Livros, debates, exposições e espetáculos voltaram à Universidade Sénior de Chaves, entre os dias 8 e 11 deste mês, e por lá passaram mais de 600 flavienses.

Depois do sucesso da primeira edição, a “Festa da Literatura”, uma iniciativa do Clube dos Amigos do Livro do Rotary Clube de Chaves regressou à cidade flaviense. O salão nobre da Universidade Sénior foi o principal ponto de encontro desta “festa” que se estendeu também a outros locais da cidade, como é o caso das escolas, do quartel do RI19 e do estabelecimento prisional. Um dos debates foi ainda organizado na Biblioteca de Verin, Espanha.
“Este ano puderam assistir à FLIC (Festa da Literatura de Chaves) mais de duzentos jovens alunos, professores, oficiais do exército e cerca de vinte reclusos. Em todos os lugares fomos muito bem recebidos”, referiu o diretor da Universidade Sénior de Chaves.
A ideia, conta Ernesto Areias, passa por levar “os escritores e a literatura onde nem sempre chegam”.
“Esta festa não é para eleitos nem para uma elite é para todos”, acrescenta Manuela Rainho. “Há na nossa cidade um núcleo cultural, há gente que escreve, que faz coisas e é importante que as pessoas se apercebam disso”.
Ao todo foram organizadas 11 mesas de trabalho para falar da literatura em língua portuguesa e espanhola e foram convidados dois escritores da Corunha, Espanha, e 24 escritores da região de Trás-os-Montes. A estes associaram-se outros tantos artistas plásticos, músicos, bailarinos e atores.
Em simultâneo foi organizada uma exposição de escultura com trabalhos de vários artistas plásticos a que se juntaram as obras, também de escultura, elaboradas pelos alunos da Universidade Sénior durante as aulas de cerâmica.
Para além da parte cultural, Manuel Rainho, destaca o lado “humano” do certame que é, no seu entender, o que diferencia a Festa da Literatura de Chaves das outras iniciativas literárias realizadas no país.
“Para além da parte mais científica do estudo da língua, achamos que é importante dar um cariz mais humano e de partilha de estados de alma”, sublinhou a professora.

“É necessário que os pais em casa, assim como na escola, deem o exemplo e mostrem que ler é entusiasmante”.

A cerimónia de abertura do evento, quarta-feira, contou com a participação do Teatro Experimental Flaviense e logo depois deu-se início ao debate que abordou o processo criativo na escultura, na pintura, na poesia e no ensino e alguns trabalhos de Bordalo II. No dia seguinte, os livros e os escritores visitaram três escolas do concelho, houve um pequeno momento de poesia, protagonizado pelo Grupo de Jograis da Universidade Sénior, e houve ainda um espetáculo de dança representado pelos alunos da Escola de Dança Ent’Artes.
Neste mesmo dia falou-se sobre a literatura infanto-juvenil e a influência dos livros nas crianças e de que forma a leitura pode interferir na construção da personalidade dos mais pequenos.
Para a professora Beatriz Martins, que foi a moderadora do painel “De pequenino se torce o pepino”, existem várias “leituras” e estas provocam diferentes efeitos nas crianças, não só porque “as pessoas em si são diferentes mas também porque existem várias circunstâncias à volta, nomeadamente a família, a escola, que fazem com que os livros, mesmo sendo considerados muito importantes, não tenham o mesmo efeito”.
Na opinião da responsável, para incentivar uma criança a ler “é necessário que os pais em casa, assim como na escola, deem o exemplo e mostrem que ler é entusiasmante”.
Por outro lado, lembra Manuela Rainho, é importante os autores terem em conta de que “é importante ir ao encontro do gosto e da realidade destes novos leitores, porque se nós não fizermos isso vai ser muito difícil criar hábitos de leitura nesses leitores”.
Na sexta-feira à tarde o momento musical foi protagonizado pelo Quarteto de Saxofone da Academia de Artes de Chaves e à noite ouviu-se poesia, momento que contou com a presença do grupo Pontas Soltas e de outros poetas da terra. O último dia do evento foi dedicado à realização de um peddy-paper literário, à apresentação de livros e à comemoração do décimo sétimo aniversário da Tuna da Universidade Sénior de Chaves.
Durante o certame os visitantes puderam ainda adquirir livros de autores flavienses, de toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douto e da Galiza na feira do livro organizada no primeiro piso da universidade pela livraria Traga-Mundos de Vila Real.
O autor de “O Homem sem Memória” e de “Crónica Triste de Névoa” foi um dos escritores flavienses convidados para dar a sua opinião sobre o fantástico mundo da literatura e para partilhar a sua experiência.
Relativamente à realização do certame na cidade de Chaves, João Madureira elogiou a iniciativa e aplaudiu a preocupação da organização em ter presente autores de Chaves e da região transmontana. O flaviense considera que existe “gente com muita qualidade a escrever na província” mas que têm dificuldade em chegar às editoras.
Neste caso, “é preciso fazer-se parte de famílias, é preciso conhecer-se agentes literários, gente que faz publicidade nos jornais, ou seja, é preciso conhecer as pessoas certas. O que é que define um bom livro de outro que não é conhecido? Nada, a não ser a publicidade”, disse João Madureira.

Diretor da Universidade Sénior acredita que a FLIC irá continuar a afirmar-se na cidade

Para o diretor da escola o balanço desta segunda edição da “Festa da Literatura” é “muito positivo”, apesar de considerar que o “evento ainda está em fase de afirmação”. Mesmo assim, pela iniciativa passaram mais de 600 pessoas.
“Estando longe de ser um número ideal, sentimos que estamos a crescer e a afirmar a FLIC. No próximo ano esperamos que este número seja superior ao dobro porque faremos uma aposta forte nas escolas que nos parecem dispostas a colaborar e a receber os escritores”, adiantou Ernesto Areias.
Numa altura em que os livros perdem cada vez mais adeptos, o escritor e advogado flaviense acredita que “uma sociedade sem livros, sem literatura, sem pensadores seria uma sociedade profundamente doente” e que esse não será certamente o caminho escolhido. No entanto, admite, que “o mercado do livro sofrerá a erosão causada pelo ebook e pela net no seu todo”.
Quanto às próximas edições da Festa da Literatura Manuela Rainho garante que esta irá continuar a alargar-se não só à literatura mas também a outras formas de arte.

Cátia Portela

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