As Universidades Seniores Portuguesas foram recentemente reconhecidas pelos Prémios Europeus de Inovação em Políticas Públicas (Innovation in Politics Awards), na categoria Comunidade. A proposta portuguesa foi um dos oito projetos distinguidos, entre as 600 candidaturas europeias apresentadas.

Ernesto Areias, diretor da Universidade Sénior de Rotary de Chaves

As Universidades Seniores Portuguesas foram premiadas pelo “seu dinamismo, pela diversidade de atividades desenvolvidas e por ter sido apoiada, praticamente desde o início, pelos diferentes governos”. A entrega dos prémios decorreu no dia 6 de dezembro em Viena de Áustria. A candidatura aos prémios europeus foi realizada através da Rede de Universidades da Terceira Idade (RUTIS).
O jornal A Voz de Chaves entrevistou o diretor da Universidade Sénior de Rotary de Chaves, Ernesto Areias, que destacou as mais- valias em pertencer a este “movimento cultural” que acolhe cerca de 45 mil alunos seniores e cinco mil professores voluntários em todo o país.

Enquanto diretor fundador da Universidade Sénior de Rotary de Chaves como é que viu a atribuição deste prémio?
Significa que sempre estivemos do lado certo das coisas e que sempre tivemos razão, quando recomendávamos às pessoas para aderirem a este projeto. Nenhum outro movimento cultural envolve tantas pessoas. Espero que se acorde e que a taxa de cobertura da população aumente de forma significativa. Repare que nenhuma outra candidatura portuguesa foi contemplada. Foi mais de um milhar de jurados que deram destaque às Universidades Seniores portuguesas. Um dia será o comum dos cidadãos a fazê-lo. No 25 de Abril mais de um terço dos portugueses eram analfabetos. Entretanto, melhoramos muito. A trajetória de interesse pela cultura é irreversível, sendo certo que seremos muito mais importantes enquanto país quando dermos mais importância à formação, à literatura, à música e às artes em geral. Não gosto de viver num país em que parece que só o futebol tem importância. Vivemos atolados de comentadores e de corrupção desportiva. O futebol é um jogo a que assistimos, a cultura é um espaço mágico em que participamos.

Qual a importância das Universidades Seniores no panorama nacional?
Neste momento assumem-se como um movimento cultural e de formação de adultos muito importante com uma multiplicidade de ofertas e atividades muito relevantes. Este movimento conta com a participação de cerca de 45 mil alunos e mais de cinco mil professores, quase todos voluntários. Não é possível prescindir desta atividade em nenhuma comunidade. Analisando em números, a taxa de cobertura da população é de 0.45% quando, a meu ver, deveria ser de 2%. Significa isto que as Universidades Seniores deveriam ter duzentos mil alunos em Portugal. Tem sido difícil fazer perceber ao comum dos cidadãos a sua importância porque é uma realidade relativamente recente. Repare que andámos mais de quatro décadas para que a população assimilasse as vantagens dos jardins de infância. A ignorância tem raízes muito profundas e difíceis de debelar. Há sempre uma tendência de oposição ao que é inovador.

Quem são os alunos que frequentam a Universidade Sénior de Chaves e quem são os professores?
Os alunos são pessoas que gostam de aprender, de participar e de, no seu processo natural e inevitável de envelhecimento, continuar a ser cidadãos ativos e de corpo inteiro, de terem saúde e alegria e de se relacionarem com os demais. Claro que a cultura e a formação são procuradas por quem já as tem. Sendo a vida um testemunho, os nossos alunos são cidadãos que gostam de continuar a escrever a sua história de vida manifestando total avesso à solidão e à ignorância do mundo atual. Os professores são pessoas  com excecionais qualidades humanas aceitando o desafio de partilhar o seu saber com os alunos.

Comparar uma Universidade Sénior a um lar ou centro de dia é completamente errado?
Cada instituição destas cumpre o melhor que pode as suas funções, todas elas desenvolvendo trabalho meritório. Mas são realidades completamente distintas. Os alunos das Universidades Seniores são totalmente autónomos e com vontade de viver e participar  o melhor possível. São pessoas com muita esperança e independentes no seu pensamento e ação. A realidade sociológica das outras instituições que refere é muito diferente apesar de responderem a necessidades muito concretas e serem indispensáveis.

De que forma é que as Universidades Seniores são uma mais valia para as cidades que a têm?
Pelo movimento cultural que geram, pela alegria e pela participação em múltiplas atividades. Os alunos das Universidades Seniores compõem muitos auditórios pelo seu interesse, dialogam com os vizinhos e os netos levando-lhes os sinais do mundo de hoje.
As autarquias deveriam ter um maior envolvimento e acarinhar bem mais estes projetos que custam tão pouco e que têm tanto trabalho voluntário a servi-los.

Qual é a maior dificuldade da Universidade Sénior de Chaves?
Motivar as pessoas a inscreverem-se e a participar. Deveríamos ter, pelo menos, o triplo de alunos. A comunidade flaviense está longe de ter assimilado a importância do projeto e já lá vão quase vinte anos de trabalho. Com o devido respeito é muito mais fácil estar num café a não fazer nada do que interiorizar conceitos, aprender e partilhar experiências. Cada um escolhe o caminho que entende para envelhecer. Os solitários e inativos escolheram mau caminho e vão pagar caro por isso em termos sociais, de isolamento e de saúde. Não tenho nenhuma dúvida de que os alunos das Universidades Seniores têm mais saúde, mais esperança e que são mais felizes do que as pessoas da sua idade custando menos dinheiro ao Estado. Só não vê quem não quer. A ignorância é muito crítica em relação a quem faz e engrandece a sua terra e a comunidade em geral.

Por que é que uma pessoa se deve inscrever na Universidade Sénior de Chaves?
Porque representa uma opção saudável e feliz de envelhecimento, de aproximação com os outros, de combate à solidão e convergência com um mundo em mudança.
A comunidade flaviense tem uma dívida de gratidão para com todos os professores voluntários da nossa Universidade Sénior e para com os alunos que mantêm vivo o projeto. Claro que há também uma dívida para com os rotários de Chaves pelo seu pioneirismo e serviço. Mas estes não cobram essa dívida porque o Rotary apenas serve para servir. Chaves criou em 1999 a primeira Universidade Sénior no movimento rotário, creio eu a nível mundial. Mas os dirigentes não souberam exportar este projeto nascido entre nós.
Lamentavelmente, Portugal continua a apresentar baixas taxas de voluntariado, coisa que deveremos melhorar.

Cátia Portela

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