Jorge Braz conta que o facto de ter saído de Chaves para a universidade foi decisivo para se ligar à modalidade. Quanto ao futuro, vê-se “a trabalhar no futsal, procurando sempre evoluir”. Agora à frente dos destinos da selecção, uma das preocupações passa por dar aos jovens melhores condições para aprender porque, conforme explica, qualidade inata existe em grande número.

A Voz de Chaves – Qual a sua ligação à região de Trás-os-Montes?
Jorge Brás – A minha infância decorreu na região de Trás-os-Montes. Apesar de ser natural do Canada, vim para Portugal com 8 anos, residir para Sonim, concelho de Valpaços. A partir do 9º ano de escolaridade, residi em Chaves frequentando a Escola Secundária Dr. Júlio Martins. O motivo da minha ida para Chaves foi o futebol, com o ingresso nos juniores B do Grupo Desportivo de Chaves.
O que lhe deu Chaves para ser quem é hoje?
Recordo com elevado positivismo a minha aprendizagem escolar, a qualidade dos professores da opção de desporto  e o consequente início das aprendizagens desportivas, teóricas e práticas. A experiência no Grupo Desportivo de Chaves foi fundamental no meu desenvolvimento desportivo. Foram anos/épocas desportivas muito importantes.
Do futebol no Desportivo de Chaves para o futsal, como se deu essa mudança?
Quando ingressei nos seniores, ingressei simultaneamente  na faculdade. Este facto, obrigou-me a treinar no Porto, com a ajuda e consentimento do “mister” Romão (ajudou-me a tomar as decisões correctas na altura). Comecei a jogar nos campeonatos universitários  de futebol e por vezes Futsal. Após uma participação no Campeonato Nacional de Futsal Universitário fui convocado para a Selecção Nacional Universitária, na altura  já orientada por  Orlando Duarte. Nasceu aí, a minha grande paixão desportiva. Nunca mais regressei ao futebol.
Como correu o mundial universitário?
Em termos competitivos o mundial fica marcado pela derrota nos quartos de final com a Rússia por 1-0. Apesar de ser uma selecção extremamente forte (campeã  europeia de Sub-21 em 2008), o jogo podia ter caído para o nosso lado. E a partir daí…
São muito grandes as diferenças de nível entre os jovens portugueses e os restantes países europeus?
Acho que não. O problema é que outros países estão a preparar com alguma qualidade o futuro, com selecções jovens, estágios constantes e reformulação de quadros competitivos.
São muito diferentes as realidades no futsal?
Nós temos muita qualidade inata, nem sempre objectivada em termos de conhecimento do jogo, domínio dos princípios gerais e específicos. Em relação a alguns países, temos um défice de volume de treino no processo de formação dos nossos jogadores. Os nossos jovens treinam duas ou na melhor das hipóteses três vezes por semana, e às vezes em condições débeis.
O que devia ser feito para nos aproximarmos dos países com mais qualidade?
Já referi algumas  coisas que acontecem noutros países. Algumas dessas medidas estão a ser equacionadas e projectadas.
Ainda acompanha a região de Vila Real no futsal?
Claro, existem já equipas de referência do Futsal nacional na região de Trás-os-Montes, pelo que me obriga a estar constantemente presente.
Como viu os casos do Boticas na primeira, Chaves Futsal na segunda e Valpaços na III?
Com agrado. É importante até pela descentralização desportiva, um caso cada vez mais evidente. São das poucas equipas  de desportos colectivos presentes nas principais competições da respectiva modalidade a figurarem numa região do Interior do país.
O Interior norte está a marcar uma posição no futsal nacional? Parecem-lhe projectos sustentáveis?
É uma região com forte implementação do Futsal. Sempre houve uma adesão e motivação especial pela modalidadel. Recordo os tempos da Favorita e da Pontauto, clubes, na altura, importantes no Futsal.
A sua carreira está a ter a ascensão que esperava no futsal? Foi o que sempre quis?
Nunca me preocupo com a minha carreira, não consigo ver as coisas dessa forma. Preocupo-me sim  com o Futsal. O importante é sentir-me útil e motivado para as obrigações que me colocam, qualquer que seja o nível competitivo.
Onde é que se vê daqui a uns anos?
Vejo-me a trabalhar no Futsal, com a máxima qualidade e empenho, procurando sempre uma evolução constante. O que interessa é a procura da excelência, rigor e de um grande compromisso com as tarefas inerentes à função. Isto para o Futsal, esse sim, ter sucesso. Em termos pessoais, não me preocupo.
Gosta de regressar a Trás-os-Montes para trabalhar ou no futsal esse tipo de planeamento é complicado?
Regresso com alguma frequência  a Boticas, Chaves, Mogadouro e Vila Real. É com enorme satisfação, pois dá para juntar o útil ao agradável e rever imensos amigos.
Em relação à selecção, quais são  os objectivos mais próximos? Está em fase de mudança? Há jovens com valor suficiente para manter a qualidade?
O próximo objectivo é o Europeu de 2012 que irá decorrer na Croácia. Portanto, nesta fase, estamos preocupados com o apuramento. De modo a preparà-lo, iremos participar no Grand Prix, um torneio de enorme prestígio, com as melhores selecções mundiais. Mudança, não continuidade de competência. Existem jogadores com competência, existe a necessidade é de aumentar a quantidade dessa qualidade existente.
Casos como o do Boticas e do Mogadouro que tiveram que apostar no futsal brasileiro para subirem de divisão preocupam-no enquanto seleccionador de futsal? Ou o problema não começa por aí?
O excesso de jogadores brasileiros limita espaço para portugueses, no entanto, os jogadores brasileiros de qualidade  trazem qualidade à competição  e ajudam o jogador português. É necessário encontrar um ponto de equilíbrio, de modo a potenciar a competência, independentemente da sua origem.
Enquanto seleccionador que ideias tem para a formação dos jovens futsalistas? Ainda existe em demasia o fenómeno de os jovens serem formados em futebol 11 e depois passarem para o futsal?
O Futsal necessita de evoluir estruturalmente com a participação dos intervenientes, da base da estrutura da modalidade. Em Portugal, costumamos estar sempre à espera que outros resolvam os nossos problemas, perante isto torna-se difícil potenciar o associativismo à volta da modalidade   que todos tanto gostamos.
Jorge Braz Perfil:

Desde Julho de 2010 é seleccionador nacional de Futsal, mas a carreira   começou muito antes, no futebol 11, no Grupo Desportivo de Chaves. Depois de fazer a formação no clube flaviense, chegou a altura de entrar na universidade, e foi aí que começou a ter contacto com o futsal, modalidade que nunca mais abandonou, quer como jogador, quer depois como treinador.
A carreira de treinador começa em 1997, na Universidade do Minho, onde esteve até 2004. Pelo meio, de 2001 a 2003, passou pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. A passagem pela Fundação Jorge Antunes, de 2004 a 2007, valeu-lhe um terceiro lugar no Campeonato Nacional da 1ª divisão. Na selecção universitária  conta já com um campeonato mundial universitário masculino e um vice-campeonato mundial universitário feminino.
A participação de Jorge Braz na selecção nacional de futsal começou em 2003, mas foi a partir de 2006 que passou a fazer parte, em definitivo, da equipa técnica. Desde então tem tido funções de “orientação e condução do processo de treino, assim como a planificação,  avaliação da sua execução, bem como a análise dos jogos efectuados pela Equipa das Quinas e respectivas estatísticas e a observação e caracterização dos adversários”, explica o sitio da FPF. Em Julho de 2010, com a saída de Orlando Duarte, Jorge Braz assumiu o comando da selecção nacional de futsal.
É licenciado em Educação Física pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade do Porto, e tem um mestrado em Ciências do Desporto na especialização de Treino em Alto Rendimento Desportivo.

Diogo Caldasdcaldas12@gmail.com

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