas viveram, do conhecimento ancestral que têm, e com isso também eu próprio cresço enquanto pessoa. A história oral é de uma riqueza inesgotável.

 Como descreveria a aldeia e as gentes de Bostofrio?

No fundo é uma aldeia à qual tenho uma forte ligação, de onde guardo memórias fortes de verões que lá passei, portanto tudo o que diga será influenciado por isso. Contudo, é óbvio que quando se fala de Bostofrio, ou de qualquer aldeia transmontana, associamos diretamente à aspereza das gentes e do clima mas que é só algo superficial, uma proteção, porque são sem dúvida as pessoas mais hospitaleiras com quem já cruzei, generalizando para os transmontanos. É incrível pensar que a equipa que trabalhou comigo ainda hoje mantém uma forte ligação à rodagem deste filme, perguntam-me pelas pessoas e guardam com especial gosto a experiência. As portas abrem-se, rodam copos de morangueiro, corta-se presunto e assa-se alheiras de fumeiro artesanal, e é isto o que se pode esperar deste povo que recebe o outro de peito cheio com um orgulho imenso, pela sua terra, pela sua gastronomia, pelos seus recursos naturais ou pelo seu dialeto. Todas essas questões estão presentes nos 70 minutos de duração do filme, que apesar de ter um foco nesta minha história de procura se ramifica para tudo isto, sem ter a ambição de procurar a antropologia do espaço acaba por não conseguir fugir a esse lado.

 Em relação ao filme, qual é o próximo objetivo?

Agora estamos na fase de distribuição. Felizmente o filme, que é representado pela Portugal Film (maior agência de distribuição de filmes portugueses em Portugal), já tem datas para próximas exibições um pouco por todo o mundo em festivais de cinema, inclusive mais um ou outro em Portugal, sendo que o universo de festivais é pouco maior que aqueles em que esteve presente (três), no que concerne a uma longa-metragem.

Depois, como objetivo lançado à Câmara de Boticas ainda antes de filmar, gostaria de o poder mostrar num circuito organizado pelas aldeias do concelho de Boticas porque acredito que este reconhecimento das próprias pessoas na tela é importante e dará aso a discussões que aguardo com muito entusiasmo. Acho que o que se cria com um filme, ou com este filme espero, pois não me cabe a mim julgá-lo, é uma espécie de património cultural imaterial, uma memória viva deste e de outro tempo e isso é importante mostrar a estas gentes, à gente da lavoura e não cingirmo-nos ao circulo intelectual que é o público dos festivais. É preciso levar o filme onde ele pertence, às ruas, às capelas ou aos lameiros. Este é sem dúvida um dos grandes objetivos, claro que sem nunca pôr em causa todos os outros circuitos possíveis. É bom que se mostre que Portugal vai para além das grandes cidades, seja do litoral ou do interior, porque ainda hoje há pessoas que ficam muito admiradas com algumas situações completamente banais do que é a vida no campo quando veem o filme.

 No futuro haverá mais projetos no concelho de Boticas?

É possível. Mas para já é importante fazer este trabalho de mostrar o filme e isso é já um projeto em grande escala.

O filme “Bostofrio, où le ciel rejoin la terre”, do realizador Paulo Carneiro, estreou mundialmente na 15ª edição do IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema de Lisboa, no dia 28 de abril, no Grande Auditório da Culturgest.

Paulo Carneiro nasceu em 1990, em Lisboa, é assistente de realização em cinema. Estudou Imagem e Som na Escola Superior de Artes e Design, nas Caldas da Rainha.

“Bostofrio, où le ciel rejoin la terre” é o segundo filme do realizador. O primeiro foi filmado na Guiné e chama-se “Água para Tabatô”.

Catarina Garcia

loading...
Share.

Deixe Comentário