Há três temporadas consecutivas a organizar e a planear o futebol do CDC Montalegre no Campeonato de Portugal, o flaviense André Veras explicou À Voz de Chaves como está a correr a preparação para a próxima temporada, quais as ambições dos barrosões e ainda as suas metas enquanto dirigente desportivo. Aos 32 anos, o antigo jogador está apostado em vingar no futebol, agora em outras funções.

A Voz de Chaves: Foi um ano muito difícil para o Montalegre alcançar a manutenção?
André Veras: Sim, foi mais um ano num campeonato que toda a gente sabe que não é de brincadeira. É uma prova com muita competição e com custos avultados para os clubes da nossa zona. Uma vez mais conseguimos chegar a bom porto, com aquilo que era o nosso objetivo, a manutenção. Vamos preparar a próxima época nos mesmos moldes, tentar reforçar a equipa com algumas mais valias, algo que está a ficar bem encaminhado, iremos fazer uma equipa mais competitiva, mais equilibrada e fazer um campeonato mais descansado do que nos dois anteriores.

O principal objetivo é ter uma equipa mais competitiva desde início?
A ideia parte sempre desse princípio e para esta época vamos conseguir dotar o plantel com jogadores da nossa região. Infelizmente na região do Barroso a formação é escassa, a mão-de-obra é escassa, mas ainda conseguimos ter alguma coisa em Chaves, de tempos anteriores, pois o principal formador começa a apostar em jogadores de fora o que torna difícil também reter alguma coisa do que aqui é formado. Vamos conseguir este ano ir buscar dois ou três jogadores que são da região mas estavam a lutar por outros objetivos em outros clubes. Conseguimos fechar com eles e vamos apostar em jogadores mais experientes.

É possível fazer uma equipa competitiva com jogadores da região?
É um princípio que tenho e que sempre tive, assim como também tem o presidente do clube, que é de procurar ter jogadores transmontanos no plantel. Além da escassez financeira que vivemos, o que nos ajuda a poupar como por exemplo na questão da alimentação e estadia, é um jogador que sente o emblema, pois são da região, sabem quais são as dificuldades de lutar contra o ‘sistema central’ de clubes do litoral que têm muitas mais vantagens e soluções.

Têm também recorrido a empréstimos…
É uma boa solução quando os jogadores têm qualidade, apesar da sua tenra idade. Foi uma agradável surpresa para muita gente, para mim não, porque estava informado, mas o Bruno Morais, emprestado pelo Gil Vicente, foi uma mais-valia, a fazer primeiro ano de sénior, e o Bruno Lourenço, dos juniores do Benfica mas emprestado pelo Aves. Jogadores que saem agora muito mais homens, mais jogadores e mais completos, do que quando chegaram. Não tenho medo de apostar nesta juventude, pois quando vêm focados e a apostar naquilo que querem, trabalham, lutam, entendem o projeto e acaba por correr bem.

Mas vão manter a base da temporada passada?
Sim, por isso é que pelo menos 11 jogadores vão-se manter da temporada passada. Vamos dar continuidade. Temos já sete jogadores praticamente contratados e, de resto, temos ainda posições por preencher.
Não falando só do plantel, a estrutura vai dar um passo em frente?
Está em cima da mesa uma parceria para o departamento clínico estar associado a uma entidade privada mas que será uma boa parceria…

Sente-se muito a interioridade num clube como o Montalegre?
Torna-se difícil, pelas acessibilidades, pois são o que são, embora estejam a ser melhoradas nesta altura. Por exemplo, o Pedras Salgadas está no mesmo campeonato mas está muito melhor localizado, com auto-estrada à porta… consegue atrair outro tipo de jogadores da zona de Fafe ou Amarante, por exemplo. Pagamos a interioridade, mas também temos outras coisas de valor, como o saber acolher, saber receber e todos os jogadores saem maravilhados com o trato que recebem e isso é valorizador.

Se o objetivo é um campeonato tranquilo, significa que não há espaço para outros voos…
Não, é preciso ter os pés bem assentes no chão. Para pensar em outros voos, é preciso dotar o clube com outras infra-estruturas, com outros recursos humanos. Neste campeonato já há exigência e mesmo assim temos as nossas limitações mas dentro disso temos trabalhado para melhorar e dar resposta a tudo o que é necessidade, quer dos atletas que do clube.

Para a próxima época haverá três equipas do Alto Tâmega na mesma prova, é benéfico?
Penso que sim… Quanto mas não seja na redução de custos, a nível de viagens, a nível de deslocações e isso tudo. É preciso perceber também se vão ou não ser encaixadas as equipas da Madeira na série A. As deslocações são importantes para os orçamentos e as pessoas não têm noção de quanto é que isso acarreta despesas ao clube.

Mas abre espaço a mais atletas poderem competir no nacional na região…
Não tenho nada contra o projeto do GD Chaves, mas há uns anos que não é o mesmo que era no meu tempo. Lembro-me que nos juniores a maioria éramos da zona e região. Isso trazia muita gente da zona para ver os jogos. Agora na equipa de juniores são muitos mais jogadores de fora. São políticas, é também a evolução do futebol e até algum desaproveitamento por parte da juventude em não lutar por um lugar. Mas cada um responde pelos seus projetos.

Sobre o Campeonato de Portugal, é este o modelo certo?
Tenho opinião formada sobre isso, e é difícil de entender um pouco todas as mudanças… mas o problema não está no campeonato, está na Liga. O mais correto neste momento são as quatro séries, vamos voltar à forma antiga, ajuda a reduzir um pouco os custos, mas o problema não é esse. Descerem cinco equipas em 18 clubes é também pacífico, mas as subidas, da forma que estão, não. Os quatro primeiros de cada série deviam ter subida direta. Estamos a falar de igualdades, mas as informações que tenho é que cada vez vai ser mais difícil chegar às competições profissionais, quer no futebol, quer no futsal.

Será a terceira época como diretor desportivo, como está a correr esta experiência como dirigente?
Vamos para o terceiro ano e são três anos a trabalhar num clube que toda a gente sabe as limitações que tem. Diria que não sou bem um diretor desportivo, porque tenho feito um bocado de tudo neste projeto, mas também tem sido algo que me tem enriquecido a nível pessoal e se um dia mais tarde for para outros patamares também irei mais conhecedor da realidade do que é o meu trabalho e por aquilo que é preciso passar. Será mais fácil perceber as ligações entre vários departamentos que é necessário ter. No Montalegre faço um bocado de tudo, e tenho apoio, pois estes clubes vivem e sobrevivem muito por carolice de muita gente, e tem sido uma experiência ótima. Tira-me muitas horas de sono, dá-me muitas dores de cabeça, dedico muitas horas do meu dia a isto, apesar de me manter como mediador de seguros, que permite conciliar…

Mas é uma aposta pessoal esta função no futebol…
Tenho apostado na formação, tenho feito alguns cursos, tentado estar a par do que é a evolução no desporto, pois cada vez mais é necessário. A exigência e o nível da Liga e Liga 2 é elevada. Para ser jogador e treinador é preciso passar por fases de formação. Para ser dirigente e presidente não… mas isso vai mudar, a FPF está a apostar nisso e os dirigentes terão de ter também formação. É uma adrenalina diferente do que era quando era jogador, começo a trabalhar um mês e meio antes da época começar, ainda mal acabou a outra e já estou a preparar a nova. Há três anos que não tenho férias. Mas é a vida para esta função e num clube que vem da distrital que tem escassez de recursos humanos tem de ser assim.

O objetivo é atingir outro patamar?
Nesta pré-temporada houve a hipótese de seguir para outro clube, e há ainda uma outra abordagem, mas o presidente do Montalegre está a par. Terá de ser sempre para outros projetos, outra dimensão e que envolvam outras competições. Para deixar um projeto que está praticamente fechado para a nova época para mudar para outro na mesma situação será difícil. Mas é o bom do futebol, há várias propostas de vários clubes, por causa do meu trabalho, o que é bom e é um reconhecimento.

Como jogador faltou chegar a outros patamares, mas agora como dirigente isso pode acontecer…
É verdade, podia ter chegado, toda a gente diz isso. Mas não me arrependo de nada, o passado é passado. Agora é pegar nos erros cometidos e evitar comete-los. Isso está sempre na minha mente.

 

 

 

Diogo Caldas

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