Há 20 anos, a Feira do Fumeiro de Montalegre nascia “numa garagem onde cabiam três carros. Nessa altura, andei a pedir às pessoas para ir lá vender”, recorda Fernando Rodrigues, presidente da Câmara Municipal de Montalegre. Hoje, muito mudou. O certame tem “instalações próprias, mais negócio, mais promoção, mais investimento, melhor imagem e maior projecção do concelho”, considera. Em entrevista à Voz de Chaves, o autarca traça um balanço de 20 anos de existência do maior evento dos barrosões do Norte.

Este ano, a Feira do Fumeiro faz 20 anos. Como vai ser celebrada esta data em ano de contenção financeira?

Temos de celebrar alguma coisa! Estas datas fazem parte da história e da memória. Por isso, a autarquia vai provavelmente gastar mais algum dinheiro do que nos anos anteriores porque damos um prémio aos produtores, que é não pagar o aluguer do pavilhão, e vamos ter uma despesa suplementar porque queremos criar um aspecto mais bonito, atraente e sóbrio dentro da própria feira. É um evento que custa mais de 80 mil euros, mas conseguimos uma parceria com a ACISAT, que vai ajudar a suportar algumas despesas de animação e promoção. Vamos cortar nos brindes, mas não é significativo.

Como tem sido a evolução da Feira ao longo destes 20 anos?

A Feira tem crescido todos os anos e é um negócio excepcional. Mesmo assim, está muito longe de dar o resultado que podia dar. É um filão que continua ainda por explorar. Às vezes, digo aos produtores que tenho vergonha de ter aqui um filão que não está a ser aproveitado e tanta gente que não trabalha e não aproveita este sector. Da parte da Câmara, temos a consciência tranquila que temos feito tudo. Temos feito um investimento muito grande, que começou pelo próprio edifício para a Feira. É sem dúvida um grande certame e uma grande fonte de negócio, que se faz dentro e fora da feira. Nestes últimos 20 anos, aproveitámos mal.

O que foi mal aproveitado?

O negócio em si! O presunto pode vender-se mais caro! Não é vender dois milhões! Podemos vender 10 milhões na feira e 30 fora! O nosso presunto tem qualidade, tem nome, tem fama e tem condições para entrar no mercado a preços muito melhores. Falta formação empresarial. As pessoas sabem produzir, mas vender… é mais difícil. Não há sentido empresarial, nem de risco. Às vezes também não há possibilidades de investir. As pessoas conseguem comercializar o presunto com pouco investimento, mas para ganhar escala tinham que fazer investimento, criar pequenas fábricas para poder vender durante o ano em quantidade. O nosso produto é bom, não temos é produção para os potenciais clientes que temos.

A Câmara não tem apostado na formação?

Temos dado cursos, estamos a apoiar uma associação, já levamos os produtores a Espanha para tomarem conhecimento de como se produz em quantidade sem alterar a qualidade, como uma exploração familiar sem grandes encargos consegue produzir centenas e milhares de presuntos para ver se aparecia alguém capaz de avançar com investimentos nessa área. Ao fim destes anos, temos uma fábrica [Fumeiro de Barroso] com cerca de 30 funcionários que produz com qualidade, mas deviam ser quatro ou cinco!

O número de produtores cresceu?

A produção vai aumentando ligeiramente, vai havendo uma maior profissionalização, mas de poucos… porque há sempre uma tentativa de resistência às regras, à mudança e às leis. Se não houvesse esta pressão da Câmara e das entidades, a produção estava como há 20 anos. Hoje temos cozinhas licenciadas com todas as normas de higiene e sanidade, temos produtores com outra consciência. Apesar de tudo, há uma mentalidade que isto não é uma actividade secundária e pobre, mas que pode ser rentável.

Como é que imagina a Feira daqui a 20 anos?

Acredito que teremos futuro melhor, mas as coisas têm que mudar muito. Os produtores actuais de fumeiro são os mais idosos e, se continuar assim, daqui a 20 anos não vejo uma feira melhor. Mas acredito numa feira melhor porque muita gente nova vai ter aqui a sua oportunidade e vai ter que a aproveitar, o que não aconteceu até agora. Aí teremos gente com mais garra, melhor preparação, com mais ambição e mais capaz de aproveitar o negócio.

Sandra Pereira

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