Com apenas 15 anos, a caminho de frequentar o 10.º ano de escolaridade, João Fernandes Pereira já sabe o que quer seguir: ser árbitro. O flaviense tirou o curso e apitou durante a temporada de 2019/2020 o que apenas o deixou com mais certezas, a arbitragem faz parte da sua vida e veio para ficar. A pandemia de covid-19 interrompeu a temporada de estreia mas o jovem árbitro prepara já a próxima época e quer continuar a crescer numa atividade alvo fácil de críticas, algo que não o atormenta.

A Voz de Chaves: Como se deu o início da aventura na arbitragem?
João Pereira: Ser árbitro sempre foi um sonho, desde pequeno. Mas só há pouco tempo quando fui ver um jogo de juvenis a Vidago vi um árbitro perto da minha idade. Foi aí que comecei a querer saber mais sobre isso. Inscrevi-me no curso de árbitros da AF Vila Real sem os meus pais saberem. Quando fui chamado tive que falar com eles e fiz o curso.

Não estás arrependido?
Não, gosto bastante. Acho que a arbitragem é um mundo muito giro e se as pessoas tentassem olhar mais para os árbitros e perceber o que eles fazem iam gostar mais e perceber até que os árbitros não erram porque querem. Errar é humano. De certeza que há muitos jovens que não sabem, mas querem ser árbitros e se tirassem o curso iam ser grandes árbitros.

Ao fazeres o curso ficaste a gostar ainda mais?
Sim. Mal tive a primeira aula vi logo que era aquilo que ia gostar de fazer. A arbitragem é um mundo brilhante. Na primeira sessão do curso os meus pais não gostaram muito, mas convenci-os e acabei por tirar.

Tiveste que te deslocar a Vila Real?
Sim, o curso foi sempre em Vila Real. Era longe e quase todos os dias, à noite. Acho que a AF Vila Real devia trazer os cursos para outros sítios que não Vila Real, para mais gente ter a oportunidade.

Que tipo de jogos apitas?
Faço jogos de futebol 7 e jogos de futebol 11, da formação até juniores. Já fiz jogos como árbitro principal de futebol 11.

Gostas mais de qual?
São diferentes. No futebol 7 estamos sozinhos e não temos ninguém a julgar-nos, temos de estar sempre atentos ao jogo. No futebol 11 não nos sentimos tão sozinhos e estamos lá uns para os outros. Se um erra o outro está lá para corrigir e ajudar.

Tinhas uma equipa de arbitragem formada?
Sim, e eram mais velhos. Foi com eles que consegui crescer mais na arbitragem, pois caso contrário ia ser complicado. Cá acima somos poucos e é difícil fazer equipas fixas. Por isso é que na escola tento convencer pessoas para tirarem o curso, mas é complicado, até porque tem que ser tirado em Vila Real.

Tens desafiado os colegas?
Sim, tenho e há até pessoas que demonstram interesse mas na parte em que têm de ir para Vila Real as pessoas perdem o interesse.

É uma região com mais árbitros de futsal, porque escolheste o futebol?
Sempre gostei muito mais de futebol. Futsal nunca estive tão inclinado e já joguei futebol, embora por pouco tempo. Temos mais árbitros de futsal porque é melhor aqui, mas também por ser mais fácil de subir de categoria, para os nacionais.

O teu objetivo é chegar aos nacionais?
Se conseguir quero chegar o mais rapidamente possível aos nacionais, penso que apenas a partir dos 18 anos é que posso. Depois dos nacionais, tentar chegar à Liga e se possível e internacional. Vamos ver.

Chegando a um patamar nacional o apoio é outro…
É muito diferente. As coisas do distrital para o nacional mudam completamente, tudo muda. Lá são observados quase todos os jogos, sabem o que erraram, o que fizeram bem e fazer por melhor. E só chega lá quem consegue, e depois de chegar lá ainda mais difícil, pois embora entrem poucos são muitos e conseguir ser bom no meio de tantos que já são bons é muito difícil.

Para ser árbitro é preciso ter o perfil certo?
É preciso saber ouvir, pois ouvimos muita coisa que não gostamos mas temos que aguentar. É preciso saber ser humilde, pois ser árbitro é ser humilde. Por vezes estamos a ouvir criticas do publico mas temos que continuar a ser nós e a manter a relação com os jogadores. Temos que manter o nosso padrão dentro de campo e fazer o nosso melhor. Nem toda a gente consegue.

É uma atividade muito criticada…
O árbitro é uma figura que não é nada querida. Fala-se em arbitro e diz-se logo que vai roubar o clube dessa pessoa. Mas não, nós tentamos dar o nosso melhor, estamos lá para tentar dar o nosso melhor, queremos fazer o melhor para conseguir que a nossa carreira seja a melhor e consigamos subir. Agora, claro que erramos, como os jogadores. Depois há também muita pressão, quer antes, no jogo e depois, dos jogadores, público e dirigentes, o que torna as coisas mais complicadas. É preciso ir para o campo muito concentrados e a pensar que vamos dar o nosso melhor.

Que histórias já tens na tua primeira época?
A mais engraçada foi logo no primeiro jogo de sempre que arbitrei, faltavam apenas 10 minutos para ir para o campo e esquecemo-nos das bandeiras. O jogo atrasou 20 minutos e a minha mãe teve que ir levar lá as bandeiras, pois era em Boticas. Depois houveram situações já não tão engraçadas mas que marcaram, em Atei, em dezembro, num encontro de juvenis. No final do jogo, que foi quente, com uma expulsão e bastantes amarelos, as coisas complicaram-se. Os jogadores do Atei estavam descontentes, embora eu achasse uma arbitragem excelente e o treinador que já devia ser um senhor com cabeça estava a ser mais infantil que os miúdos. Sentimos algumas insegurança nos jogos, temos dois GNR ou PSP, mas não chega pois se tiver que acontecer acontece.

Como estás a viver esta situação da pandemia?
Está-me a custar. Foi a minha primeira época e tive de parar de repente. Tento ir para os campos com o meu pai, mãe e irmã, treinar fisicamente e tecnicamente, sinaléticas por exemplo, por causa do vício. Paramos demasiado depressa. Se a época acabasse normalmente eu estava a contar, agora de repente custou-me muito. E ainda não sabemos como irá ser no futuro. A arbitragem entrou na minha vida e entrou para ficar. Esperamos que regresse em breve.

Um jovem da tua idade quando tem alguma atividade extra tem a família a assistir, no teu caso como fazes?
Depende dos jogos. Quando recebemos as nomeações identifico logo, vou ver o passado das equipas, e há jogos que digo que podem ir todos, outros que digo vai só a mãe, pois leva-me ao jogo e fico, principalmente no futebol 7 para não estar também sozinho. Nos jogos mais quentes digo-lhes que é melhor não irem. Principalmente o meu pai reage muito e tenho medo disso. Quando lhe digo para ir tenho que o convencer para não fazer nada, pois é pior para ele e para mim. Depois a minha irmã foi ver um jogo de juvenis sábado à tarde, Chaves-Boticas, e tinha lá um senhor zangado connosco e por ele nos estar a tratar mal ela ficou muito triste e chateada. Ela até gostava de tirar o curso, e acho que podia ser boa árbitra, mas tinha que aguentar psicologicamente.

Tiveste jogos difíceis?
O meu segundo jogo como árbitro principal no futebol 11 foi em Mondim de Basto, era a eliminar e nunca pensei que me dessem. Correu-me super bem, gostei e se me dessem a oportunidade de ter mais jogos deste grau de exigência ia conseguir ser melhor.

O que deve mudar no desporto para mudar também a forma de ver os árbitros?
Primeiro os clubes deviam dar palestras aos próprios pais dos jogadores, pois são eles que causam os problemas e o mau estar em campo. Se os pais estiverem tranquilos os próprios jogadores também vão estar e vice-versa. Vejo isso muitas vezes, se os pais estão contra mim vejo perfeitamente os filhos desses pais, que vêm ter comigo e são arrogantes e maus. Depois há também os treinadores e dirigentes que deviam ter ainda mais castigos ou forma de penalização diferente para que evitassem os comportamentos que têm. O facto do árbitro ser o mau da fita já está dentro do nosso futebol, acho que nunca vai sair totalmente. Vai ser sempre o mau da fita, embora no futebol não haja bom ou mau da fita, o árbitro faz parte da fita.

Fora da arbitragem, o que queres seguir nos estudos?
Escolhi humanidades porque no futuro gostava de ir para o Instituto Superior de Polícia, e é preciso o exame de português, sei que as três áreas têm português mas humanidades identifica-se mais comigo. Desde pequeno que quero ser polícia e se conseguir vai ser muito bom.

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