Era uma vez um marido honesto que queria a todo o custo desmascarar as “facadinhas” da mulher, mas… não conseguia. Esta é a história que o Teatro Experimental Flaviense volta a contar nos próximos dias 4 e 5 de Outubro, atendendo a muitos pedidos de quem não viu a estreia.

“A rir se castigam os costumes”, já o dizia Gil Vicente em Portugal e… Molière em França. É precisamente a personagem “Jorge Dandino” deste mestre francês da comédia satírica que entra em cena no Cineteatro Bento Martins na próxima segunda e terça-feira, às 21h30, para apontar as hipocrisias da alta sociedade e não só.

A peça “Jorge Dandino ou um Marido Confundido” estreou com casa cheia em Fevereiro para comemorar os 30 anos do Teatro Experimental Flaviense (TEF) e subiu cinco vezes ao palco em Chaves, mas muitos não a viram e iam pedinchando uma nova oportunidade. Rufino Martins, director da companhia, faz-lhe agora a vontade. “Esta peça está entre os melhores trabalhos do TEF pela qualidade da encenação. Tem um cenário vistoso e imponente; o som, a luz e o guarda-roupa são fabulosos. Os actores têm muita experiência, o que faz com que a peça resulte em qualquer lado e que a crítica seja muito boa”, explica o director do TEF.

Mas afinal quem é Jorge Dandino? Um ingénuo e rústico aldeão que casa com uma fidalga sem dinheiro e rápido descobre as pérfidas intenções da senhora ao deparar-se com as suas infidelidades matrimoniais. Durante cerca de 1h20, oscilando entre situações cómicas e um desespero dramático, Jorge Dandino tenta desmascará-la, mas não consegue, já que a sogra também não quer perder a fortuna do genro. No fundo, “é um homem bom e honesto que tem a infeliz ideia de pensar que a fidalguia e o dinheiro deveriam andar de mãos dadas”, descreveu o encenador Ruy de Matos na estreia da peça. Mas ao contrário do ditado e ironia das ironias, “a trama da peça parece não os castigar pois persistem impunemente na sua conduta”, conclui o encenador do Teatro Nacional D. Maria II. É aqui que reside o génio singular de Molière.

“É uma peça de um grande autor. Molière é extraordinário. Esta é uma comédia, mas dá que pensar porque o personagem principal vê-se envolvido numa série de enganos por parte da mulher e da sogra, que dá pena dele”, comenta Rufino Martins. “Hoje, também há maridos enganados pelas esposas. Este tema vem quase do princípio do mundo aos dias de hoje. Esta é a maneira que Molière via um estrato da sociedade, que se reflecte também na actual”, conclui o director do TEF. “Jorge Dandino” andou este ano em itinerância e até ao final do ano deverá ser representada mais sete vezes em localidades dos distritos de Vila Real e Bragança.

“Os flavienses são amantes das diferentes formas de arte”

Com 30 anos de existência e mais de 50 peças encenadas, o TEF continua no activo e consegue atrair público de todas as idades. Todos os actores de “Jorge Dandino” são residentes da companhia flaviense, alguns desde o início. Entre actores e equipa técnica, são 25 os membros regulares (e voluntários) do TEF. Nesta peça, o actor que interpreta Jorge Dandino nem sequer reside em Chaves: Joaquim Lopes trabalha em Vila das Aves, no distrito do Porto, mas não se importa de fazer alguns quilómetros por amor ao teatro. “Em Chaves, as pessoas gostam de teatro. Estamos numa região privilegiada, os flavienses são amantes das diferentes formas de arte”, considera Rufino Martins.

Mais uma vez, a encenação desta peça é de Ruy de Matos, uma presença regular e experiente no TEF desde 1997. “Tem conhecimentos muito profundos de teatro, tanto teóricos como práticos, que vão desde a iluminação ao som, do cenário ao guarda-roupa. Fazemos um esforço económico grande porque queremos apresentar bons trabalhos!”. Desde o cenário ao encenador, apresentar uma peça deste calibre custa entre 10 a 15 mil euros. “Não é em vão que somos uma associação de utilidade pública reconhecida pelo Governo e recebemos a Medalha de Mérito Municipal Grau Bronze da Câmara Municipal de Chaves!”, nota Rufino Martins.

Antes da peça subir ao palco, haverá apenas dois ensaios durante o fim-de-semana, uma vez que os actores já a conhecem. Com o bilhete ao preço de cinco euros, o director do TEF espera repetir o sucesso de peças como a lenda de “Maria Mantela” (2006), ou seja, a lotação esgotada.

Sandra Pereira

loading...
Share.

Comentarios fechados.