Foi uma época cheia de problemas e casos para resolver  que ainda não terminaram. Pinto Barros, presidente da mesa da assembleia geral de sócios do GD Chaves, aborda a difícil época que há muito começou, com a queda da direcção,  e explica ainda que, em processo de insolvência,  é preciso de formar uma Sociedade Anónima Desportiva até dia 7 de Julho para ser considerada viável. Não se arrependendo das decisões que tomou, Pinto Barros explica que se foram fechando muitas portas na cidade e fala ainda sobre os possíveis investidores que poderão surgir para assegurar o futuro do Desportivo.


A Voz de Chaves: Voltaria a fazer o mesmo como presidente da mesa da Assembleia Geral do GD Chaves, agora que está quase a fazer um ano que a direcção do clube caiu?

Pinto Barros: Sem rebuscar muito a memória eu voltaria a fazer a mesma coisa, porque tudo aquilo que aconteceu foi tudo menos atitudes pensadas e puseram o clube na situação em que se encontra hoje, ou pelo menos ajudou a isso. Essa tentativa de destituição não teve contra-partidas e o Dr. Mário Carneiro fez a vontade a esse grupo de sócios e demitiu-se a meio do mandato mas até agora nunca surgiram alternativas para assumir os destinos do clube. A partir deste ponto existiram duas assembleias muito concorridas e muitas outras e Mário Carneiro tentou sair, mas nunca deixei e ele ficou a comandar o clube com poderes de gestão para o lançamento da época desportiva. Tive sempre o cuidado de gerir as assembleias sem levantar os ânimos e na tentativa de que no termo do mandato de Mário Carneiro alguém aparecesse, mas não surgiu. Voltava a fazer o mesmo porque todas as minhas acções foram no sentido de ajudar o clube.

 

Enquanto presidente da mesa consegue perceber como uma direcção tem uma moção de censura em cima mas ninguém aparece como alternativa? Alguém se apresentou a si com vontade de assumir o clube?

Nunca ninguém me disse que ia avançar e tenho alguma dificuldade em perceber como é que as pessoas agiram assim. Fui muito criticado, mas as críticas de onde vinham não tinham relevância. Mas as pessoas têm de concordar que quando queremos deitar abaixo uma casa é porque temos à partida um sítio para ir morar e depois não me vou queixar contra mim próprio porque não tenho sítio para morar e estou debaixo da ponte.

 

A solução foi continuar com Mário Carneiro… Foi a melhor?

A culpa morre muitas vezes solteira e nunca ninguém quer que lhe saquem responsabilidades, O Mário Carneiro fez várias tentativas para abandonar o Desportivo de Chaves mas eu opus-me sempre e acabou por ser de acordo com ele porque o clube não podia ficar num vazio directivo. Os poderes de gestão que estão previstos nos estatutos funcionaram como uma coisa provisória que se tornou permanente e o Mário Carneiro acabou por cumprir todo o mandato. Se eventualmente não tem acontecido o que aconteceu, a época teria corrido de forma normal, com alguma paz e serenidade e também quase de certeza que não teríamos chegado a esta situação. Agora, quando um grupo de sócios quer que a direcção abandone tem que encontrar uma solução. Aconteceram também os problemas das quotas, pois muita gente dizia que não pagava enquanto Mário Carneiro continuasse no clube. Mas agora que saiu do clube e se afastou as pessoas agora “vamos ver como isto fica e depois pago as quotas deste e do próximo”. Disse também numa das assembleias que se calhar a culpa era minha porque agora não faz sentido que as pessoas não paguem as quotas tendo saído o motivo do não pagamento.

 

Depois de iniciada a época ficou a ideia que ninguém assumiria o clube com a época preparada por outra direcção. Porque continuar a marcar assembleias?

Também fui criticado por isso, pois na sequência dessas assembleias e interrupções e continuações acabei por fazer um número excessivo de assembleias. Eu acho que foram as possíveis na perspectiva que na vez seguinte aparecesse alguém. Teve a ver com a tentativa que fiz de não ceder às vozes para fechar. Posso dizer que tive até curiosidade em saber se caso marcasse a assembleia para votar o fim do clube se muitos sócios iriam a correr pagar as cotas para poderem votar. As sucessivas assembleias explicam o meu trabalho e sacrifício para encontrar solução para não atirar a toalha ao chão.

 

Falou-se muito na cidade que este seria o final do clube. Pensou em marcar a tal assembleia decisiva para votar essa proposta?

Muito sinceramente houve momentos em que hesitei mas pensei que as desvantagens era maiores que as vantagens. A partir de certa altura, em que passamos por dificuldades terríveis, mesmo tenebrosas, em que não tínhamos dinheiro para mandar cantar um cego como se costuma dizer, pensei em convocar a assembleia, não obstante de ter tido pressões para isso. Passou-me pela cabeça mas acabei por concluir que eram muito piores os prejuízos. Por exemplo, caso o clube tivesse sido dissolvido, haveria consequências gravosas pela falta de comparência, castigos e multas.

 

Fecharam-se muitas portas na cidade quando procurou uma solução?

Fecharam-se muitas portas e de três formas. Umas nunca se abriram, outras entreabriram-se e fecharam-se e outras fecharam-se e foram trancadas a sete chaves. Algumas portas que pensei que se poderiam abrir não chegaram a fazê-lo e as que pensei que estavam abertas fecharam-se. Foi uma surpresa relativamente a isso.

 

Sentiu-se completamente só?

Foi muito difícil mas houve portas que se abriram e houve pessoas que ajudaram e não quero nomear para não me esquecer de alguém. Mas houve pessoas que foram inexcedíveis na procura e solicitação de ajuda. Felizmente acabei por não me sentir sozinho.

 

A insolvência acaba por ser um mal menor?

A insolvência tem duas vertentes. Genericamente é má. Mas tem uma vantagem de provocar uma situação que ninguém queria. A insolvência permite renegociar as dívidas e permite encarar o passivo com uma certa redução a partir do momento que haja uma redução por parte dos credores no sentido de viabilizar o clube. Eles melhor que ninguém saberão o que fazer, quer em favor dos direitos deles, quer em favor do clube.

 

O que pode contar sobre o processo? Há facilidade e vontade dos credores em ajudar?

Não tenho conhecimento directo da situação. Pelo que me vai sendo transmitido não tem existido grande dificuldade de negociação. Sei que os números são relativamente elevados mas que também há dívidas que ainda não estão reconhecidas, enquanto outras já. Haverá disponibilidade de alguns credores para viabilizar o clube através do perdão de capital e juros. Agora devido a problemas processuais e técnicos ainda não foi possível nas duas assembleias de credores a juíza proceder a uma decisão porque estava pendente a resposta a um despacho que ainda não foi decidido. Não pode haver nenhuma decisão enquanto estiverem por decidir questões prévias.

 

Surge agora a necessidade de criar uma Sociedade Anónima Desportiva…

Houve alguns investidores que se disponibilizaram para investir numa SAD e muito sinceramente tenho conhecimento que serão um, dois ou três maioritários e a partir dos próprios credores do clube que puderam encarar essa possibilidade, pelo menos pelo que me é transmitido. Essa SAD pode viabilizar o clube por uma razão simples, porque leva ao escalonamento de dividas e leva à transformação do clube, mantendo-se na mesma o clube. Acontecerá, tal como acontece no Sporting, Porto ou Benfica, mas numa escala mais pequena. Esta é a única solução mas também é importante não esquecer que se alguém quiser investir no clube e fazer do Chaves um clube de primeira divisão, uma placa giratória de jogadores com rentabilidade, sabemos que a partir da constituição da SAD parte-se de uma II divisão e se os investidores quiserem apostar no Chaves em dois, três anos poderão chegar à primeira divisão. Eventualmente se for para a insolvência do clube, começando do zero, têm de partir dos distritais e há bons exemplos das dificuldades em subir com o Farense e o Salgueiros.

 

Entende então que este é o momento ideal para investir…

Sem dúvida. O clube parte de uma posição atractiva nos campeonatos nacionais, parte com as dívidas controladas e com o conhecimento directo da situação, o que significa que em dois, três anos pode estar numa primeira divisão.

 

Oficialmente ainda não foram falados os nomes dos possíveis investidores. Não seria melhor serem divulgados, pelo menos na assembleia de sócios?

Sobre os nomes que me vão sendo transmitidos, não tenho autorização para revelar qualquer um deles. Mas sobre estes potenciais investidores sei que são pessoas credíveis e sérias, que me parece que não são pára-quedistas e são pessoas no puro sentido do termo “investidoras”. Aquilo que eu vejo não é nada verdade porque ainda não vi nada, mas aquilo que oiço se for verdade é muito. No entanto aquilo que vou ouvindo dá-me elementos sobre pessoas credíveis e sérias que não andam aqui a brincar.

 

Vivemos então uma fase de espera por novidades…

Sim, vivemos uma fase de espera. No dia 8 de Junho está marcada uma assembleia de sócios para votar a criação ou não de uma SAD e aí os sócios vão dizer aquilo que entenderem. Dia 7 de Julho está marcada nova assembleia de credores. A juíza foi bem clara neste aspecto e não há mais tempo para decidir, nem para o tribunal nem para o clube, pois logo a seguir começa o lançamento da época e é mesmo a última oportunidade. Ou a SAD ou a insolvência completa.

 

Vai existir alguma explicação aos sócios antes de 8 de Junho acerca da SAD?

Entre a primeira sessão e a segunda da última assembleia houve este facto novo que foi o adiamento da assembleia de credores e a segunda sessão não foi desmarcada para informar sobre o que se iria fazer a seguir, precisamente para dar uma explicação muito sumária e muito simples daquilo que iria acontecer. Pedi até aos sócios que estiveram presentes para que servissem de fermento para que a próxima assembleia seja muito concorrida. Mesmo na última sessão da assembleia foi já falado um pouco sobre a SAD e estou disponível e tentarei responder às dúvidas que os sócios tenham no dia 8 de Junho.

 

Mas que tipo de votação será feita na assembleia?

Será votado ser ou não criada a SAD. É natural que se definam já algumas regras básicas de funcionamento na perspectiva de saber as características da SAD, mas será sempre uma Sociedade adaptada às contingências de uma II divisão. O caso recente do Beira-Mar é diferente, porque um grupo qualquer comprou cerca de 80% , mas estamos a falar de uma 1ª divisão o que não é exactamente a mesma coisa.

 

Mas no caso do Beira-Mar o investidor tem a intenção de liquidar as dívidas do clube, como poderá ser no Chaves?

Provavelmente a partir do momento que o plano de viabilização do clube avance haverá uma calendarização de pagamento com valores e um faseamento definido.

 

Na sua perspectiva qual seria a melhor solução para o clube?

Acho que não temos grande escolha. Ou será constituída a SAD ou é o fim. No dia 8 de Julho ou será a certidão de óbito do Chaves ou o renascer das cinzas. Eu continuo a dizer que é melhor o renascimento.

 

Seria preferível o clube ir para a assembleia de credores já com pelo menos um investidor assumido?

Não podemos queimar etapas e não podemos tentar antecipar aquilo que vai acontecer. O mais importante neste momento é que os sócios têm que se pronunciar no dia 8 de Junho. Se não for criada a SAD, no dia 7 de Julho acaba o clube e o dia seguinte, feriado municipal, será de luto, ou então as pessoas votam pela constituição da SAD e a situação será diferente e poderá ser positiva.

 

Já pensou que tipo de SAD deve o clube criar?

Ainda não sinceramente. A SAD terá de ser pensada quase como um modelo híbrido devidamente adaptado às condições da II divisão, pois não existem muitas SAD’s nesta divisão, talvez o Boavista e pouco mais. Primeiro é preciso decidir e se sim avançaremos para a formação da SAD e estou convencido que em 20 dias se poderá formalizar o processo.

 

Tem receio que o clube possa fechar portas consigo como presidente da mesa da assembleia?

É uma hipótese e digo que eu não sei quais foram todos os presidentes das últimas assembleias mas o que eu duvido é que possa haver um presidente da mesa que tenha tido os problemas que eu tive. Com algum cuidado, equilíbrios e serenidade consegui chegar até aqui e gostaria que alguém conseguisse arranjar um novo presidente da mesa porque aquilo que eu passei este ano não o desejo a ninguém.

 

Consegue imaginar porque é que as pessoas ficaram com uma ideia tão má das pessoas que estavam no clube e que o Chaves teria de acabar?

Consigo. São coisas que começam nos ditos e não ditos. Por exemplo se eu disser que alguém assaltou um banco, toda a gente ficará a saber que assaltou, embora não o tenha feito. Mas se essa pessoa puser em tribunal quem o difamou e for absolvido esse desmentido não chega a metade das pessoas que souberam que essa pessoa teria assaltado um banco. As relações pessoais, quando estão inquinadas, só prejudicam e as pessoas não deviam misturar relações pessoais, com profissionais, políticas, desportivas e religiosas. O que eu não consigo entender é como as pessoas falam fora mas não são capazes de pagar as quotas para irem discutir isso na assembleia.

 

Falta união no Desportivo…

Falta união nas pessoas, falta capacidade de ultrapassar os problemas, falta capacidade de pôr problemas pessoais menos bons de lado, falta capacidade de união à volta do Desportivo de Chaves, falta capacidade de deixar de lado aquilo que é secundário e focar no essencial, falta alguma capacidade de visão.

 

Apesar da época difícil, continua disponível para ajudar o GDC?

Boa pergunta e muito sinceramente antes de responder teria de pensar alguns minutos porque gosto de pensar nas coisas antes de abrir a boca… se muita gente tivesse pensado assim muitos problemas teriam sido evitados. É importante pensar dois segundos antes de falar um. Posso dizer que estou disponível para ajudar o clube mas nunca nos moldes actuais pois isto é muito superior às forças de uma pessoa. Ocupou-me muito tempo e com diversas interrupções no meu local de trabalho, o que é prejudicial uma vez que preciso do trabalho para viver.

 

Mesmo tendo em conta as dificuldades já conhecidas que avaliação faz da equipa que acabou em terceiro lugar no campeonato?

Foi um milagre. A dada altura, embora não o tenha dito publicamente, vi as coisas muito mal paradas. Mesmo com estes problemas, se as coisas tivessem corrido de maneira um pouco melhor o Desportivo teria estado pelo menos mais próximo de lutar pelo primeiro lugar, e até à última. Só tenho que dar os meus parabéns aos atletas pelo profissionalismo.

Diogo Caldas

 

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3 comentários

  1. Sem palavras…. estou longe e sabia das dificuldades q o clube atravessava, mas nao pensei q estivessemos tao “caídos”. de todas formas penso que os socios vao ter o bom censo de votar favoravelmente a sad, s eu pudesse estar na assembleia certamente q o faria.
    penso que se o gdc resistir (q vai resistir) muito temos de agradecer a este sr. que nunca desistiu, nem se deixou levar por essas vozes que queriam fechar o grande clube que é o gdc… o rpoximo presidente (ou comissao administrativa)deveria levantar um busto do sr Barros no estadio… sim porque os reconhecimentos devem ser feitos enquanto as pessoas estao vivas, nao so depois de mortas…
    p.s. sr. Barros de um Flaviense (verdadeiro) desde burgos (espanha) um MUITO OBRIGADO por tudo.

  2. Carlos ventura on

    Caro consorcio, tem andado distraído.

    Este senhor é um dos grandes responsáveis pela situação do clube!!! Se o clube acabar (eu acredito que não) este senhor e o presidente Mário Carneiro serão os grandes responsáveis, serão os coveiros.
    As assembleias de Chaves foram todas realizadas na ilegalidade.

  3. caro amigo, como referi em cima estou no estrangeiro, e nao tenho acompanhado mt a actualidade do clube (pelo menos ate ter descoberto esta pagina, pk nenhuma outra se digna a dar noticias do gdc, mas enfim isso é outra historia), pesso desculpa se ofendi susteptibilidades, mas o meu comentario remete s a esta entrevista, e s a ler com atençao este sr numa das respostas diz que se nao fosse por ele, o clube tinha fechado portas no momento que o abaixo assinado entrou na assembleia… eu era a favor desse abaixo assinado, contudo fiqei bastante desiludido quando soube que tinhamos conseguido demitir o sr mario, mas que nao tinhamos ninguem que o substituisse. o sr barros deu mutio do seu tempo para k o gdc se mantivesse vivo ate chegarmos a esta situaçao (hoje podemos dizer q os socios votaram favoravel a sad, e o gdc pode ter futuro), portanto eu como socio do gdc so tenho de agradecer q tenha lutado tanto em prol do clube. se as assembleias foram ilegais ou nao, sinceramente nao me importa mutio, o que me importa é que no natal (a ultima vez que fui a chaves) o clube estava a beira de fechar portas) hoje 11 de junho 2011, temos via aberta para constituir uma sad, e temos uma comissao administrativa que leve o gdc de novo a competiçao… sao opiniões e esta é a minha… como dizem por estes lados… “para gostos diferentes, há muitas cores”.
    saudaçoes
    e FORZA GDC

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