Tem início na quinta-feira, dia 25, e decorre até domingo, dia 28, a XXVII edição da Feira do Fumeiro de Montalegre. Orlando Alves, presidente da Câmara Municipal de Montalegre, foi, há 27 anos, um dos grandes mentores de um dos eventos mais consolidados do nosso país que já ganhou o título de “Rainha do Fumeiro”.

Jornal A Voz de Chaves: Entre os dias 25 e 28 do presente mês de janeiro realiza-se a 27ª edição da Feira do Fumeiro de Montalegre. Há 27 anos, o senhor presidente foi um dos grandes mentores deste evento. Naquela altura já esperava que este certame fosse ter o sucesso que hoje tem?
Orlando Alves: De forma alguma. Digamos que partimos para uma aventura de contornos e com um fim absolutamente impossível de perspetivar. Mas percebemos logo no primeiro ano que havia aqui uma base de sustentação muito sólida que possibilitaria a criação de uma alavanca de desenvolvimento sustentável para a região. E, a partir daí, foi tudo muito mais fácil. Andámos de casa em casa, casa emprestada, soluções de recurso, mas apresentando sempre um figurino muito digno onde o cunho da ruralidade esteve sempre muito vincado, muito presente. E fomos tentando captar na urbe, que é onde existe o poder de compra dos cidadãos, fomos tentando aliciar as pessoas ou as gentes da urbe a virem ao mundo rural. E o êxito da Feira ainda hoje radica nestes dois pressupostos. Um cunho marcadamente rural em que é oferecido o produto pelos participantes, pela geografia, e também pela apetência que as gentes da urbe têm por este tipo de produtos.

Quantos stands irão estar expostos no pavilhão?
Especificamente relacionados com o fumeiro vamos ter 90 stands. Estamos numa fase de consolidação. Já tivemos mais do que aqueles que vamos apresentar neste momento. Mas estes 90 já representam, digamos, uma posição consolidada do universo dos produtores que não desistem e que dão uma perspetiva muito forte de continuidade. Mas teremos também, como habitualmente, o pão, que é sempre uma componente muito forte, o mel, que é um produto também muito idiossincrático. E depois há os licores e há uma panóplia também de produtos derivados do porco em que as pessoas naturalmente se esmeram, como as assaduras, os rojões. Há uma preocupação muito grande por parte sobretudo dos produtores mais jovens em inovar e dar assim um toque de modernidade ou gourmet àquilo que está presente na Feira propriamente dita.

Qual a quantidade de fumeiro disponível para venda na Feira?
Confesso que não tenho os números exatos. Sei que anda, normalmente, pelos 800/900 animais abatidos. E, digamos, que é à volta desta fonte que depois as demais quantidades são apuradas. Mas eu não tive sequer ainda o cuidado de perceber quais são as quantidades que vão ser registadas na entrada de produto na Feira.

Qual é o volume de negócios esperado?
O volume é sempre muito grande e dá-nos um consolo e uma vontade muito forte de continuar. Nós perspetivamos sempre que o produto vendido na Feira ande entre um milhão e meio, ou dois milhões de euros. Complementarmente, e isto que digo constitui também um pressuposto muito forte para que o município de Montalegre aposte e ponha todo o seu empenho na realização deste certame, os ganhos da restauração e da hotelaria são naturalmente também muito palpáveis, muito significativos e muito importantes. E eu só lamento é que de facto com toda esta prole de eventos que concitam uma grande atratividade para Montalegre tenhamos um hotel que está fechado e não haja ainda um motor que tenha pegado no desenvolvimento deste negócio que tinha taxas de ocupação a rondar os 60% e tem tudo para ser um negócio interessante. Mas infelizmente a iniciativa privada ainda não está virada para este tipo de investimento. Estamos à espera. No entanto, o município tem andado constantemente a tentar conseguir promotores que agarrem esta ideia e a desenvolvam.

Podemos dizer que não é apenas Montalegre que lucra com a realização deste evento. Os concelhos vizinhos também tiram vantagem, nomeadamente na área da hotelaria…
Certamente. Estamos a falar de uma região, como eu gosto sempre de falar. O que se faz em Montalegre felizmente tem impacto em toda a região. Isso deixa-nos muito contentes e confortados. E, nomeadamente, a cidade de Chaves é quem mais beneficia com este tipo de realizações. E obviamente que é bom para a região e também é condição essencial e indispensável para que, por exemplo, tenhamos neste momento em curso um investimento de três milhões de euros todo a decorrer por conta do orçamento municipal para fazer uma boa acessibilidade à cidade de Chaves, com ligação à A24, e com a promessa e garantia do colega de Chaves em dar-lhe continuidade, nomeadamente, no troço entre Soutelinho da Raia e Meixide que é de todo aquele que está em pior estado de conservação.Esta Feira tem a particularidade de ter produtores apenas do concelho de Montalegre. É uma forma de garantir a quem compra que irá comprar produtos de qualidade uma vez que Montalegre é já, por assim dizer, uma marca registada?
Certo. Nós, em defesa exatamente da marca e em defesa da idiossincrasia e da identidade da região, e porque, digamos, o produto em si, o fumeiro, os derivados do porco, e o presunto, é um produto de qualidade, e que sendo de qualidade é um produto que está no mercado a preços de certa forma proibitivos para muitas bolsas, concentramos as atenções todas no fumeiro e no presunto que é aquilo que é a alma da Feira. E temos vedado todas as hipóteses e todos os pedidos que nos têm feito para que transformemos a Feira do Fumeiro de Montalegre numa feira franca onde os tratores entrem e estejam também expostos para comercialização, ou o artesanato, ou outras coisas que sejam provenientes de outras regiões do país. Nós não temos consentido essa mistura exatamente para proteger os produtores e para também darmos um fôlego financeiro à região. Porque se vamos colocar na nossa Feira produtos que não são provenientes da produção local, estamos a entrar numa deriva que pode ser perigosa para o futuro da própria Feira e com reflexos naturalmente negativos no encaixe financeiro que nós pretendemos que fique adstrito à região e aos resistentes povoadores.

Relativamente à animação, o que é que as pessoas poderão esperar durante os quatro dias da Feira?
É uma animação muito adstrita ao folclore e à ruralidade porque é esse timbre também que suscita o envolvimento espontâneo dos visitantes. É esse toque também de ruralidade que os motiva e os envolve no consumismo e nos percursos que são feitos na região, porque quem vem da cidade vem à procura deste cunho idiossincrático que as terras do interior felizmente ainda têm e que cabe também aos autarcas saber preservar.

Existe alguma novidade nesta edição?
Nada de especial. Ao nível da organização nós pomos sempre muito rigor e muito aprumo na forma ou na exigência que tem de ser uma constante para que a qualidade do produto seja aperfeiçoada de ano para ano. E isso, felizmente, temo-lo conseguido. Os preços mantêm-se também constantes desde há 27 anos. O envolver as pessoas neste conceito de que aquilo que as pessoas fazem é bom para elas mas também é bom para a região é a nossa aposta para todos os dias e assim iremos continuar. E esse é também um dos segredos da longevidade da nossa Feira.

A Feira irá ser divulgada no próximo dia 22 no Porto. A autarquia aposta muito fortemente na divulgação deste evento em outras regiões do nosso país. Tem sido uma boa estratégia para atrair cada vez mais pessoas de fora? Tem-se sentido uma maior afluência de visitantes de edição para edição?
É verdade que hoje esta Feira deve-se muito também à forma como conseguimos motivar os media que nos distinguem sempre com uma atenção redobrada e que faz com que nós levemos a montanha a Maomé, já que Maomé não pode vir à montanha. Se eu fizer uma conferência de imprensa a promover a Feira do Fumeiro em Montalegre a motivação dos media não será por aí além. Portanto, nós temos de constituir parcerias com o chamado quarto poder, que é cada vez mais o primeiro poder. E é nesse sentido que nós temos um bom relacionamento com todos os órgãos de comunicação social, sejam escritos, sejam falados, sejam visionados, porque só assim é que nós conseguiremos de facto criar fluxos constantes para a dinamização do tecido socioeconómico das terras de Barroso.

A divulgação também se estende a Espanha?
Não. Fazemos muito pouco com um periódico espanhol e também numa rádio de Verín, mas não tem grande expressão. E também não é propriamente esta a fileira de atratividade junto das pessoas ou das gentes da raia. Porque as vivências são as mesmas, os costumes são os mesmos, as tradições são as mesmas e digamos que não é por aqui que nós conseguimos trazer uma grande massa de visitantes oriundos da Galiza, como, por exemplo, acontece no Campeonato do Mundo de Rallycross e com as Sextas 13 onde de facto aí a presença dos galegos é notória e muito simpática.

Quanto tempo leva a organização de um evento desta dimensão?
Nós começamos a preparar um evento no término daquele que estamos a viver. A partir do dia 28 já começamos a preparar, nomeadamente na relação que mantemos com os produtores. Começamos a vinculá-los exatamente à ideia da qualidade do produto que depois vai ser transformado e que passa naturalmente pela forma como os animais são alimentados, o que cria aqui uma transversalidade simpática por quanto obriga os produtores a trabalhar as suas propriedades.

Há pouco falava na questão da intervenção que está a ser feita na estrada que liga Montalegre a Chaves. Essas obras poderão influenciar o número de visitantes?
Não creio. Temos um constrangimento, de facto, entre Meixide e Vilar de Perdizes e tivemos de encerrar esse troço ao tráfego por razões exclusivamente de segurança devido à necessidade da aplicação de explosivos. Os taludes são também muito altos e perigosos. O pavimento é escorregadio e com lama. E a faixa de rodagem é muito estreita. Não havia hipótese de o empreiteiro operar na estrada garantindo a fluidez no tráfego numa outra faixa, porque praticamente a estrada só tem uma faixa. E, portanto, tivemos de tomar esta medida também no propósito para nós importantíssimo de assegurar uma transitabilidade fluente no mês de abril, altura em que temos o campeonato do mundo de Rallycross e naturalmente que as equipas e os pilotos e todo o circo que a fórmula do rallycross, é uma Fórmula 1 mais pequenina, naturalmente suscita. É gente que tem de ter uma acessibilidade rápida aos hotéis da cidade de Chaves. E, portanto, também estamos a trabalhar nesse pressuposto. De toda a forma, a estrada estará convenientemente sinalizada. Isto é, o percurso alternativo estará convenientemente sinalizado e não tenho dúvida nenhuma que aqueles que elegem Montalegre como uma terra onde se come bem, onde se contempla paisagem intacta, não vão abdicar destes miminhos em troco de mais dez ou 15 minutos que porventura o percurso alternativo obrigue a percorrer.

Em abril, como falou, haverá o Campeonato do Mundo de Rallycross, haverá também a primeira Sexta 13 do ano. Prevê-se então que nessa altura as obras já estejam concluídas.
Sim, nessa altura o pavimento já estará digamos trabalhado para possibilitar uma acessibilidade mais rápida e direta à vila de Montalegre, e em condições de segurança.

Permita-me que lhe faça duas perguntas que não estão relacionadas com a Feira. A primeira tem a ver com a exploração de lítio no concelho de Montalegre para a produção de baterias. As duas empresas envolvidas entraram em litígio. Qual o ponto de situação? Haverá ou não exploração?
Aquilo que eu sei é que de facto as empresas têm um contencioso, o que no mundo dos negócios é absolutamente admissível e normal. Mas tanto quanto sei o caderno de encargos que uma das empresas apresentou ao Governo está em apreciação. E, de acordo com o reporte que me tem sido feito pelo senhor Secretário de Estado da Energia, em nome do interesse público o Governo tomará atempadamente as medidas que têm de ser tomadas. Uma coisa é certa. A grande oportunidade para o Alto Tâmega hoje está, digamos, focalizada nos concelhos de Montalegre e Boticas à volta da fileira do lítio, que pela extensão da jazida, pelas quantidades de mineral já alavancadas não tenho dúvida nenhuma que este assunto é para ser agarrado com toda a energia e com toda a força e vai ser, como disse, a mola real do desenvolvimento do Alto Tâmega.

Durante o ano passado foi anunciada a construção de um call-center no concelho de Montalegre. Qual o ponto de situação?
Exigiram-nos 100 inscrições. Estamos ainda longe de as conseguir. Andam à volta das 55 inscrições. É um assunto que não vamos deixar esquecido, não vamos deixá-lo cair. A verdade é que é necessário que os candidatos dominem muito bem o francês. As escolas estão mais vocacionadas para o inglês, e o francês é uma língua que de certa forma não mobiliza muitas atenções junto das camadas jovens. E, portanto, estamos a tentar fazer a captação junto da diáspora, junto da comunidade migrante, sobretudo em França. E é de lá que temos tido, de facto, a adesão significativa de muita gente jovem que estando lá no desemprego tudo faz para agarrar esta oportunidade na terra dos seus pais. Temos esperança em poder desenvolver este projeto. É também muito importante para a fixação de pessoas à nossa terra. E, como disse, não vamos descurar este desafio e vamos agarrá-lo com todo o entusiasmo, como aliás temos vindo a fazer desde o início.

Quer aproveitar para fazer um convite às pessoas para que visitem aquela que é apelidada de Rainha do Fumeiro?
Naturalmente que agradecendo esta oportunidade que me é dada, resta-me dizer que vale a pena ir a Montalegre entre os dias 25 e 28. Aliás, vale a pena ir todos os dias a Montalegre, mas particularmente entre estes dias, altura na qual se realiza a Feira do Fumeiro pois é uma oportunidade única para que as pessoas se apercebam da vitalidade que o mundo rural hoje ainda apresenta. Não tenho dúvida nenhuma que a grande montra do mundo rural está sediada nos concelhos que ainda conseguem dinamizar a população à volta de temas, como o fumeiro. Aconteceu recentemente em Boticas, e vai acontecer agora em Montalegre, e acontecerá depois noutras localidades. E será também uma excelente oportunidade para que todos nos consciencializemos de que Portugal não é só a cidade, não é só a praia, Portugal exige um saber estar de todos nós, dos políticos, dos autarcas, mas, sobretudo, da população. Temos todos de perceber que de facto a harmonia e a coesão de um país se fazem também com estas visitas solidárias, estes abraços de solidariedade que acabam por ser dados por aqueles que estão na cidade e têm poder de compra, visitam com regularidade o mundo rural comendo obviamente nos muitos e bons restaurantes que há espalhados pelo país, e que, dessa forma, se ajuda a fixar as pessoas à terra.

Maura Teixeira

 

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