Aos 89 anos, Nadir Afonso garante que tem “uma vida inteira de trabalho”. Uma verdade bem espelhada na vastidão da sua obra, que pode ser apreciada até 30 de Setembro na Biblioteca Municipal de Chaves na exposição “Homenagem a Nadir Afonso”, integrada na Bienal de Arte de Chaves 2010. Em entrevista ao “A Voz de Chaves”, o Mestre confidencia que continua a gostar de passar os Verões na terra natal, Chaves, a pintar até se “sentir cansado”. Se garante que a origem transmontana não influenciou o seu trabalho, não deixou certamente de marcar o seu carácter: simples, espontâneo e autêntico.

A Voz de Chaves: Expõe regularmente em Boticas e Chaves. Como sente cada nova exposição na sua região natal?

Nadir Afonso: Tinha quatro anos quando comecei a borrar telas, mas comecei a expor aos 18 anos quando cheguei ao Porto. [Agora] Os meus filhos procuram fazer as exposições, eu já não faço nenhumas! Pinto! Não faço mais nada.

Quais as suas expectativas para a Fundação Nadir Afonso que vai nascer em Chaves e o Centro de Artes em Boticas?

Acho muito bem, mas com 90 anos já não espero coisa nenhuma.

Mas vai permitir perpetuar a sua obra e fazer com que a compreendam melhor?

Seria interessante… Espero que sim, que a compreendam melhor.

Pode também aliciar mais jovens a compreender o mecanismo da criação?

Aos jovens, só lhes posso dizer isto: trabalhem! Se o jovem começa a acreditar que é predestinado e tem um mundo interior na sua obra, não trabalha!

Uma das razões que o levou a abandonar a arquitectura e isolar-se na pintura foi para “trabalhar e meditar no que estava a fazer”. É essa a chave do sucesso?

Pois é! A minha grande paixão foi trabalhar o diálogo entre as minhas formas. A arte, a meu ver, é um espectáculo de exactidão. As pessoas dizem “que lindo rosto de mulher!” e eu digo não! É um rosto de mulher como qualquer natureza faz, mas o artista realçou essa perfeição com leis matemáticas.

A par da matemática, a sua origem transmontana teve influência na sua obra?

Nenhuma! Dizer “pintura da vanguarda”, “pintura clássica” … é tudo mentira! Toda a obra tem que ter leis matemáticas. Só que isso é inconsciente…

Chamam-lhe o “mestre da pintura geométrica”. Como é que definiria a sua arte?

É a obra de um maníaco que acreditou que a arte tem lei e que a andou a procurar toda a vida.

Vem muitas vezes a Chaves?

No Verão, passo aqui muito tempo. Agora ando a reboque, quem controla são os meus filhos e a minha mulher. Se eles podem vir, eu venho. Tanto trabalho em Chaves como em Cascais, mas tenho aqui muito trabalho e dá-me prazer vir cá.

Conhece alguns artistas da região que mereciam ser reconhecidos?

Na região, não conheço ninguém. Sou muito exigente. Em Portugal, bons artistas conheço muito poucos. Lá fora, o Max Ernst e Picasso são grandes pintores. Nos contemporâneos, Vasarely, Herbert são grandes pintores, mas são muito desconhecidos!

E a sua obra? Sempre foi bem reconhecida?

Foi bem reconhecida no princípio. Depois, fui para França e deixaram de falar de mim. Mas voltei para Portugal e agora acho que sim.

Gostava que os seus [dois]filhos também pintassem?

Sim, mas num meio destes, pode ser bom pintor e ser desconhecido, pode ser arredado pela política.

Com 89 anos, o que mudou no modo de pintar?

Vejo hoje coisas que não via há 50 anos. Aos 20 anos, acreditava na perfeição, na originalidade… Mas ao trabalhar as formas, fui trabalhado por elas. E, pouco a pouco, fui começando a sentir que tudo tinha que ser realçado pela matemática.

Com que frequência pinta?

Enquanto não me sentir cansado, tenho prazer em olhar para as formas que considero harmoniosas. Sinto muita harmonia nos meus quadros e tenho vontade de os retocar e melhorar. É uma paixão. Mas tenho muitos em estudo. Quanto mais um indivíduo contempla um quadro, mais sente os seus defeitos e qualidades. É preciso namorar muito tempo um quadro.

Ainda bate à porta de coleccionadores para retocar quadros?

Agora já não o faço, praticamente já não saio de casa. Fisicamente, estou debilitado, já não tenho a força física que tinha aos 20, mas tenho a impressão que a minha sensibilidade não debilita. Até aumenta.

Como olha hoje para a panificadora que projectou em Chaves?

É um trabalho perfeito, original, mas não obedece a leis matemáticas nenhumas!

Sandra Pereira

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