Luís Miguel Oliveira nasceu em Chaves e é um dos neurocientistas da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, que tem desenvolvido vários estudos com resultados bastante promissores na área das demências, como é o caso do Alzheimer e do Parkinson. Apesar destas duas doenças ainda não terem uma cura, o investigador flaviense acredita que nos “próximos dez anos” a comunidade científica consiga desenvolver “uma terapia revolucionária”.

Luís Miguel Oliveira: O flaviense que tem ajudado a encontrar respostas para os doentes de Alzheimer e Parkinson

Doutorado em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e com pós-doutoramentos realizados no Instituto Max Planck na Alemanha e na Universidade de Columbia, Luís Miguel Oliveira vive atualmente em Nova Iorque e está exatamente onde queria estar e a fazer aquilo que sempre mais o entusiasmou.
A começar “pela cidade que nunca dorme” e onde “sabemos que vamos estar com alguns dos melhores profissionais”. A procura pela excelência levou o flaviense, de 35 anos, a concorrer a um projeto de investigação na Universidade de Columbia, que é aliás uma das mais conceituadas instituições académicas do mundo e “com especial tradição na neurociência”, tendo inclusive “vários prémios nobel”, conquistados por investigadores que ainda continuam em atividade. Hoje pertence à equipa de investigadores do Departamento de Patologia e Biologia Celular do Instituto Taub para a Investigação da Doença de Alzheimer e do Envelhecimento Cerebral, da Universidade de Columbia, e fala-nos do que se sabe e do que se procura ao nível da investigação científica nestas demências.

Alzheimer e Parkinson: Quando os neurónios deixam de funcionar corretamente

Quando falamos de doenças como Alzheimer e Parkinson estamos a referir-nos a um grupo de doenças neurológicas chamadas de doenças neurodegenerativas que afetam sobretudo os neurónios e que causam a sua morte.
“As doenças de Alzheimer e Parkinson são as mais comuns mas este grupo inclui outras doenças como a Esclerose Lateral Amiotrófica e a doença de Huntington”, sublinha o flaviense. “O que distingue as doenças é o tipo de neurónios mais suscetíveis à degeneração, o que resulta posteriormente numa perda das funções cerebrais que esses neurónios suportam”, acrescenta.
Quando os neurónios afetados morrem não existe forma de os “trazer de volta à vida”, porque, ao contrário das células da pele, por exemplo, os neurónios não têm a mesma capacidade de regeneração, o que leva “a uma perda irremediável do tecido cerebral”.
A doença de Alzheimer começa numa região interior do cérebro chamada hipocampo onde duas proteínas importantes para o normal funcionamento dos neurónios, a Amilóide-beta e a Tau, deixam progressivamente de ser recicladas: “A Amilóide-beta forma um tipo de agregados no espaço entre neurónios chamados placas amilóides, e a Tau agrega dentro dos neurónios formando outro tipo de agregados que se chamam entrelaçados (do inglês tangles) neurofibrilares. Não se sabe ao certo se estes agregados são a causa ou uma consequência da doença, mas sabe-se que a presença destes agregados está associada a processos de inflamação crónica no cérebro, e que à medida que o número destes agregados vai crescendo no hipocampo, maior o número de neurónios que acabam por morrer e maior a dificuldade de formar novas memórias”, sustenta o investigador.
Com a progressão da doença, estes agregados multiplicam-se para regiões mais frontais do cérebro afetando a linguagem e o pensamento lógico. Quando isto acontece, as pessoas têm dificuldade em encontrar as palavras certas e até a articular frases, resolver problemas simples, como fazer a lista das compras, passa a ser outro obstáculo. Segue-se a região que controla as emoções, e as pessoas perdem o controlo sobre o humor e sentimentos. Por fim, a doença atinge a parte de trás do cérebro onde são controlados os sentidos e guardadas as memórias mais consolidadas e antigas. Esta é talvez a parte mais ingrata da doença: Nesta fase, esclarece Luís Miguel Oliveira, as pessoas podem sofrer alucinações, deixam de reconhecer os familiares e amigos e perdem a consciência de si próprias e do mundo que as rodeia. Num estado terminal a doença pode mesmo comprometer funções vitais como o controlo sobre os movimentos da respiração ou do batimento cardíaco, resultando na morte.

Ninguém está imune e o envelhecimento é o principal fator de risco destas doenças

Equipa de investigadores do Departamento de Patologia e Biologia Celular do Instituto Taub para a Investigação da Doença de Alzheimer e do Envelhecimento Cerebral, da Universidade de Columbia

No caso da doença de Parkinson, a região do cérebro inicialmente afetada chama-se substantia nigra (do latim). É uma zona rica em neurónios produtores de dopamina e que é responsável pelo iniciar de uma ação e pelo controlo dos movimentos voluntários. Esta é a principal região do cérebro que ajuda a calibrar a estabilidade dos movimentos, sendo que os primeiros sintomas da doença são os tremores involuntários, rigidez muscular, lentidão anormal nos movimentos e instabilidade postural.
De acordo com o neurocientista “ninguém está imune” a estas duas doenças. “Existe uma minoria inferior a 10% dos pacientes que têm uma causa genética definida, mas a grande maioria é afetada de forma esporádica. O maior fator de risco para contrair uma destas doenças neurodegenerativas é o envelhecimento”, sendo que a probabilidade de uma pessoa sofrer de Alzheimer dobra a cada 5 anos a partir dos 65 anos. Aos 85 anos, uma em cada duas pessoas sofrerá de Alzheimer. O historial familiar é outro elemento de pré-disposição para a doença, tal como acontece na diabetes ou na hipertensão. Ocorrências de traumatismos cranianos, pequenos AVCs ou traumas emocionais podem iniciar uma cascata de eventos que levam ao aparecimento destas doenças. O género é também um fator importante, lembra o flaviense, e por norma estas doenças têm maior incidência nas mulheres.
Embora os avanços científicos, conjugados com o desenvolvimento tecnológico nesta matéria, tenham ajudado, e muito, a conhecer melhor as doenças de Alzheimer e Parkinson, ainda não foi possível encontrar uma cura. “Existem tratamentos para estas doenças que mascaram temporariamente os sintomas, permitindo aos pacientes terem mais qualidade de vida, mas não existe nenhum tratamento que promova uma cura ou sequer atrase a progressão da doença”, diz o neurocientista.

“É melhor uma pessoa ler um livro, aprender culinária e tirar um curso de fotografia, do que estudar para ser o campeão de Sudoku”

Apesar de ainda não haver um tratamento que elimine em definitivo estas doenças, existem, porém, alguns comportamentos que podem retardar o seu desenvolvimento. Neste contexto, refere o investigador, “há vários hábitos de estilo de vida que reduzem efetivamente o risco de contrair uma doença como o Alzheimer”. A prática regular de exercício físico, uma alimentação mediterrânica saudável e um controlo emocional do stress são fundamentais na ótica do especialista. O interesse e a constante aprendizagem de novas coisas também ajuda. Mas é na diversidade que está a chave, alerta: “É melhor uma pessoa ler um livro, aprender culinária e tirar um curso de fotografia, do que estudar para ser o campeão de Sudoku”.
Por fim, é também importante ter bons hábitos de sono porque é durante o sono que o cérebro recicla o material que já não é necessário e é também quando dormimos que as nossas memórias são consolidadas.
Existem em todo o mundo cerca de 50 milhões de doentes com Alzheimer. Os países mais desenvolvidos, como Portugal, são os mais afetados devido ao envelhecimento acelerado da população. Estima-se que este número vá triplicar em 2050 caso não se encontre uma “terapia verdadeiramente revolucionária”.
“Os constantes avanços científicos tornaram possível que hoje a esperança média de vida seja superior a 80 anos, mas chegamos a um ponto em que a esperança média de vida ultrapassou a esperança média de vida saudável”.
Neste caso, salienta o responsável, é “absolutamente necessário apostar na investigação científica” para se conseguir desenvolver terapias capazes de curar ou atrasar a progressão da doença.
“Estamos agora a entrar na era da medicina personalizada onde os diagnósticos e tratamentos serão desenhados para o indivíduo e não para a população”. Desta forma, “os imensos avanços tecnológicos […] permitirão, em breve, que no conforto do seu smartphone cada indivíduo receba informações específicas sobre o seu estado de saúde, quais os exames que deve fazer, ou quando deve consultar um médico. Portugal tem nesta vertente uma excelente oportunidade e inovação, uma vez que a maior parte das pessoas no país faz parte do mesmo sistema de saúde, o Sistema Nacional de Saúde, onde todos os dados e informações estão centralizados”.
Mas há mais: segundo Luís Miguel Oliveira os avanços científicos na área das demências têm sido fenomenais.
“Nos últimos anos houve enormes inovações científicas e tecnológicas que permitem olhar para estas doenças de outra forma”: é o caso, por exemplo, das investigações realizadas na área do genoma humano e das células estaminais. Hoje sabemos quais os fatores genéticos que contribuem para estas doenças, e já é também possível “reprogramar, por exemplo, células da pele de um paciente em células neuronais, o que significa que pela primeira vez é possível estudar neurónios de pacientes vivos, ainda que de forma indireta”, lembra o investigador.
Mais recentemente foi desenvolvida “uma nova tecnologia de engenharia genética chamada CRISPR (Repetições Palidrómicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas), que certamente tem o prémio nobel à espera, e que permite modificar ou regular a atividade de um ou mais genes de interesse no meio dos cerca de 20 mil que existem numa célula humana”, permitindo corrigir mutações genéticas ou variantes de risco no DNA. Também ao nível do diagnóstico têm sido feitos grandes progressos através da utilização da imagiologia que permite hoje “detetar alterações morfológicas nos cérebros dos pacientes e inclusive detetar os agregados amilóides e acompanhar a sua evolução. Hoje sabemos que esses agregados começam a acumular-se no cérebro 10 anos ou mais antes dos primeiros sintomas ocorrerem. Esse conhecimento transformou a forma como hoje estão a ser planeados os ensaios clínicos. Estávamos a atuar demasiado tarde… era como se quiséssemos baixar os níveis de colesterol num paciente que já teve um ataque cardíaco. É completamente ineficaz. O colesterol teria que ter sido controlado muito antes. E hoje sabemos que provavelmente as pessoas têm de ser tratadas antes dos sintomas aparecerem”.
O investigador português conta que começou a fazer investigação laboratorial em 2004, ainda antes de terminar a licenciatura em Bioquímica. Anos depois, decidiu continuar os estudos na Alemanha, onde esteve durante dois anos. Depois disso partiu para a terra prometida e instalou-se definitivamente, em 2014, nos Estados Unidos da América.
Parte do seu trabalho, no qual se baseou o seu doutoramento, tem sido desenvolvido com o objetivo de perceber o efeito de produtos derivados dos açúcares na doença de Parkinson. Atualmente, e de acordo com os avanços realizados pela comunidade científica, sabe-se que os açúcares e a insulina afetam os processos metabólicos no cérebro, sendo a diabetes um fator de risco estabelecido para as doenças de Alzheimer e Parkinson. Este ano, em colaboração com os investigadores Hugo Miranda e Tiago Outeiro do Centro de Estudos de Doenças Crónicas (CEDOC) da Universidade Nova de Lisboa, e o envolvimento de 18 laboratórios localizados na Europa, foi publicada uma investigação onde demonstraram que “a modificação da proteína central na doença de Parkinson, a alfa -sinucleína, por moléculas reativas derivadas dos açúcares aumenta a toxicidade em diversos modelos celulares e animais e que fármacos que inibam essa reação têm um efeito protetor”.
Mas os projetos presentes e mais relevantes do flaviense, e que têm permitido compreender melhor as patologias das doenças de Alzheimer e Parkinson, baseiam-se no uso de algumas das “revoluções científicas” ao nível da engenharia genética.
“A minha abordagem passa por usar células derivadas de pacientes que tenham uma variante má do gene de interesse, transformá-las em células neuronais no laboratório, e através da utilização da tecnologia CRISPR modelar a atividade desses genes, observando depois como é que as células reagem e quando é que diferentes estímulos levam ao aparecimento de processos patológicos associados às doenças de Alzheimer ou Parkinson”, explica Luís Miguel Oliveira, adiantando que no próximo mês será publicado um trabalho que explica o processo e as conclusões desta investigação.
O neurocientista admite que esta “ferramenta molecular” irá servir como plataforma para o teste de novos fármacos em diferentes condições celulares.
Questionado sobre a possibilidade de no futuro haver uma cura para a doença de Alzheimer e para a doença de Parkinson, o neurocientista é bastante otimista e acredita que será ainda durante a sua geração que a comunidade científica encontrará uma terapia revolucionária para estas doenças.
“Se não for uma cura, pelo menos atrasar de tal modo a sua progressão por forma a estender a qualidade de vida dos doentes por décadas e reduzir o impacto pessoal e económico da doença ao mínimo. Nos próximos cinco a dez anos teremos resultados de ensaios clínicos que estão hoje a ser conduzidos já com base neste conhecimento recente e estou muito otimista nos resultados que se irão obter”.

Cátia Portela

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