A Academia de Artes de Chaves adaptou-se à nova realidade do ensino devido à pandemia de covid-19 e continua a promover o ensino artístico, agora à distância, numa experiência nova para professores, alunos e famílias que todos juntos está a ser ultrapassada.

“Ainda durante o final do segundo período, quando foi decretado o encerramento das escolas, procuramos perceber de que forma seria válido manter o acompanhamento com os alunos de forma a manter a atividade pedagógica”, explica o diretor pedagógico da Academia de Artes de Chaves (AAC), Luciano Pereira.

A AAC é uma escola de ensino particular e corporativo especializado no ensino artístico, com alunos desde o 1.º ano de escolaridade até ao 12.º ano, com cursos de iniciação, curso básico, curso secundário e ainda um curso profissional de instrumentista, em parceria com o Agrupamento de Escolas Dr. Júlio Martins.
A escola de ensino artístico procurou logo perceber e experimentar quais as plataformas disponíveis para “acompanhar os alunos de forma remota”.

Apesar de serem “minimamente simples” a realização de videoconferências, esta não é uma ferramenta perfeita para este tipo de ensino, acrescenta.

Com a confirmação do encerramento das escolas até ao final do ano letivo, à exceção do 11.º e 12.º ano, que ainda poderão regressar às aulas presenciais, a AAC utilizou a experiência recolhida nas duas semanas do segundo período.

“Temos promovido aulas síncronas e assíncronas, através de plataformas digitais ou por chamada telefónica normal as aulas síncronas”, explica Luciano Pereira.

As aulas assíncronas consistem em “propor um conjunto de tarefas semanais que os alunos têm de gravar e enviar por vídeo, para o professor fazer depois a sua avaliação”.

“Temos estas duas orientações gerais para serem implementadas e o professor da disciplina, tendo em conta as limitações técnicas e os meios para as realizar, vai adaptando de forma a que o aluno tenha acesso ao melhor plano individual para que possa continuar a evoluir e a manter a atividade pedagógica”, concretiza.

Para Luciano Pereira, com a maioria dos alunos a terem também em casa o ensino regular, é importante um “acompanhamento” para que não haja uma “sobrecarga”.

Também fundamental é o evitar de um “acréscimo do stress dentro do seio familiar”, que é “importante que se mantenha estável”.

Viver com a nova realidade

Toda este novidade do ensino à distância ganha uma nova dimensão no ensino artístico, pela componente prática associada.

“É promovida a autoanalise e autoavaliação do aluno, quando prepara o vídeo, embora esteja sempre dependente da avaliação do professor”, refere Luciano Pereira.

E acrescenta: “Os alunos têm que ver os vídeos, analisar se o resultado final está de acordo ou não e com isso desenvolvem a competência de forma mais rápido, embora nunca substitua o que a aula presencial dá”.

Com todos os desafios, Luciano Pereira garante que nunca esteve em cima da mesa parar.
“Estamos num ensino que para além do trabalho regular tem uma linha de continuidade, e um eventual encerramento traria questões muito complicada no desenvolvimento dos nossos alunos”, vinca.

Luciano Pereira elogia a “compreensão e a adesão dos pais” numa altura de mudanças que “são muitas”.
“É uma mudança de paradigma das escolas, pois todas tiveram de fazer isso, e obriga a uma readaptação familiar, mexe com as famílias e obriga a um esforço muito grande. Para a AAC foi extremamente fácil, num tempo muito curto, reajustando o que eram rotinas normais e estamos bastantes contentes com isto, toda a gente consegue perceber o que é importante”, elogia.

Um processo em evolução

Com o ensino à distância já implementado, Luciano Pereira explica que este é “um processo que não está fechado”, pela necessidade de perceber se “está a funcionar e que meios são possíveis utilizar”.

“São terrenos completamente desconhecidos, plataformas e meios tecnológicos, plataformas que não permite ter tempo real, pois há sempre desfasamentos, o que originam problemas complicados de resolver e obriga a adaptação”, explica o diretor pedagógico da AAC.

Isso obriga ainda a um trabalho “caso a caso, aluno a aluno e família a família”.
“Em primeiro lugar temos que uma atenção muito maior para a consolidação das competências já adquiridas.

Em segundo plano estaria a hipótese de podermos ambicionar novas competências e conteúdos”, garante.
O foco está também em alunos que estão a terminar ciclos de estudo e a prepararem-se para concorrer ao ensino superior na área da música.

“Temos de continuar com esses alunos os trabalhos intensivos, para que nas provas práticas estejam nas melhores condições e que esta situação não influência o seu futuro”, atira.

Manter a ligação à sociedade

A quarentena devido à pandemia levou já a alguns momentos da AAC, que procura manter a ligação com a sociedade. Vídeos em conjunto na internet ou concertos dados por cada aluno na sua varanda têm sido formas de manter o contacto.

“[Concerto desde as varadas] Foi uma maneira de marcar o início do período e importa dizer que foi proposta pelo agrupamento de escolas Dr. Júlio Martins”, conta.

Luciano Pereira confessa que esta é uma forma de manter a ligação a quem acompanha o trabalho da academia, seja “acompanhando em todos os eventos seja ouvindo os sons do edifício enquanto assam por lá”.

Com o ensino à distância ficam ainda canceladas as apresentações públicas ou outras atividades.
“Não alteramos nada nos critérios de avaliação, mas alguns componentes foram adaptados, na maneira de ser cumpridos, como apresentações públicas”, realça.

Para o fim do confinamento e o levantamento de restrições a AAC não quer ficar para trás e está já a preparar atividades.

As orquestras de cordas, ou a orquestra infantil de sopros por exemplo, tem pequenos grupos de trabalho, para “trabalhos mais específicos” e que através das plataformas é possível “trocar ideias para quando for possível se voltarem a juntar”.

Já a orquestra de sopros está “a trabalhar de forma intensa” para que “logo que seja possível fazer um concerto e oferecer a todos”, num fim-de-semana imediatamente a seguir ao levantamento da restrição.

3 perguntas a Afonso Bessa, de 14 anos, percussão

Como têm sido estes tempos de confinamento e aprendizagem?
Têm sido, sobretudo diferentes. Não diria maus, pois continuo com saúde tanto eu como a minha família, nem bons, pois o facto de não poder sair de casa custa um pouco a quem estava habituado a sair de casa todos os dias. Desde o momento em que soubemos que as aulas iriam acabar, a Academia de Artes de Chaves assim como o meu professor, tomaram diligências para que tudo corresse pelo melhor. Foi só uma questão de hábito. Aliás, tem sido mais fácil o ensino à distância na área da música do que nas outras disciplinas.

Tens conseguido conciliar com a escola também?
Sim, mas confesso que tem sido difícil, pois acho que alguns professores do ensino regular ainda não conseguiram encarar esta nova realidade.

Como vê a tua família esta nova realidade, tem sido fácil praticar em casa?
Tocando eu percussão, que são instrumentos que são por norma “barulhentos”(xilofone, marimba, tímpanos, etc.) não tem sido fácil nem para a minha família nem para os vizinhos, mas ainda ninguém fez nenhuma queixa oficial [risos]. Agora mais a sério, tem sido desafiante, mas a minha família já está algo habituada, pois o meu irmão e o meu padrasto também são músicos, logo a música e os instrumentos são uma constante em nossa casa!

3 perguntas a Carlos Carneiro, de 21 anos, guitarra clássica, aluno do curso profissional de instrumentista

Como têm sido estes dias de confinamento?
Dada a situação, bastante equilibrados. Mesmo estando em casa, o tempo é preenchido com estudo e várias atividades. Francamente, não difere muito em termos de organização de horários daquilo que é o quotidiano habitual.

Têm sido fácil continuar a aprender música agora à distância?
Inicialmente achava que iria ser mais difícil pois a pedagogia acaba por ter uma vertente interativa sempre presente mas tem sido relativamente fácil continuar com as aulas. Os professores apresentam-se sempre disponíveis para esclarecimentos e as aulas decorrem minimamente organizadas. É importante referir que esta facilidade se deve maioritariamente ao incansável trabalho de professores para que estes métodos sejam realmente eficazes.

Como vê a tua família esta nova realidade?
A minha família encara bem esta nova realidade. Logicamente tiveram de ser feita alterações ao estilo de vida que todos (enquanto povo) levávamos mas foi um processo gradual de habituação e a única maneira de controlar minimamente a pandemia. Também tem sido fácil, como estudante de música, continuar a praticar em casa. Como já referi, o estudo diário, mais especificamente do instrumento, está sempre presente de forma incondicional, quer seja em casa ou no estabelecimento de ensino.

 

Adriana Rebouta, de 12 anos, também se teve de habituar ao ensino artístico à distância

A aluna de violoncelo conta que “têm sido dias um pouco dificeis e cansativos”, principalmente com saudades dos colegas.

“Era com eles que passava praticamente o meu dia todo”, conta.

Para Adriana Rebouta, praticar em casa tem sido possível enquanto espera poder regressar à Academia de Artes de Chaves.

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