Esclarecer os flavienses sobre as consequências da construção das barragens no Rio Tâmega e ao mesmo tempo informar sobre o estado atual de poluição em que se encontra o mesmo foram os objetivos da tertúlia organizada pela Associação de Moradores do Centro Histórico de Chaves (AmoChaves).

IMG_3477Para a mesa de debate foram convidados dois grupos ambientalistas nacionais, o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (Geota) e a Associação Nacional de Conservação da Natureza (Quercus).
Já o Salão Nobre da Sociedade Flaviense foi pequeno para acolher as várias pessoas que fizeram questão de saber um pouco mais e de dar a sua opinião sobre um dos principais assuntos que dominam diariamente as conversas na cidade.
O rio Tâmega é para muitos sinónimo de nostalgia pelos tempos em que ainda era possível “ir a banhos” nas suas águas, como era exemplo disso o Açude, em Vila Verde da Raia, transformado por centenas de pessoas em praia fluvial nos meses de verão. Para outros é sinónimo de preocupação devido às águas poluídas que correm por ele e que comprometem as culturas agrícolas e vitivinícolas bem como a atividade piscatória.
A Geota foi a responsável por introduzir o tema das barragens, contextualizando a temática e ao mesmo explicando à plateia as principais consequências da construção das barragens sobre o rio Tâmega.
Lançado em 2007, o Programa Nacional de Barragens prevê a construção de seis grandes barragens no país. Na bacia do rio Tâmega estão previstas a construção de quatro grandes barragens para aproveitamento hidroelétrico. A barragem do Alto Tâmega que será construída perto de Vidago, está prevista ainda a construção de outra barragem para Daivões (Ribeira de Pena), outra barragem irá aparecer num dos afluentes do rio Tâmega em Gouvães (Sabrosa) e por último, em Fridão (Amarante). A obra está a cargo da empresa espanhola Iberdrola, que pagou cerca de 300 milhões de euros pela concessão ao Estado, sendo que a EDP pagou 220 milhões de euros.
Para a ambientalista, com a construção das novas barragens, a região irá perder para sempre as potencialidades naturais que se irão refletir na economia local, nomeadamente ao nível do turismo de natureza e ao nível da produção agrícola.
“Com a construção das barragens passamos a ter um lago com água artificial. A água quando aumenta a temperatura, especialmente no verão, tem tendência a acumular todos os poluentes, o que leva ao aumento da poluição. Sendo o rio Tâmega um rio fortemente poluído a construção destas barragens vai aumentar ainda mais a sua poluição. A ideia de podermos voltar áquilo que foi bom no passado vai ficar para trás”, notou Ana Galvão.
A responsável da Geota enumerou outros dos impactos ambientais que a construção das barragens sobre o rio Tâmega iria trazer: aumento dos gases de efeito de estufa, diminuição da quantidade de água existente nos poços adjacentes às barragens, haverá igualmente maior erosão uma vez que as barragens retêm grande parte dos sedimentos que são transportados pelos rios e haverá a alteração microclimática na região, havendo mais humidade no ar que irá afetar sobretudo a produção vitivinícola.
“Existem outras soluções e soluções que não põem em causa os nossos recursos”, sublinhou Ana Galvão e dando como exemplo o “enorme” potencial que o país tem na produção de energia elétrica através da energia eólica.
Por seu lado, coube ao responsável da Quercus, João Branco, abordar a temática sobre a poluição do rio Tâmega, frisando ao mesmo tempo que a construção das barragens viola a Diretiva Quadro da União Europeia uma vez que estas vêm degradar a qualidade da água existente na bacia hidrográfica do rio Tâmega.
João Branco referiu a importância de ser realizado um novo estudo sobre os impactos ambientais que a construção das barragens irá provocar, uma vez que o documento atual já está fora de validade e “está cheio de erros e omissões”. Desta forma, a Quercus exigiu ao Governo um novo estudo de impacto ambiental e não descarta ainda o recurso à via judicial para tentar embargar as obras da barragem no Tâmega.
“As barragens não trazem progresso nem empregos. Dois dos concelhos mais deprimidos de Portugal são exatamente os concelhos que levaram agora com duas barragens, Torre de Moncorvo e Carrazeda de Ansiães. São concelhos sem gente, sem economia e os únicos polos de desenvolvimento, os rios, foram destruídos”, acrescentou.
No que diz respeito à poluição do rio, de acordo com o ambientalista, há sobretudo três formas de poluição: a industrial, a química e a orgânica.
Relativamente à poluição industrial João Branco referiu que, por indicação de cidadãos de Chaves, a Quercus denunciou ao Governo a poluição em Outeiro Seco proveniente do Parque Industrial da cidade, problema esse que continua por resolver.
A poluição química é provocada especialmente por compostos químicos que em geral é proveniente também das indústrias, havendo ainda os compostos químicos dos medicamentos que por norma não são tratados pelas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR).
Já a poluição orgânica advém de várias fontes, podendo ser de origem doméstica, agrícola, quer das agroindústrias, quer das explorações pecuárias, entre outras. Inclusive, adiantou o ambientalista, “a poluição orgânica associada aos nitratos, provenientes dos fertilizantes utilizados na agricultura, é fatal”. “Os nitratos quando chegam aos rios vão alimentar os micro-organismos que decompõem a matéria orgânica, utilizando mais oxigénio” e que consequentemente vai afetar a fauna e a flora aquáticas e degradar a qualidade de água.
Investir em redes de saneamento, em ETAR’s e a aplicação de multas aos poluidores são algumas das soluções encontradas pela Quercus para diminuir a poluição no rio Tâmega.
De referir que, para além da Geota e da Quercus, foram convidados pela organização responsáveis da autarquia de Chaves e responsáveis da empresa Iberdrola para debater o assunto, no entanto, nenhuma das entidades se fez representar.

Cátia Portela

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