Os soutos não produzem só castanhas. O técnico da ADRAT Gomesindo Chaves acredita que a região do Vale do Tâmega e da Serra da Padrela têm potencial para serem destinos turísticos da apanha de cogumelos silvestres

“A nossa população nunca encarou a floresta como fonte de rendimento”. Quem o diz é Gomesindo Chaves, técnico da Associação de Desenvolvimento da Região do Alto Tâmega (ADRAT). Contudo, não falta potencial. Entre as localidades mais ricas em cogumelos silvestres destacam-se o Vale do Tâmega, com uma grande área de pinhal, soutos e carvalhal, bem como a zona de Carrazedo de Montenegro e a Serra da Padrela. Falta apenas orientação. “Tem de haver uma estratégia para a região no âmbito da micologia”, aponta o técnico da ADRAT.

Para Gomesindo Chaves, a falta formação impede a valorização da actividade. Produtores, apanhadores, donos de restaurantes e consumidores do Alto Tâmega não apostam nos cogumelos e este recurso florestal corre o risco de desaparecer junto com uma “sabedoria de gerações”. O agroturismo e o turismo rural podiam ser mais sensíveis e aproveitar o potencial do cogumelo para enriquecer a gastronomia local, sugere. “Se os municípios entrarem nessa lógica de valorização da região, as associações começam a aparecer”, acredita.

Vila Pouca de Aguiar é dos municípios do Alto Tâmega que mais tem apoiado o desenvolvimento da micologia com várias acções, como a Feira Gastronómica, a Confraria do Cogumelo e a aposta num Parque Micológico. Montalegre também já promoveu um Encontro Micológico para as pessoas conhecerem os cogumelos comestíveis existentes nas florestas. Este tipo de iniciativas “devia ser alargada aos restantes concelhos do Alto Tâmega de forma a promover esta região como destino turístico de micologia”, em especial nas épocas de “menos chamariz”. “A micologia está a entrar na moda”, mas para já “são muito poucas pessoas que ganham com isso”, considera Gomesindo Chaves.

Em 2005/6, a ADRAT ofereceu uma formação sobre a produção de cogumelos a mais de 100 pessoas, mas poucos locais e privados aderiram à iniciativa. No entender do técnico, a falta de interesse pelo cogumelo silvestre ainda está relacionado com a micofobia. “De vez em quando, há intoxicações e a população preocupa-se em comer pratos confeccionados com cogumelos”. O mesmo não acontece com os vizinhos de Espanha, os que mais lucram com o negócio dos fungos que a mãe natureza oferece.

Sandra Pereira

Poucos conflitos entre proprietários e apanhadores acontecem nos soutos de castanheiros

Em Setembro do ano passado, foi publicada uma lei que define que a colheita por terceiros de cogumelos silvestres em explorações florestais ou agro-florestais privadas só pode efectuar-se com consentimento dos proprietários. Segundo Gomesindo Chaves, técnico da ADRAT, “não há muitos conflitos” entre proprietários de terrenos e apanhadores de cogumelos no Alto Tâmega porque há muitos baldios, a estrutura fundiária é composta por parcelas pequenas e “as pessoas não olham para a micologia como fonte de rendimento”. Na verdade, a apanha de cogumelos silvestres não tem regra: apanha-se no terreno do vizinho variedades e quantidades aleatórias (por lei, a colheita para fins particulares não pode exceder 5 kg por dia e colector). Os poucos conflitos acontecem nos soutos de castanheiros por os proprietários temerem que lhe roubem “o petróleo de Trás-os-Montes”.

S.P.

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