O ano 2011 está à porta e Francisco Tavares, à frente dos destinos do município valpacense há mais de 25 anos, diz estar preparado para a crise e mostra-se optimista com o rumo do concelho.

Francisco Tavares

Diz-se que a crise terá ainda maior impacto no próximo ano. Como perspectiva o ano 2011 para o município?

Será difícil porque haverá menos receitas do Estado, do ponto de vista financeiro. Contudo, temos esperança em alguns fundos comunitários, que nos permitirão desenvolver obras significativas, que dotarão o concelho de outras infra-estruturas e serviços. Aliás, o nosso plano de actividades contempla uma série de projectos, já com garantias de financiamento, que irão transformar por completo toda a imagem urbana da nossa cidade e também do espaço rural.

Apesar da crise, apesar das dificuldades e apesar dos encargos constantes e recorrentes da câmara municipal, fruto das competências que têm sido transferidas para as autarquias, nomeadamente do Ministério da Educação e da Protecção Civil, direi que vamos ter um ano com crescimento e penso que vai ser um bom ano para a câmara municipal.

Admite medidas de maior contenção nas freguesias?

A contenção tem sido feita ao longo dos anos e a população ao estar preparada para tal é, neste momento, mais fácil lidar com a situação. Refiro-me concretamente à iluminação pública nas aldeias. Há mais de 20 anos que esta autarquia determinou que a partir da uma da manhã a iluminação no espaço rural está fechada. Essa medida permitiu um encaixe significativo na câmara de milhões de euros.

Naturalmente que há outros cuidados a ter neste momento de crise. Podiam haver outros gastos que, neste momento, não se podem ter. Cabe a cada autarca orientar o município para que o barco siga até bom porto, assim como cabe a cada chefe de família gerir a sua casa. No fundo é preciso ter mais cuidado ainda com as despesas.

Pode dizer-se que o município tem vindo a preparar-se para uma situação destas?

O nosso município tem vindo a preparar-se ao longo dos tempos. No edifício da autarquia só estão metade das luzes acesas, o que se traduz na contenção significativa de gastos, que não são necessários. O conforto mantém-se sem ser preciso ter a totalidade das luzes acesas, por exemplo. Os próprios funcionários sabem as regras da casa e são lhe incutidas este tipo de medidas.

Por mais pequenas que estas medidas possam ser, acabam por permitir a diminuição da despesa corrente da câmara. Em termos de pessoal, por exemplo, somos uma das câmaras municipais do país que tem menos funcionários na autarquia por cada 1000 habitantes. Os serviços funcionam bem e há equilíbrio na gestão.

Num outro serviço gerido pelos municípios, a AMAT tomou uma posição recentemente contra a Águas de Trás-os-Montes e Alto Douro. Qual é a sua opinião?

A Câmara de Valpaços penso que foi a última a celebrar o protocolo com a empresa ATMAD, um pouco pressionada pelas circunstâncias e com receio que caso não o fizesse não tivesse acesso a fundos comunitários nessa área. Fizemo-lo já convictos de que iria trazer encargos significativos.

A câmara municipal tinha a questão do abastecimento de água e saneamento resolvidos. Neste momento, as autarquias do Alto Tâmega tomaram uma posição contra a empresa porque tem sobrecarregado os municípios com encargos muito elevados, que são insuportáveis, a curto/médio prazo, pelas autarquias, criando um desequilíbrio financeiro nas mesmas.

Somos contra esta situação e, apesar de não sermos os mais queixosos, consideramos a situação muito preocupante. Não podemos estar a pagar a água a preços exorbitantes, quando a câmara municipal, com recursos próprios e infra-estruturas já disponíveis, conseguia ter preços muito mais vantajosos para os seus munícipes.

Como caracterizaria o Plano e Orçamento do Município para 2011?

É um plano realista e estou convencido que iremos cumpri-lo, não diria na íntegra, mas com uma taxa de concretização muito significativa, sobretudo em termos de projectos, que já têm financiamento garantido, através de fundos comunitários.

Dentro de um ou dois anos a visão urbana de Valpaços será completamente diferente.

Quais são as obras que destacaria a serem realizadas a curto/médio prazo no município?

Há várias, mas naturalmente que duas serão bastante significativas para o concelho. O pavilhão gimnodesportivo, uma infra-estrutura moderna, com todas as condições de última geração, que permitirá receber encontros de alta competição. Um projecto que penso que dentro de ano e meio estará concluído.

A nível cultural iremos ter também a Casa do Vinho, um edifício atractivo, que será importante para a preservação do património e também na atracção de visitantes e venda de produtos locais.

Estão a decorrer também as obras numa das entradas da cidade, de quem vem de Mirandela, obras no valor de 1 milhão de euros, que darão outro aspecto àquela via. Associada a esta temos a regeneração do centro histórico da cidade, que se traduz num investimento de 2,5 milhões de euros e que mudará por completo o visual, valorizando aquela zona da cidade.

Outra obra de frisar é a que abrange toda a envolvente do Centro Escolar, que está a decorrer, e que dará nova vida, àquela zona da cidade. Será um desenvolvimento acrescido para a massa urbana de Valpaços.

Noutros núcleos importantes, como Carrazedo de Montenegro, estamos a revitalizar o espaço urbano, com zona pedonal, espaços verdes, que tornam o centro da vila mais atractivo.

Estão já projectados mais quatro centros de dia/noite em freguesias, que são construídos com o apoio da câmara municipal, em parcerias com a Santa Casa da Misericórdia de Valpaços e outras IPSS locais. Destaco nesta vertente ainda o Centro de Actividades Ocupacionais para pessoas com deficiência, que vem colmatar uma necessidade existente não só no concelho, como na região, dando uma melhor qualidade de vida a pessoas com limitações.

Na sede de concelho irão avançar o Lar de Idosos e a Unidade de Cuidados Continuados, obras de investimento significativo, que contam sempre com o apoio da autarquia.

Existem outras obras emblemáticas para o concelho, que contribuem no seu todo para o crescimento e desenvolvimento da cidade e do concelho.

Falou-nos de obras novas. E em termos de utilização das que deixaram de ser utilizadas, como as escolas primárias em várias aldeias?

A câmara assumiu atempadamente que as escolas deveriam ser utilizadas. Primeiro demos prioridade às juntas de freguesia, se por ventura essas não tivessem destino a dar-lhe, colocámos à disposição de associações recreativas, desportivas e culturais locais, para que pudessem adaptá-las e usá-las para actividades. Se não houvessem interessados, a autarquia põe à disposição da misericórdia ou IPSS locais. Se todas estas situações não se registarem, a câmara municipal põe à venda, o que de facto só aconteceu numa freguesia.

O que interessa é dar-lhe um destino, para que não degradem e estejam ao serviço das populações.

No que toca à cultura e eventos, o orçamento mantém-se para o próximo ano?

Sim, o investimento será, basicamente, como nos anos transactos. Os encargos com a cultura e desporto manter-se-ão. A feira de S. João da Corveira, a Feira do Folar, a Feira da Castanha e as Festas da Cidade irão manter-se nos mesmos moldes e orçamentos que no ano passado. Queremos manter a qualidade, não gastando mais, nem menos, porque já nos últimos anos houve uma contenção de despesas. Vamos manter as mesmas actividades com os mesmos encargos.

Um dos problemas que afecta o país é o desemprego. Estão pensadas medidas específicas no sector da acção social, por exemplo?

Nota-se que há mais pedidos de apoio junto da câmara municipal, porque também existem mais empresas com dificuldades a laborar no concelho, sobretudo na construção civil, e também temos consciência que o sector agrícola, que é o predominante, tem dificuldades. Vai havendo, ainda, uma empregabilidade sazonal, na agricultura, mas não é suficiente.

De resto, temos obras municipais, que sabemos que são fundamentais para o sector da construção e vai mantendo muitas famílias. Em 2011 temos algumas que irão manter a empregabilidade no sector. O que me preocupa são os anos seguintes, em que haverá, por haver menos receitas, menos empregabilidade nesse sector. Acredito que haja uma crise crescente em termos de empregabilidade no sector da construção e outros, não só no concelho valpacense, como nos concelhos do interior do país.

Dentro do campo social, e em termos de apoios, a autarquia está atenta, mas há dificuldades que não estão ao nosso alcance solucionar.

Uma última questão desta entrevista teria que passar pela saúde dos valpacenses. Como está a situação do hospital?

O nosso hospital foi uma unidade que funcionou bem nos últimos anos. A empresa Lusipaços desempenhou o seu papel e criou uma unidade que é reconhecida a nível local e regional. Há uma série de valências que são exemplo disso e o seu trabalho não deveria ter sido posto em causa neste momento. A forma de gestão irá ser alterada e vai passar para a Santa Casa da Misericórdia de Valpaços, como o Ministério da Saúde impõe. O que eu sei é que era bom que as duas partes se entendessem, para bem do hospital, para bem do concelho e para bem da comunidade.

Tentei moderar o conflito existente, tentei compreender as duas partes. Não chegaram a acordo e acredito que a misericórdia tinha de reconhecer que a Lusipaços deveria estar mais quatro anos para que o contrato fosse cumprido sem sobressaltos. Assim não entenderam as partes e chegaram a um conflito que parece não ter solução à vista.

Antes do dia 6 de Janeiro iremos ter uma reunião com o responsável da União das Misericórdias, conforme solicitei, no sentido de encontrar uma solução final, que se traduzirá numa última tentativa para termos o nosso hospital, sem perder valências, nem perder o que conquistou até aos dias de hoje.

Cátia Mata

In A Voz de Chaves

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