Ivone Cláudia Barreira dos Santos Fachada tem 42 e é a mais recente entrevistada da nossa rúbrica sobre mulheres da região que ocupam cargos de maior responsabilidade. É natural de Mirandela – foi lá nascer, como diz – e viveu grande parte da sua vida em Chaves. Agora está a residir em Bragança, onde lidera o Centro Ciência Viva, trabalho que diz ser a sua grande paixão.

A Voz de Chaves: Como foi o seu percurso académico?
Ivone Fachada: Licenciei-me em Engenharia Florestal, no Instituto Politécnico de Bragança (IPB). Tirei o Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza, grau atribuído pela Universidade dos Açores, em parceria com o IPB.

Frequentei o programa doutoral em História das Ciências e Educação Científica, da Universidade de Aveiro e da Universidade de Coimbra, que acabei por não concluir. No entanto, estou a trabalhar para realizar um outro trabalho de Doutoramento. Ainda não posso adiantar a área de investigação.

Como foi o seu percurso profissional?
Inicialmente, entre 2000 e 2005, trabalhei em empresas de cadastro florestal e agrícola, onde inventariava e fiscalizava culturas de proprietários agricultores subsidiados, na região de Coimbra e em Trás-os-Montes. Em 2006 e 2007 trabalhei como engenheira florestal nos Serviços Florestais de Chaves, pertencentes ao Núcleo do Barroso e Padrela, sob orientação da engenheira Eugénia Branco-Teixeira, com quem aprendi imenso sobre gestão florestal e sobre outras áreas da vida, muito úteis para o meu crescimento.

A partir de julho de 2007 comecei a trabalhar no Centro Ciência Viva de Bragança, um espaço dedicado à comunicação, educação e disseminação da ciência e tecnologia na sociedade. Inicialmente como coordenadora e em janeiro de 2016 passei a diretora executiva. Pertencemos à Rede Nacional de Centros Ciência Viva, liderada pela Agência Nacional para a Ciência e Tecnologia – Ciência Viva.

É diretora executiva do Centro Ciência Viva em Bragança, mas quando era criança o que queria ser?
Queria ser bióloga marinha. O facto de não haver mar em Chaves sempre me inclinou para ir para o litoral e, como adorava Biologia, parecia ser a escolha certa. Não aconteceu e acabei por tirar Engenharia Florestal, que é um curso que também se revelou muito importante na minha formação, pois deu-me a oportunidade de conhecer a realidade agrícola e florestal do nosso país, fonte de biodiversidade e de uma série de serviços prestados pelos ecossistemas, que devem ser preservados. A minha veia mais ecologista vem certamente dos conhecimentos que adquiri ao longo do curso.

Gosta do que faz atualmente?
Adoro, não me vejo a trabalhar sem ser na área da comunicação e educação de ciência. Gosto muito da gestão da instituição e das competências de liderança que fui adquirindo ao longo dos anos. É, verdadeiramente, a minha paixão. Não é fácil gerir pessoas, parceiros, expectativas e, às vezes, desilusões, quando vem um ou outro projeto chumbado. Mas as derrotas são tão importantes como as vitórias, pois levam-nos a refletir verdadeiramente sobre o nosso trabalho e a progredir numa próxima oportunidade. O crescimento profissional, no meu caso, processa-se dessa forma. Não há caminhos perfeitos e imaculados. O talento e o carisma são pequenos, comparados com a dedicação, aprendizagem e esforço que dedicamos às causas para que elas se tornem realidade.

Alguma vez sofreu algum tipo de preconceito durante o seu percurso profissional por ser mulher?
Quando era mais nova, houve algumas situações em que a minha opinião era preterida em relação a colegas homens, em situações semelhantes e até opiniões semelhantes, mas sentia que tinha mais a ver com a idade e não com o género.

Atualmente não sinto preconceito, em geral. Quando o há, faço questão de o sinalizar, confrontar e fazer ouvir a minha voz, com a mesma igualdade que reivindico para todos.

O que acha que pode ser feito para mudar as mentalidades relativamente a este tema?
Pode apostar-se em mais informação e acesso de todos a ela. A ignorância gera preconceito e apenas através da educação e de uma diminuição das desigualdades sociais, se podem efetuar mudanças profundas na sociedade, neste e noutros temas.

Um exemplo interessante, como tem o Instituto Superior Técnico e a Universidade de Évora é abrir gabinetes de identidade de género nas universidades. As mentalidades mudam-se educando as pessoas. Os agrupamentos de escolas podiam apostar em ter gabinetes específicos para a Igualdade.

Como tem sido conciliar a vida pessoal com a vida profissional?
Em Bragança é relativamente fácil ter tempo para a nossa vida pessoal, mas reconheço que às vezes não há noites nem fins de semana, em especial quando o trabalho assim o exige, até porque temos muitos eventos à noite e ao fim de semana. Mas com uma boa gestão do tempo, experiência em priorizar o mais importante, a começar pela nossa saúde física e mental, pode ter-se uma vida de sucesso profissional sem sacrificar a vida pessoal. Saber o que é importante nos dois aspetos da vida e agir de acordo com essa premissa.

Quais as suas perspetivas de futuro a nível profissional?
Nos próximos dois anos estou comprometida com vários projetos do Centro Ciência Viva de Bragança, com as adaptações necessárias em tempos de pandemia. Pretendo terminar o Doutoramento, continuar a melhorar as minhas competências de liderança, de negociação, de impacto positivo na sociedade onde vivo e trabalho. E essencialmente cuidar de mim e dos que me rodeiam, em especial em tempos tão difíceis como os que vivemos, sempre numa perspetiva de não deixar de viver, sonhar e trabalhar, com os devidos ajustes para segurança de todos.

Maura Teixeira

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